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sábado, 4 de abril de 2009

Shivabalayogi

Deambulando pela Little India singapurense (na rua Syed Alwi, mesmo em frente ao famoso Mustafa Center), um cartaz chamou por mim: “FREE MEDITATION CLASS”. Apesar do meu forretismo, mais do que o “FREE” foi o “MEDITATION” que me chamou a atenção. Convite irrecusável: óptima oportunidade para me tentar redisciplinar nesta prática que me parece tão valiosa. E o cartaz ainda prometia comida vegetariana grátis depois da meditação!

Entrei no templo, de certa aparência hindu, onde o ar condicionado poderia estar mais fraco e meia dúzia de pessoas estavam já sentadas em posição de meio lótus, de olhos fechados, aparentemente concentradas. Nas paredes, coloridos cartazes de gurus indianos. Indicaram-me onde sentar e prontamente o Chandra veio orientar-me. Perguntou se era a primeira vez ali – “Sim” – e se já tinha meditado alguma vez – “Fiz um curso de meditação Vipassana”. “Então isto é parecido: vais fechar os olhos e concentrar-te no ponto entre os olhos [o terceiro olho], durante um bocado, até eu te dizer. Vais receber energia e bênçãos de Shivabalayogi” (o guru cuja foto se destacava numa espécie de altar ao fundo da sala, onde costumam estar as figuras divinas das religiões iconófilas). Enquanto me dizia isto, aplicou-me entre os olhos um giz cinzento claro (vibhuti – cinza benta, possivelmente bosta de vaca queimada) e, enquanto pressionava, baixou a cabeça na minha direcção para me transmitir “energia”. Não sei se senti algo especial nesse preciso momento, mas gostei das boas energias que a serenidade e o sorriso sincero do Chandra transmitiram.



foto: www.shiva.org



Durante uma hora tentei domar a mente indomável e concentrar-me no ponto sugerido. Mantive uma posição bastante estática, só mexendo a perna esquerda quando a circulação começou a falhar. O silêncio razoável na sala (apesar do ruído lá fora) e a sensação provocada pela cinza (não, não notei nenhum cheiro) ajudavam, mas a concentração não foi excelente. Fui despertado do meu estado ilumin... aaaam...devaneador, pelo “Oooommm” do Chandra. Ele estava surpreendido com o meu aparente sucesso na meditação e perguntou se praticava habitualmente. Expliquei que não era muito disciplinado e que não tinha estado assim tão concentrado na última hora. Ele motivou-me para a prática regular, de uma hora por dia, que me aproximaria do divino e traria graças, e deu-me um pedaço de vibhuti. Disse também que por vezes havia quem tivesse visões (darshan) de Shivabalayogi durante a meditação. Com o seu sorriso sereno e pleno de amor universal, explicou que a seguir iriam cantar (bhajans – cânticos espirituais) e que mais tarde serviriam comida, e convidou-me, sem qualquer insistência, nem o mais infinitésimo tom de chantagem, a ficar. Tive o reflexo de olhar para o relógio mas imediatamente concluí que não tinha planos alternativos e que algo me dizia que deveria estar aberto e aceitar o convite (talvez o facto de o guru ter nascido no mesmo dia que eu, exactamente 41 anos mais cedo, tenha algo a ver?). O Chandra pareceu surpreendido e muito feliz. Explicou que Shivabalayogi não fazia discursos, simplesmente incentivava a prática da meditação para seguir o caminho da verdade, e que não defendia nenhuma religião especificamente nem pedia que ninguém alterasse o seu caminho espiritual: hindus, cristãos, muçulmanos... Ecumenismo no seu melhor. Deduzindo as minhas referências, disse que poderiam cantar a Cristo em inglês.

Seguiu-se uma hora e meia de cânticos (suspeito que em telugu, língua do sul da Índia). Como nos deram fotocópias dos cânticos, as letras eram bastante repetitivas e as palavras bastante pronunciáveis, até dava para acompanhar facilmente. O Chandra de vez em quando vinha explicar alguma coisa: que os cânticos eram sobre o guru, que eram geradores de energia (não senti nada de especial), que no final o pessoal poderia ficar um pouco mais entusiasmado e parecer algo marado, mas que só significava mais energia na sala (não vi nada muito louco). Como prometido, pelo meio pediu para cantarem a Cristo em inglês (algo do tipo, “Please come, Lord”).

Eu tinha almoçado um pesado thali e tinha pensado não jantar, mas nessa altura estava a ficar com fome e a reconsiderar. Finalmente acabaram os cânticos: não estava a sentir a tal energia (mas também não sou o tipo mais sensível do mundo, como muitos leitores saberão) e sentia, mundanamente e sem vergonha, vontade de comer alguma coisa. Nem só de pão vive o homem, mas também!

Mas entre mim e a comida um preceito final: as pessoas colocaram-se em fila indiana (termo muito bem aplicado aqui, dado ser essa a etnia da maior parte dos presentes) e, um a um, foram “prestar respeito” ao guru. Parecia-me bem prestar respeito a um guru com uma mensagem tão incriticável de amor universal, mas sou bastante iconoclasta e dispensava o preceito em frente à fotografia. Convidado mas não pressionado, acabei por juntar-me ao fim da fila quando percebi que aquilo que me era indiferente era importante para o Chandra e colegas. Em frente à foto de Shivabalayogi desenhei três círculos com uma vela numa bandeja metálica e depositei uma flor num prato. Depois deram-me prashad (comida benta, parecia fruta cristalizada), que comi, e segui para a sala onde estava a ser servida comida mais substancial (talvez também prashad).

Foi provavelmente a melhor refeição dos últimos meses (peço desculpa a alguma cozinheira ofendida!). Comida indiana vegetariana, com especiarias mas muito pouco picante, permitindo saborear as nuances da incrível variedade de alimentos: arroz, massa, chapati, idli, dhal, vada, e várias outras coisas que não soube identificar, incluindo sobremesa e café com leite bem doce. Um tour completo pela cozinha do Sul da Índia. A única crítica é que me serviram demasiada comida (mas também era a única forma de ter a experiência gastronómica completa).

Estive um pouco na conversa com um jovem casal indiano, com quem pratiquei as minhas frases preferidas em hindi (“estou a aprender hindi” e “não compreendo“). O rapaz comentou que iam ali todos os sábados desde há dois meses e que durante a semana ele procurava meditar durante a deslocação para o trabalho, uns 40 minutos todas as manhãs. Explicaram-me que cada família trazia alguma coisa para o jantar, daí a enorme variedade, e aproveitei para agradecer os deliciosos pastéis de batata doce que a rapariga tinha contribuído.

Agradeci a hospitalidade às poucas pessoas que ainda estavam por ali (impressionando com o meu fluente hindi: “Danyavad!”) e despedi-me. O Chandra apertou longamente a minha mão, com o seu sorriso emissor de potentes radiações positivas, enquanto me convidava a aparecer mais vezes mas deixando-me totalmente à vontade: o importante era procurar meditar uma hora por dia, pois certamente obteria muito bons resultados.



foto: www.shivabalayogi.org



Pouco exigente comparado com os inacreditáveis 12 anos que Shivabalayogi passou nas suas tapas (nada a ver com as homónimas iguarias espanholas). Segundo parece, aos 14 anos Shivabalayogi experimentou o samadhi (iluminação) ao ser iniciado na meditação por um guru que lhe apareceu. Seguiram-se oito anos dedicando 23 horas diárias à meditação, e depois quatro anos com 12 horas diárias de meditação. Depois, Shivabalayogi começou a viajar, primeiro na Índia, depois no Sri Lanka, e mais tarde no Reino Unido, Itália e Estados Unidos. Consta que iniciou mais de 10 milhões de pessoas na prática da meditação. Abandonou o seu corpo físico em 1994, mas dizem que muitos meditadores continuam a sentir a sua presença.

Não notei a presença de Shivabalayogi, mas saí à movimentada rua e ao ruidoso mundo real a sentir-me leve (excepto no estômago!), em paz, com muito boas energias.


Para mais informações sobre Shivabalayogi:
www.shivabalayogi.org
www.shiva.org
Vídeo de 7'21" no Youtube:


terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Os intocáveis

Um dos mais fascinantes fenómenos para quem visita a Índia é a existência das famosas castas, especialmente as castas baixas. No fundo da escala social estão os dalits, ou “intocáveis” (não por serem super-poderosos e ninguém, querendo, os conseguir tocar, mas, pelo contrário, por ninguém os querer tocar, sob pena de se tornar também “impuro”). São animais da espécie humana, com cabeça, tronco e membros, cérebro, coração, boca, olhos, nariz, etc., tal como a esmagadora maioria dos leitores das bulicenas. O que os distingue é que em algum momento da história foram destinados a funções na sociedade que outros seres talvez menos humanos não gostavam tanto de fazer: recolher lixo, limpar o chão, limpar casas-de-banho, etc. Os filhos, netos e bisnetos mantiveram ocupações semelhantes, os bisnetos dos bisnetos também, e por aí fora até ao actual século XXI. Ao mesmo tempo que a Índia se destaca como prestadora global de serviços em áreas tecnológicas ultra-avançadas, é comum encontrar “homens invisíveis”.

A “intocabilidade” é actualmente inconstitucional na Índia. Mas claro que isso não significa que não exista – crenças e valores não mudam por decreto. É difícil mudar conceitos tão enraizados na cultura que nem sequer são identificados, muito menos questionados – estão lá e pronto. Para ajudar a identificar o que deveria mudar, a lei indiana tem criado condições (obviamente polémicas) para discriminação positiva de dalits, por exemplo reservando quotas de acesso à faculdade ou à função pública.

Não posso dizer que na minha limitada experiência de Índia tenha captado profundamente as definições, mecanismos e consequências práticas do complexo sistema de castas – antes pelo contrário. Não sei a que castas pertenciam as pessoas com quem me relacionava no dia-a-dia nem detectei comportamentos que as denunciassem claramente (mas eu sou um tipo bastante distraído).

Os meses na Índia despoletaram uma introspecção e uma reflexão sobre a “minha” cultura e deixaram-me mais atento às minhas (e nossas) “programações”. Será o sistema de castas algo assim tão estranho? Será que não partilhamos conceitos semelhantes em todas ou quase todas as sociedades? Quando não reparo em quem recolhe o lixo urbano, quem varre as ruas, quem mantém a casa-de-banho do centro comercial imaculadamente brilhante... não estou também a classificar essas pessoas de certa forma como “intocáveis”? Sim, talvez não tenha (ou talvez tenha?) problemas em tocar-lhes fisicamente, apertar a mão, partilhar espaço num transporte público, até trocar umas palavras e agradecer o serviço... Mas até que ponto faço amizade com essas pessoas (será pura coincidência que não tenha nenhum amigo que se dedique a tais actividades?) ou consideraria uma delas para fazer parte da minha família? Até que ponto respeito e valorizo realmente, sem pena nem paternalismo, o contributo destas pessoas para o funcionamento da sociedade? Até que ponto os recompenso justamente pelo seu contributo? Lhes dou oportunidades para decidirem quem querem ser e o que querem fazer?

Se nos choca a existência de castas na Índia talvez nos devesse chocar também a existência de castas na nossa sociedade (mesmo que funcionem de forma diferente). Ou talvez não, porque é a nossa sociedade e na nossa sociedade as coisas são como têm de ser? São sempre os outros que estão mal. A bitola certa é a minha. Tudo o que me é próximo e semelhante, partilha as minhas características e preferências, é melhor, superior. Tudo o que é longínquo e diferente é pior, inferior.

Sistemas de castas, explícitos ou implícitos, servem para perpetuar o domínio de uns sobre outros. Se até quem é classificado numa casta “inferior” acredita inconscientemente no sistema, forma-se uma poderosa profecia auto-realizadora que assegura a manutenção do status quo. E estas programações estão tão enraizadas que por vezes estão reflectidas nas nossas leis, preceitos morais e, nos casos mais extremos, chegam até à boca de deus!!

No livro de Levítico, deus regulamenta assim a escravatura: “O escravo ou a escrava que pretendais adquirir devem sair dos povos estrangeiros que vos rodeiam; poder-lhes-eis comprar escravos e escravas. Podê-los-eis, também, comprar entre os filhos dos estrangeiros que residam no meio de vós, entre as suas famílias que vivem convosco e entre os filhos que lhes nascerem no vosso país, e serão propriedade vossa. Podeis deixá-los em herança aos vossos filhos, a fim de que os possuam depois de vós, tratando-os perpetuamente como escravos; quanto aos vossos irmãos, os filhos de Israel, que ninguém domine o seu irmão com dureza.” [Lev 25.44-46]

Com um deus assim, não admira que o estado moderno de Israel funcione como se tem visto. Mas não vamos cair de novo no erro de achar que é só o deus dos outros que está mal: como é o meu? Que histórias me conta, que mandamentos prescreve? Ajuda a melhorar o mundo, ou só a melhorar a esfera centrada no meu umbigo? Quem é intocável para mim?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Bulinovas online!

Está finalmente disponível o arquivo de bulinovas: as aventuras vividas no ano 2003, no Reino Unido/Irlanda, Timor-Leste e Afeganistão.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Migração livre

“A última vez que você veio aos EUA foi em Dezembro. Como é que eu sei que você não vive aqui?”, perguntou o agente da imigração no aeroporto de Newark. “É uma boa pergunta”, respondi.

Acabou por enviar-me para interrogatório mais detalhado na sala dos suspeitos de crimes contra a humanidade (ou pelo menos contra a “estado-unidensidade”). Eu já tinha preenchido o impresso verde, declarando por minha honra não ser culpado de diversos actos reprováveis (sinceramente, nem li as perguntas, e não me envergonho por isso: tal como qualquer terrorista, já sei que as perguntas são ridículas e que a resposta correcta é “Não”), que mais queriam que eu dissesse?





O agente que me entrevistou a seguir tinha um apelido de origem lusa (um apelido incomum, só recordo que terminava em “eira”). Não achei apropriado comentar, já que tratávamos ali de assuntos muito sérios.

Discutimos quase toda a minha vida com razoável honestidade: o que faço (“consultor freelance” pareceu-me mais apropriado que “reformado”), se tenho um cartão de visita ("não"), até quando vou ficar, como posso ter tanto tempo livre para viajar até aos EUA, se faço tenção de trabalhar nos EUA, o que fazia antes, quanto ganho (até pensei que seria difícil não mentir aqui, mas felizmente ainda ganhei uns salários em 2008, além de alguns juros sobre as minhas poupanças), há quanto tempo estou com a minha namorada, onde nos conhecemos, o que ela faz nos EUA, os telefones dela (verifiquei que ele não tomou nota, não fosse ficar interessado em conhecê-la!), quanto dinheiro trazia comigo, cartões de crédito... se eu corria maratonas (ao detectar um artigo que eu estava a ler sobre os efeitos fisiológicos da maratona)... Vá lá, desta vez não me perguntaram que línguas falava (“árabe, pois claro”) nem se tinha treino militar. Pelo meio interrompeu a entrevista e foi falar com alguém (talvez comentar a minha fotografia “taliban”, com barba de vários meses, no passaporte, e/ou o registo feito em entradas anteriores de eu ter passado pelo Afeganistão em 2003?). A certa altura parecia que tinha esgotado as perguntas e que continuava em dúvida sobre o que fazer comigo.


Curioso, não? Os Estados Unidos da América foram fundados por imigrantes que vieram principalmente da Europa para “colonizar” o “Novo Continente”, esquecendo que o continente só era novo para eles e que já cá havia gente antes. Não muito diferente do que os portugueses fizeram no Brasil e outros lugares, os espanhóis no resto da América Latina, os “australianos” naquela enorme ilha que hoje fecham a tantas chaves... Basta reparar na cor da pele das pessoas em muitos destes lugares para suspeitar de genocídio. Há uns anos sentíamo-nos todos com direito a fazer nossos territórios alheios. Em 1494, portugueses e espanhóis chegaram a dividir o mundo entre eles! Uns com maior sucesso que outros, apoderámo-nos de imensos recursos que agora não queremos partilhar. Hoje abundam as fronteiras fechadas, xenofobismo explícito e implícito, consciente e inconsciente.

O que está em causa não é tanto a integridade nacional (seja isso o que for) ou a segurança pública, mas muito mais a nossa segurança material – a garantia de que vamos manter os “nossos” bens, a “nossa” riqueza. Se nos ajuda a ficar mais ricos, o comércio livre é bom. Se nos obriga a partilhar o que temos, migração livre é má. Não formei uma opinião forte a favor da migração livre [a wikipedia tem um artigo com boas ligações sobre o tema], mas como nómada (certamente muito privilegiado em relação a outros exemplos, como refugiados internacionais tentando escapar de genocídios) não posso deixar de sentir grande simpatia pelo conceito e pensar que certos proteccionismos não parecem muito... humanos. Ou justos.

É verdade que a Declaração Universal dos Direitos do Homem não é famosa por ser seguida com muito rigor, mas, enquanto o artigo 13º estabelece apenas o direito à liberdade de movimentos e residência dentro das fronteiras de cada estado, já o artigo 15º menciona o direito de mudar de nacionalidade (não deixando muito claro até onde deveria ir esse direito).


Pelos vistos ainda não foi inventado um leitor de pensamentos, pois não foi desta que fui considerado persona non grata nos EUA. Com cara de "que se lixe", o agente lá decidiu carimbar os meus papéis enquanto dizia "One important question...". Que mais poderia querer saber?? Como eu já o tinha visto carimbar a papelada, nem cheguei a sentir palpitações nesse momento, pensando que inevitavelmente ele me deixaria entrar. E muda de inglês para português: "De que clube você é?" Sinceramente, suspeito que ele me concedeu entrada no país indeciso, dando o benefício da dúvida por termos algo em comum (além de cabeça, tronco, membros, olhos, cor do cabelo e da pele, pelos vistos a língua e algum pedaço de “portugalismo”). Respondi com sinceridade e um sorriso "Não ligo a futebol". A julgar pelas perguntas no impresso de imigração, quem sabe se ele não me negaria entrada caso eu fosse sportinguista e ele benfiquista?


[Se deixarem de ser publicadas novas bulicenas, pode ser que eu tenha sido entretanto capturado pelos senhores da Segurança da Pátria, do Escritório Federal de Investigação, da Agência Central de Inteligência, ou de alguma outra organização mais obscura cujo nome nem sequer o presidente conhece. Com sorte, irei parar ao centro de torturas de Guantánamo e de lá recambiado para Portugal quando o decidirem fechar.]

domingo, 27 de julho de 2008

A arte de viver

Quem não gostaria de aprender a arte de viver? É essa a promessa da meditação Vipassana, que significa ver as coisas como elas são.

Não pude deixar de investigar. Dez dias isolado do “mundo real”, em silêncio exterior e interior. Dez horas de meditação por dia. Não vim iluminado, nem sofri uma conversão radical (não tenho jeito para “santo”!). Não foi a conclusão mas antes um novo atalho no caminho eterno (no qual tenho certamente muito a trabalhar) em direcção a uma vida melhor – mais consciente, mais focado no presente, mais equânime, mais feliz:


  • Consciente: A meditação Vipassana desenvolve a nossa consciência [não é a palavra certa, mas não conheço melhor tradução para o inglês “awareness”]. A capacidade de apreendermos o mundo, de identificarmos o impacto em nós próprios através das sensações desencadeadas por cada experiência, de nos conhecermos. É o primeiro passo para assumirmos controlo sobre a nossa vida e deixarmos de viver de reacção em reacção.


  • Focado no presente: A consciência desenvolvida aumenta a nossa capacidade de viver no presente, no aqui e agora, em vez de estarmos constantemente a rever o passado ou antever o futuro. A meditação reduz o ruído, proporciona clareza de mente e capacidade de concentração, ajuda a vivermos focados naquilo que queremos, naquilo que importa. Se decidi estar aqui e agora com este amigo, porque hei-de estar distraído a planear o que vou fazer logo à noite? E logo à noite estarei distraído a planear o amanhã, ou a pensar que deveria ter estado mais presente no encontro com o amigo...


  • Equânime: A meditação Vipassana desenvolve também a nossa equanimidade – a capacidade de aceitarmos com serenidade as vicissitudes da vida. Compreendemos a efemeridade de todas as sensações e tentamos abandonar o apego a sensações boas e a aversão a sensações más. Começamos simplesmente a observá-las objectivamente: “Hmmm... que agradável, o Sol a bater na cara...”; “Que interessante... sinto uma dor na barriga...”. A nossa felicidade deixa de estar refém do que nos acontece, do que possuímos, das relações que temos. Mas este desapego não significa que entramos em estado vegetativo, que passamos a ser insensíveis e inertes. Sentimo-nos em paz, equilibrados, e, em vez de reagir, começamos a agir positivamente, com amor, sabendo o que é mais importante.


  • Feliz: Maior equanimidade traz menor sofrimento e , portanto, felicidade. E desperta também outras qualidades de uma mente pura: amor, compaixão, alegria... Cada vez mais compreendemos como a felicidade dos outros nos traz felicidade, e somos desafiados a amar universalmente (o que não é nada fácil: há por aí uns seres tão difíceis de amar! :) )


Não acredito em caminhos únicos e universais para a felicidade. A meditação Vipassana pode servir para mim mas não para ti. E provavelmente existem outras técnicas que funcionam melhor (avisa se recomendares alguma!). Porque não experimentar? Meditação, como a vida, não é algo que se aprende lendo. Aprende-se praticando. Vê quando é o próximo curso e inscreve-te já: em Portugal ou no resto do mundo (dificuldades financeiras não são desculpa: o curso é gratuito, totalmente dependente dos donativos de participantes de cursos anteriores e do trabalho voluntário de organizadores, professores e cozinheiros). Se não sentes motivação e gostarias de ler mais sobre o assunto, lê o resto desta bulicena, as explicações resumidas no site português ou internacional, ou o livro The Art of Living: Vipassana Meditation: As Taught by S. N. Goenka, de William Hart.



Chamamento

Há mais de 10 anos tinha-me sentido atraído pela meditação, curioso por entender o que era e para que servia. Parecia que faltava alguma coisa importante na minha vida e talvez a meditação fosse a resposta para preencher essa lacuna. Na altura li umas coisas sobre meditação baseada na observação da respiração e fiz incipientes tentativas de praticar. Resultado: descobri uma técnica fantástica para adormecer rapidamente (em um ou dois minutos), essencial para desenvolver a capacidade de dormir micro-sestas.

Durante anos considerei que meditação não era para mim, porque nunca conseguiria permanecer acordado e concentrado na minha respiração por muito tempo. Mas usava a observação da respiração no dia-a-dia como forma de fazer micro-pausas e procurar serenidade entre as múltiplas solicitações, por vezes stressantes, do trabalho (p.ex., observando dois ciclos de respiração no meio de uma discussão mais acesa).

O período de seis meses na Índia reavivou o interesse pela meditação. O evento determinante para o novo investimento na técnica foi o trekking em Sikkim, em Abril, no qual conheci um italiano e uma americana que praticavam meditação diariamente. O italiano emprestou-me o livro “The Art of Living” e a americana recomendou-me que fizesse um curso.

Finalmente, inscrevi-me num curso de 10 dias de meditação Vipassana em Singapura.


Regras e preceitos

Ao inscrever-me fui informado do Código de Disciplina para os 10 dias e comecei logo a ficar entusiasmado. Seguiria cinco preceitos morais para “acalmar a mente”, como base para o treino da concentração. Teria de me abster de:


  • Matar qualquer ser vivo

  • Roubar

  • Qualquer actividade sexual

  • Mentir

  • Ingerir qualquer tipo de intoxicante [Iupi! 10 dias 100% livre de tabaco alheio!!]


Não parecia nada difícil manter-me “limpo”. Mais tarde concluí que não conseguiria cumprir o primeiro preceito: durante o curso matei um ou outro mosquito (depois de atacado) e alguma formiga infiltrada na minha comida.

Os veteranos da meditação Vipassana (já tendo feito pelo menos um curso) tinham ainda de se abster de:


  • Comer depois do meio-dia

  • Entretenimentos sensoriais e uso de adornos

  • Usar camas altas ou luxuosas


Na prática, os preceitos para os novatos como eu não eram muito diferentes destes, já que também não tínhamos acesso a quaisquer entretenimentos ou camas luxuosas (acho eu – ou será que eles dormiam em camas de faquir?). Quanto à comida depois do meio-dia, enquanto eles podiam tomar apenas chá ou sumo à hora do lanche, nós podíamos também tomar leite e comer uma peça de fruta.

Além destes preceitos, havia uma série de regras, que me pareceram razoavelmente razoáveis, com o objectivo de proporcionar a todos os participantes as melhores condições para nos desenvolvermos na técnica prática de meditação Vipassana. Entre outras:


  • Manter silêncio de corpo, palavra e mente, não sendo permitido qualquer tipo de comunicação entre os participantes (gestos, palavras, notas escritas, contacto físico)

  • Manter a alimentação vegetariana simples proporcionada pela organização

  • Não comunicar com o exterior, incluindo cartas, telefonemas e visitas; telemóveis e outros aparelhos electrónicos não eram autorizados

  • Não escrever, não ler, não ouvir música

  • Não trazer gravadores nem máquinas fotográficas

  • Não praticar outras técnicas, ritos e formas de culto, nem trazer talismãs, rosários, ou outros objectos religiosos

  • Usar roupa simples, modesta e confortável (tive de usar calças em vez de calções, apesar do calor húmido)

  • Não praticar ioga ou outros exercícios físicos (por falta de condições para os praticar em isolamento); estávamos autorizados a caminhar nos períodos de descanso, na limitada área a que tínhamos acesso

  • Tomar banho com regularidade e manter as roupas limpas, lavando a própria roupa (depois percebi como era importante esta regra, já que a meditação parecia promover a emissão de odores corporais particularmente desagradáveis)



Formato do curso

O curso decorreu na ilha de St. John – uma pequena ilha de Singapura que parece funcionar como destino de passeio ou local para colónias de férias de crianças. Quem diria que em Singapura seria possível encontrar um lugar tão tranquilo, longe de toda a confusão da civilização.

Éramos uns 70 participantes, cerca de 30 homens e 40 mulheres. Ficámos alojados em camaratas, cada uma com umas 20 pessoas. Homens e mulheres separados, claro (não era desses “retiros” indecentes!). Os homens aparentavam idades entre os 20's e os 70; a etnia mais abundante era a chinesa, seguida da indiana; participavam apenas três europeus.

Só analisei o horário do curso já depois de decidir inscrever-me. Não mudei de ideias, mas pareceu-me bem desafiante: 10 horas de meditação por dia!?! Como é que eu conseguiria manter-me acordado?? 10 horas diárias de torturante luta desigual contra o sono??

4:00 Despertar: Não tinha dificuldades em levantar-me tão cedo. Em alguns dias até acordava antes da hora, sem sono. Ver toda a gente a levantar-se e saber porque é que eu tinha vindo deixava muito claro que era hora de saltar da cama e ir tomar um duche frio (não havia água quente, mas no calor de Singapura isso não é nenhum sacrifício).

4:30-6:30 Meditação: As primeiras duas horas do dia eram geralmente duas horas de excelente concentração, graças ao silêncio proporcionado pela noite de sono. Vinha cheio de motivação para me esforçar bem e o corpo ainda não se queixava da posição incómoda. De vez em quando sentia um certo vazio na barriga, após tantas horas sem comer, e por vezes os pensamentos que me desconcentravam eram imagens de comida (não era fácil manter a equanimidade e não desejar quebrar o jejum :) ).

6:30-8:00 Pequeno-almoço: Quebra de jejum com refeição substancial, seguida de limitados exercícios físicos (caminhar 10 minutos, fazer flexões de pernas) e sesta (10 a 20 minutos).

8:00-11:00 Meditação (com um intervalo de 5 minutos pelo meio).

11:00-12:00 Almoço: O almoço vinha sempre cedo de mais. Ainda não havia fome e já nos ofereciam a segunda refeição grande do dia. Seguia-se sesta.

12:00-13:00 Descanso, e perguntas com os professores: Falei com os professores umas cinco vezes durante o curso, para tirar dúvidas e obter dicas sobre como avançar na técnica.

13:00-17:00 Meditação: O período mais longo do dia, com dois intervalos de 5 minutos.

17:00-18:00 Lanche: Abusava um pouco, dentro das regras, temendo morrer de fome até ao dia seguinte às 6:30 da manhã – comia a minha ração de uma peça de fruta e bebia duas tigelas de leite com chocolate e um pouco de leite condensado. O que me custava mais em termos alimentares não era tanto a quantidade de comida disponível (que era muita ao pequeno-almoço e almoço), mas sim o espaçamento entre refeições. Preferiria ter acesso a comida sempre que tivesse fome, mesmo que as quantidades fossem menores. Seguia-se sesta.

18:00-19:00 Meditação

19:00-20:15 Discurso de S. N. Goenka

20:15-21:00 Meditação: Ah, que fantástica concentração na última meditação do dia! Sabendo que era o período mais curto e que se seguiria descanso até às 4 da manhã, foi sempre o meu período de melhor concentração.

21:00-21:30 Perguntas com os professores

21:30 Recolher e apagar luzes: Hora de dormir (por vezes depois de lavar a roupa, já que só tinha um par de calças comigo!). Rapidamente descobri que não era tão fácil entrar no sono. A meditação ajudava a descansar a mente e reduzia a necessidade de dormir. Era comum acordar mais ou menos a cada hora.


Apreciei muito a estrutura do curso e a forma progressiva com que nos foram propostos desafios cada vez maiores, mantendo abertura para os ritmos individuais dos participantes. Quando parecia que estava a ficar confortável na técnica actual, era proposta uma alteração para entrar num novo patamar. Excelente.


Primeiros dias: mente indomável e tortura física

No dia de chegada (dia “zero”) deu para trocar umas palavras com um ou outro participante, até que logo foi imposto o silêncio que iria durar os seguintes nove dias. É estranho passar o dia ao lado de pessoas com as quais não podemos comunicar. Mas isso ajudou imensamente a reduzir o ruído mental e facilitar a concentração na meditação.

Fiquei surpreendido ao perceber que nenhum dos três professores fisicamente presentes iria dirigir as sessões de meditação (a missão dos professores “assistentes” era ajudar-nos nas sessões de dúvidas diárias). As instruções iam sendo dadas (em inglês, com tradução para mandarim) através de gravações áudio da voz de S. N. Goenka, “guru” mundial de meditação Vipassana, grande impulsionador deste modelo de cursos. Além de dar instruções simples e claras (e muito repetitivas, mas era disso mesmo que precisávamos), Goenka também entoava uns cânticos em pali (língua em que primeiro foram registados os ensinamentos de Buda) no início e fim das sessões de meditação. Segundo ele, o objectivo dos cânticos era criar um ambiente propício à meditação. Acho que funcionava bastante bem, mas não posso deixar de notar que, na minha modesta opinião, Goenka emite uns ruídos bastante estranhos quando “canta” (vejam o vídeo no final desta bulicena para ver se concordam).

Os primeiros três dias foram dedicados a trabalhar a meditação anapanna, que consiste em observar a respiração, entrando e saindo das narinas, para desenvolver o domínio da mente. Exactamente a técnica que eu tinha descoberto anos antes, infalível para adormecer rapidamente. Surpreendentemente, os desafios acabaram por ser outros. Raramente senti sono, e nas poucas vezes em que adormeci durante a meditação a oscilação do corpo ao adormecer obrigou-me a acordar imediatamente.

A primeira descoberta chocante foi quão indomável é a mente! Tinha alguma noção da dificuldade em manter a atenção na respiração durante mais do que uns segundos, mas nunca tinha tentado mantê-la durante horas com tanto afinco. Por mais que me concentrasse na simples tarefa de reparar nas sensações provocadas pelo ar a entrar e sair pelas narinas, a mente escapava continuamente para onde lhe dava na real gana, como um adolescente que faz ponto de honra em nunca obedecer aos pais. No início, quando eu dava por ela já ia na 1.367.979ª sinapse, num tema longínquo derivado por sucessivas associações de ideias de um tema inicial gerado espontaneamente à 4ª respiração. Ao terceiro dia já conseguia manter a concentração durante mais tempo (talvez 1 minuto seguido?) e, mais importante, estava bem mais rápido a detectar fugas da mente rebelde e a trazê-la de volta para o meu controlo. Pudera, já tinha passado quase 30 horas a praticar! (Pondo as coisas em perspectiva: 30 horas de corrida representam para mim 6 a 7 semanas de treino – suficiente para uma boa evolução de forma.)

A outra descoberta também quase imediata foi a tortura física que a meditação representava. Não era nada fácil manter a mesma posição (sentado, aproximadamente em posição de meio lótus) durante tanto tempo seguido. Ninguém nos tinha pedido para usar aquela posição, mas olhando para os professores e participantes veteranos pareceu-me que era a posição certa. Nos primeiros dias sentia dores intensas nas costas, nos joelhos e tornozelos. Quando nos era dada liberdade para meditarmos na camarata, eu aproveitava para me ir sentar na cama e encostar as costas à cabeceira. Muito mais confortável. Mas com o conforto vinha também o sono. Após alguns ajustes ligeiros para estar mais confortável e alguma adaptação do corpo à posição, comecei a sentir menos dores e decidi evitar sair da sala de meditação comum. Parece-me que o fundamental na posição de meditação é manter as costas direitas. Percebi que é isso que me ajuda a manter-me desperto, atento, concentrado. A posição das pernas não parece tão importante, por isso depois do curso decidi adoptar uma posição mais confortável, sentado num sofá ou cadeira sem apoiar as costas, para evitar o risco de lesionar os tornozelos e afectar os treinos de corrida.

À noite assistíamos, numa gravação vídeo, ao discurso diário de Goenka, onde ele punha em perspectiva as experiências do dia, esclarecia aspectos da técnica, e contava algumas histórias, incluindo cenas da vida de Buda. A ênfase era sempre na prática da meditação, e nunca em aspectos filosóficos ou teológicos. Fiquei muito feliz por isso: o que eu procurava era uma técnica prática para aplicar na vida, e não mais uma teoria com a qual não saberia o que fazer. Toda a técnica é ensinada sem qualquer associação ou apelo de conversão ao budismo ou a outra religião (Goenka parece ser um fã de Buda, mas não do budismo, que ele aponta não ter sido fundado por Buda). Gostei de ouvir muito boas mensagens, sugerindo que Goenka só pode ser boa gente: mensagens de amor universal, paz, desejo de que todos os seres sejam felizes... O único momento em que me desiludiu um pouco foi quando Goenka se referiu ao Homem com a habitual, natural e humana visão antropocêntrica do mundo: como um ser mais “elevado”, mais “nobre” que os outros seres.

Para tentar dar uma ideia do que se passava no dia a dia do curso, vejam este vídeo curto que encontrei no Youtube:





Nos primeiros dias aconteceram alguns fenómenos curiosos. Notei que as distrações da mente tendiam a ser lembranças de acontecimentos desagradáveis. Além disso, tive vários pesadelos nas primeiras noites (costumo lembrar-me bastante do que sonho e é raríssimo ter um sonho mau, pelo menos entre os sonhos de que me lembro). Comentei o assunto numa das sessões de perguntas com os professores e foi-me dito que era normal, que a minha mente estava em processo de “limpeza”. A certa altura, em vez de ser distraído da meditação por lembranças desagradáveis, passei a ser distraído por boas recordações: momentos de sucesso, bons amigos, bons velhos tempos... As distracções iam cada vez mais atrás no tempo, parecia que estava a fazer uma revisão completa à minha vida (enquanto era suposto estar concentradíssimo na meditação).


Finalmente, meditação Vipassana

Ao quarto dia a mente estava mais controlada, mais focada, e fomos finalmente introduzidos à técnica de meditação Vipassana (que alívio, não sei quanta motivação me sobrava para tentar estar concentrado apenas na respiração). Meditação Vipassana consiste em observar as sensações não só nas narinas mas em todo o corpo. De acordo com os professores, é suposto podermos observar sensações em todas as partes do corpo em cada momento. Rapidamente percebi que isso não era óbvio. Para garantir que cobrimos todo o corpo, devemos fazer sucessivos ciclos de “scan” de sensações, da cabeça aos pés e dos pés à cabeça passando exaustivamente por todas as partes do corpo (este exercício lembrou-me o Anatoly, treinador de tiro quando comecei a fazer pentatlo há 15 anos, que me ensinou a fazer um “scan” do corpo antes de cada disparo para verificar que estava tudo estável). À medida que percorremos o corpo vamos observando sensações, umas “boas” outras “más”, por vezes dores intensas (por exemplo nas costas ou tornozelos). A tendência natural é reagir, sentir-nos mal e desejar que as dores desapareçam.

O foco da prática de Vipassana é desenvolver a equanimidade: a capacidade de aceitarmos todo o tipo de sensações sem reagir, sem sentir nem desejo nem aversão, mantendo-nos equilibrados, em paz, simplesmente observando objectivamente “lá está esta sensação”. E o facto é que a equanimidade tem um efeito prático bem concreto: ao aceitar uma dor em vez de a rejeitar, em vez de ficar obcecado pelo pensamento “Socorro!! Dói-me! Quero que isto acabe rapidamente!”, que só contribui para intensificar o sofrimento, a dor acaba por se mitigar e até desaparecer. Afinal, todas as sensações são passageiras, impermanentes. Porquê stressar por uma dor se, mais cedo ou mais tarde, ela vai desaparecer? Porquê stressar para que uma sensação boa não desapareça, se, mais cedo ou mais tarde, ela irá desaparecer? Apreciemos o presente tal como ele é. Deixemos de ser controlados pelas sensações.

Equanimidade não quer dizer que devemos assistir passivamente à vida, sem qualquer intervenção. Quer dizer que, sabiamente, devemos intervir na realidade quando possível, mas também saber aceitar com serenidade aquilo que nos acontece que não podemos controlar. Tal como diz a oração mencionada nos comentários da bulicena sobre Martti Ahtisaari: "Senhor, dá-me coragem para mudar o que deve ser mudado, serenidade para aceitar o que não pode ser mudado, e sabedoria para distinguir uma coisa da outra!"

Equanimidade ajuda a eliminar sofrimento, como comprovei empiricamente. Não acreditam? Experimentem. Na próxima vez que se sentirem miseráveis (porque o chefe é um chato, o trabalho não vos estimula, o bebé não pára de chorar a noite toda, a maratona é duríssima, o exame é dificílimo...) em vez de desejarem o fim daquilo que vos afecta e intensificarem cada vez mais a dor, aceitem a realidade, observem-na objectivamente (“hmm... este tipo é um chato / este trabalho é inconsequente / o bebé está a fazer barulho / doem-me as pernas / o exame é difícil”), entendam que ela é passageira (o chefe nem sempre é chato, ou nem sempre será o vosso chefe, não estás condenado a fazer esse trabalho para sempre, o bebé há-de parar de chorar, a maratona só tem 42 km, o exame vai acabar rapidamente) e considerem, com sabedoria, equilíbrio, em paz, como podem agir positivamente (e não reagir) para melhorar a vossa vida (p.ex., compreender o chefe, mudar de trabalho, dar de comer ao bebé quando tem fome, treinar mais para a próxima maratona, estudar mais para o próximo exame). A meditação Vipassana é um treino para sermos cada vez mais equânimes no dia-a-dia, no “mundo real”, e não apenas quando meditamos.

Goenka explica as sensações observadas durante a meditação como sankharas: condicionamentos, reacções da mente que estão registadas em nós (devido a reacções no passado) e que vão emergindo na forma de sensações enquanto meditamos. Se continuarmos a reagir (com desejo ou aversão) a essas sensações, geramos novos sankharas, novos condicionamentos. Mas se nos mantivermos equânimes, não reagindo, não criamos novos sankharas e eliminamos os antigos. À medida que avançamos na técnica, vamos eliminando o nosso “stock” de sankharas. Se eliminarmos todos os sankharas alcançamos a felicidade infinita da libertação do sofrimento – o famoso nirvana.

Sinceramente, não sei se entendo nem se “acredito” neste modelo explicativo. Nunca foi pedido que acreditasse, nem me parece fundamental acreditar. De forma muito prática, estou interessado em perceber se a meditação Vipassana traz benefícios ou não. Mais ou menos como alguém que usa aparelhos eléctricos mas não se preocupa em entender exactamente como funcionam (conhecem alguém assim?). E na prática faz sentido que ao deixar de reagir na meditação, ao aumentar a minha equanimidade, comece também a deixar de reagir na “vida real”, na espontaneidade do dia-a-dia. E isso parece-me bom, muito bom.

Os meus ciclos de “scan” de sensações à volta do corpo duravam 15 a 20 minutos (ou mais, dependendo dos “acidentes” de desconcentração pelo meio), e comecei a suspeitar de quando se aproximava o fim de uma sessão de meditação em função do número de ciclos completados. Claramente, a concentração não era total, e a equanimidade também não: apanhei-me várias vezes a desejar ouvir a voz de Goenka, que sempre marcava o fim de uma sessão. Depois de vários dias não podia deixar de associar uma certa sensação de alívio aos cânticos do homem. Sinal de que tinha de continuar a treinar a equanimidade!

Para nos desafiar um pouco mais, Goenka começou a pedir-nos sessões de “forte determinação”: sessões de uma hora em que deveríamos aplicar-nos ainda mais que o habitual e manter a determinação de nunca mudar de posição. Foram as horas mais longas da minha vida: 80 minutos, talvez 120? Às primeiras tentativas pareceu tarefa impossível: tinha sempre de mudar de posição uma ou duas vezes, quando o desconforto nas pernas se tornava insuportável. Finalmente, a crescente equanimidade e a posição optimizada começaram a permitir ficar praticamente imóvel durante uma hora (por vezes, confesso, precisando de abrir milimetricamente as pernas para recuperar a circulação sanguínea). Era muito engraçado olhar à volta no fim destas sessões e observar as caras de esforço e de alívio.

Até ao sétimo dia senti-me evoluir na técnica. Cada vez conseguia estar mais tempo imóvel, mais tempo seguido concentrado na observação de sensações à volta do corpo, ia ficando mais rápido a detectar fugas da mente e a trazê-la de volta para a meditação, e sentia-me mais equânime, menos reactivo às sensações boas ou más. Consegui, por exemplo, deixar de me coçar quando sentia comichão (o que acontecia frequentemente devido ao suor, provocado pelo calor húmido singapurense).


Últimos dias: crise de concentração

No sétimo dia comecei a sentir uma crise de concentração. Começou a ser muito mais difícil manter-me aplicado na meditação. A mente começou a fugir com frequência crescente, já não para o passado mas agora para o futuro: o que é que vou fazer quando voltar ao “mundo real”, textos que quero escrever, livros que quero ler, treinos para a maratona... Tudo era desculpa para escapar da meditação. Seguindo os conselhos do professor que consultei, comecei a concentrar-me em manter silêncio mental não só durante as sessões de meditação mas também fora delas, nas refeições e intervalos. Isso ajudou um pouco, mas especialmente deu-me uma boa dica para a vida pós-curso: o valor de manter a mente limpa na vida normal, não só durante a meditação. O oitavo dia foi um pouco mais concentrado, mas o nono foi de novo bastante disperso, com poucas sessões em que me tivesse mantido focado na meditação por um tempo decente. Aproximava-se o fim do curso e parecia que a minha mente estava aborrecida, a precisar de outros estímulos. Acho que de certa forma eu tinha desistido de ir mais longe. Houve estágios que Goenka mencionou nas suas instruções que eu não cheguei a sentir. Mas não me senti frustrado – equanimemente observei que estava difícil concentrar-me. Ou, não tão equanimemente, talvez tenha desejado sair para o “mundo real”.

No décimo dia de manhã aprendemos uma nova técnica: meditação metta – de partilha de amor, de boa vontade em relação a todos os seres. Partilhámos e captámos boas energias, enchemos a sala de vibrações positivas. Teríamos o Céu na Terra se acreditássemos profundamente que somos amados e amamos a todos.

A seguir terminou o silêncio. Fomos autorizados, finalmente, a comunicar uns com os outros! O local cobrou nova vida. Abriram-se sorrisos, apertaram-se mãos, descobriram-se nomes, profissões, vidas. Os meus vizinhos na camarata perguntaram: “Tu o que fazes? És algum tipo de atleta??” (resultado de presenciarem os meus limitados exercícios físicos durante o curso e de não verem traço de barriga). Comentou-se o curso, a experiência de cada um (alguns colegas pareciam ter vivido experiências bastante mais místicas e transformadoras que a minha; talvez o facto de estarem à espera disso e eu não tenha contribuído). Trocaram-se contactos. E claro que se gerou ruído que veio desconcentrar as restantes sessões de meditação.

No décimo primeiro dia tivemos uma última palestra de Goenka, dedicada a motivar-nos para continuar a prática da meditação Vipassana ao regressarmos ao “mundo real”. Ele foi muito persuasivo a propor que meditássemos uma hora de manhã e uma hora à noite. Basicamente argumentou que uma das horas viria de dormir menos, já que a meditação reduziria a nossa necessidade de sono (plausível, pelo que tinha observado no curso) e que os benefícios que a prática nos traria claramente compensavam o esforço. Apesar de me parecer um brutal investimento de tempo (mais de 10% do tempo acordado), decidi experimentar, a ver como funcionava.

(Meditei as duas horas recomendadas nos primeiros dias depois do curso, mas acabei por decidir tentar manter apenas a hora matinal. A preguiça, falta de disciplina, e as solicitações, ou distracções, da “vida real” acabaram por geralmente reduzir a meditação matinal para meia hora e torná-la frequente mas não 100% diária. Também aproveito para meditar durante tempos mortos como viagens ou esperas. Sem dúvida, a concentração é muito mais difícil no meio do ruído do dia-a-dia, especialmente quando a prática não é tão disciplinada.)

O curso terminou depois do pequeno-almoço. Não resisti a aproveitar a recuperada liberdade de movimentos para ir correr meia hora à volta da ilha – pelo treino e pela oportunidade de conhecer toda a ilha. Voltámos para Singapura, e cada um à sua vida.


E agora?

Não tenho dúvidas de que este foi o maior desafio físico-mental que enfrentei até hoje. Mantive uma determinação razoável em grande parte graças ao contexto: 10 dias totalmente reservados para uma experiência de descoberta (se não estivesse aplicado na meditação não teria nada para fazer), condições ideais de silêncio interior e exterior (além das condições do curso, o facto de estar “reformado”, ajudou a ter a mente particularmente limpa de preocupações), um grupo grande de colegas enfrentando os mesmos desafios (criando uma dinâmica de grupo de “vamos lá, desistir não é opção”) e professores dedicados que nos enviavam ondas de energias positivas e nos davam orientações para nos ajudarem a andar para a frente. Obrigado!

Meditação Vipassana é uma técnica perfeita? Com certeza que não. Haverá outras formas de obter os mesmos benefícios? Provavelmente sim. Tem bases “científicas”? Sei lá, nem sei se me importa. Teológicas? Idem. Vais continuar a praticá-la? Sim, é a minha intenção, enquanto sentir que faz sentido, sem apegos.

O importante é que parece ser uma técnica útil para viver uma vida melhor e tenciono aproveitá-la para evoluir no que aparenta ser um bom caminho. Na pior das hipóteses, perderei algum tempo. Na melhor, encontrarei verdadeira felicidade. Não soa muito arriscado.

Que todos os seres sejam felizes!



sexta-feira, 6 de junho de 2008

O país dos rodinhas

Ao chegar a Phnom Penh, capital do Cambodja, é impossível não reparar no denso trânsito: carros, poucos veículos mais pesados, algumas bicicletas, bastantes tuk tuks (motos com reboque para transporte de passageiros) e muitas, muitas motos.





Há cerca de 10 anos existiam no Cambodja 39 veículos motorizados de duas rodas por cada 1.000 habitantes [não encontrei dados mais recentes que estes]. Hoje serão certamente muitos mais, talvez o dobro, mas se aceitarmos este valor para a população actual de 14 milhões de habitantes significa que existem umas 500 mil motos no Cambodja. Não parece muita moto quando comparamos com um número semelhante em Portugal [segundo as European Road Statistics]. Mas é muito impressionante se pensarmos que cada português é 12 vezes mais rico do que cada cambodjiano [dados CIA World Factbook: PIB per capita US$21k vs. US$1,8k] – o que, é verdade, pode contribuir para a preferência lusa por automóveis – e que Portugal tem quase 30 vezes mais quilómetros de estradas alcatroadas [dados CIA World Factbook: 67 mil km vs. 2,4 mil km]. Ou seja, enquanto em Portugal existe uma moto para cada 120 metros de asfalto (e, já agora, um carro para cada 16 metros), no Cambodja existe uma moto para cada 4 metros! Isso é bem visível nas ruas de Phnom Penh.

Claro que o ar da cidade não é muito limpo. Fiz um treino longo de corrida pelas principais avenidas, mas fiquei a pensar se não teria sido mais saudável ter ficado a dormir mais duas horas – com certeza muitos glóbulos vermelhos foram inutilizados pelo monóxido de carbono que inspirei.

Segurança não parece ser uma preocupação. Capacetes são um bem de luxo. E raramente se vê um “pendura” agarrado à moto ou ao condutor: vão sentados como se estivessem colados ao assento com Supercola3 e fosse impossível cair da moto. É muito frequente ver mulheres montadas à amazona, as duas pernas para o mesmo lado, com ar de quem vai cair na próxima curva. Felizmente o trânsito é lento, reduzindo o risco de acidentes graves (a velocidade média na cidade deve rondar os 20 km/h: demorei mais de meia hora a percorrer de táxi os cerca de 10 kms entre o aeroporto e o hotel; a correr, sem bagagem, teria demorado uns 40 minutos).

Mas o que mais surpreende e diverte é o número de passageiros por moto: dois, três ou mais! Depois de umas horas na cidade, parecia-me que circulavam mais motos com duas pessoas do que com uma só. Para sair do subjectivo e tornar a análise mais científica (à semelhança de estudos de trânsito realizados pelo Instituto Estatístico Buliano em Dili e em Cabul em 2003), decidi contar durante 10 minutos o número de motos que passavam no Boulevard Monivong, perto do cruzamento com o Boulevard Confederação da Rússia (a 200 metros do Mercado Central), no sentido Sul-Norte. O estudo foi realizado ao fim da tarde, entre as 18:20 e as 18:30 horas, já que mais cedo era muito difícil contar motos com precisão devido à elevadíssima densidade do trânsito. Em 10 minutos passaram 336 motos: 62% (209 motos) com um passageiro, 26% (89) com dois, 10% (35) com três e 1% (3) com quatro passageiros. Afinal a maioria das motos transportava apenas um passageiro, pelo menos naquele horário (ainda fiquei com a impressão de que era diferente a outras horas, mas não repeti a análise).





Nesta viagem, o recorde de passageiros avistado numa moto foi de seis (6-seis-6!): três adultos, duas crianças aparentando pelo menos três anos e uma criança mais nova. Motos com cinco passageiros são uma visão garantida para quem passar dois dias na cidade. Motos como veículo familiar são comuns: pai, mãe e duas crianças. Moto-táxis (além dos tuk tuks) abundam também: ao sair de um templo, ao virar da esquina lá está mais um “taxista” a dar palmadas no assento da moto, sugerindo que nos montemos ali para nos levar onde quisermos.

Autêntico país dos rodinhas.



quarta-feira, 16 de abril de 2008

Rana

Durante os seis meses na Índia tive direito a carro, incluindo um fantástico motorista: o Rana.

A disponibilidade do Rana era impressionante: 24/7 se necessário. Nunca se atrasou para me vir buscar. No mínimo, chegava exactamente à hora certa, mesmo que fosse às quatro da manhã para ir apanhar um voo madrugador. Houve até uma vez em que, por falha de comunicação, ele me veio buscar às três e meia da manhã... quando eu na verdade precisava dele às três e meia da tarde... e isso depois de ele me ter deixado em casa perto da meia-noite! Total disponibilidade. Obrigado!

Outro impressionante atributo do Rana era a precisão absoluta nas estimativas de tempo até cada destino. Mesmo com o implacável e aleatório trânsito que frequentemente assola Nova Deli e arredores, a qualquer hora do dia ou da noite, o Rana acertava com erro inferior a 10% (ou seja, seis minutos por hora) em quanto tempo íamos demorar. Graças a ele nunca me atrasei para nenhum comboio, voo, encontro ou reunião. Obrigado!

O Rana é um homem de poucas palavras. Como eu também sou, passámos muito tempo no carro em silêncio, sem qualquer desconforto. Poderia ter sido óptimo para desenvolver o meu hindi, mas além das nossas naturezas silenciosas, o inglês dele era excelente (ao contrário de muitos dos seus colegas, sobre quem ouvi bastantes reclamações) e nunca houve necessidade real de usar hindi.

Mas o facto mais impressionante sobre o Rana é que ele já esteve em toda a Índia! Cada vez que eu viajava para um novo lugar ele dizia: “É muito bom. Vai poder visitar x, y e z...” A conversa repetiu-se para (por ordem de viagem) Goa, Chandigarh, Mathura e Vrindavan, Mumbai, Ahmedabad, Jaipur, Jodhpur, Jaisalmer, Udaipur, Varanasi, Amritsar, Darjeeling... Na última vez já nem me consegui admirar por ele ter estado num estado tão longínquo como Sikkim. Suspeito que mesmo que passasse o resto da vida na Índia nunca teria visitado mais cidades que o Rana.

Tenho saudades do Rana!



segunda-feira, 14 de abril de 2008

Um inglês, uma americana, uma israelita, um italiano e um português...

... encontram-se em Gangtok, estado de Sikkim, Índia (ali entre o Nepal, Butão e Tibete).

Viajantes solitários, cada um com as suas idiossincrasias. Decidiram fazer um trekking de uma semana em altitude (pelos 4.000 metros). Subir uma montanha por nenhuma razão em especial: porque ela está ali, pelo exercício físico, pela experiência espiritual? Cada um saberá a sua razão. Ou talvez não.

O inglês decidiu viajar por uns meses quando terminou a licenciatura em “International Development”. “Não, não é Desenvolvimento Económico – tentei focar-me mais nos aspectos culturais, antropológicos...” Acha que há algo de errado com o capitalismo. Tem andado pela Índia, mas dentro de um par de semanas vai para o Nepal, por mais dois ou três meses antes de regressar a casa e procurar “emprego”. Conheceu a israelita em Varanasi. Fuma, às vezes umas coisas esquisitas.

A americana dedica-se literalmente a apagar fogos: é bombeira nas florestas americanas. Circula de helicóptero por áreas de intensa natureza no Alasca, Montana, etc. Tem treino de primeiros socorros e noções e ferramentas (como o cantil purificador de água) de sobrevivência na natureza – provavelmente a pessoa mais útil do grupo nesta aventura. Como o trabalho só a ocupa no Verão, aproveita o Inverno para viajar. Começou há quatro meses no Egipto, circulou pelo Médio Oriente, e veio até à Índia. Conheceu a israelita no Rajasthan há várias semanas e encontraram-se mais ou menos por acaso de novo no Sikkim. Está feliz e ansiosa pelo regresso a casa dentro de duas semanas, e pelo sushi que vai poder comer! Costuma praticar meditação. Fuma marijuana (mas não tabaco) quando se aborrece.

A israelita concluiu o mestrado em Espiritualidades Hindu e Budista Indianas (ou algo parecido) e decidiu viajar durante um ano. Apesar de já ter viajado por seis meses na Índia quando terminou a licenciatura, decidiu voltar. Iniciou a viagem em Janeiro e vai ficar até Julho, quando o visto caduca. Não sabe ainda para onde irá a seguir: Sri Lanka? Birmânia? Vietname, Tailândia e arredores? Prefere viajar sozinha, independente, mais aberta aos outros, por isso acaba por estar sempre acompanhada pelas “pessoas maravilhosas que vai conhecendo”. Gosta de parar de vez em quando por mais tempo em alguns lugares, como fez por um mês em Varanasi (“às vezes precisamos de mais tempo para ‘entrar’ num lugar”). É professora de ioga, mas não é muito disciplinada na prática em viagem. Medita só de vez em quando. Não fuma, não bebe.

O italiano viaja há quatro meses e vai regressar a casa dentro de duas semanas. A tempo de voltar ao seu emprego sazonal, prestando serviços a iates numa marina no Adriático (no nordeste da bota), dando aulas de vela, velejando e apanhando sol... e poupando uns trocos para mais uma viagem no próximo Inverno. Começou a viagem em Katmandu, para onde voou com a sua bicicleta (comprada há uns anos numa viagem no norte da Tailândia). Pedalou pelo Nepal, tentou sem êxito entrar no Tibete, e depois veio para a Índia. É um especialista em viajar leve: ao sair de Itália a bagagem cumpria o limite de 27 kgs, incluindo 13 ou 14 kgs da bicicleta e roupa para todos os climas (que vai tirando de uma mochila digna do Sport Billy). Fala apaixonadamente das suas aventuras de bicicleta, diz que lembra cada 10 metros da estrada, mas da próxima vez quer viajar de moto (“de bicicleta é muito duro!”; e realmente no Sikkim é só montes e vales...). Como bom italiano, sente tudo com muita emoção, tem um humor bastante volátil. Pratica meditação e ioga todos os dias, com disciplina espartana: é o primeiro a acordar, pelas cinco da manhã, para ter um período de sossego. Apesar do estilo de vida limpo associado à meditação Vipassana que pratica, é adepto de marijuana.

O português está há seis meses na Índia, mas a trabalhar. Antes da Índia viveu três anos na América Latina. Acaba de se “reformar” de um emprego demasiado bem pago como consultor. Diz que poupou para viver bastantes anos sem salário e procura actividades que o apaixonem realmente, que não só lhe dêem satisfação nas interacções com as pessoas mas também tenham missões que o preencham. Não gosta de fazer viagens de lazer muito longas – prefere viajar para trabalhar em novos lugares. Veio para Sikkim por duas semanas “desintoxicar-se” do trabalho e depois vai para Singapura por uns meses, sem planos. Não fuma, não bebe. É desportista, viciado em corrida. Já experimentou meditar, mas o principal resultado foi descobrir uma técnica para adormecer rapidamente. Pensa fazer um curso de meditação agora que terá mais tempo livre.


O mundo é maravilhosamente aleatório. A vida cheia de boas surpresas. Cinco viajantes solitários, quatro deles de longo prazo. Dois trabalhadores sazonais, dois desempregados e um reformado. Dois meditadores e dois iniciantes. Três fumadores de drogas leves, dois limpos. Um praticante de ioga e uma professora. Boas energias, alegria, espiritualismo, abertura ao próximo, tolerância. Ao segundo dia pareciam amigos de longa data. No último dia construíram um monumento à amizade e despediram-se “até logo”.



terça-feira, 4 de março de 2008

Mr. Desert

“Boa tarde. Gostariamos de fazer um tour de camelo no deserto amanhã.”

“Com certeza. Espere só um momento, que vou chamar o meu irmão.”

Pouco depois aparece o carismático Mr. Desert, dono da Sahara Travels. Só pode ser ele. Já tínhamos visto o nome escrito em algum lugar e tínhamo-nos interrogado sobre quem seria. Não foi preciso ele dizer nada para notarmos uma energia especial emanada por este homem de fartos bigode e barba. Simpatia, amabilidade, prazer genuíno de nos receber. Reparamos na fotografia atrás da secretária: ele há alguns anos atrás!

Pergunta-nos de onde somos e vai buscar o livro de comentários, para lermos o que outros turistas escreveram em português (e em espanhol, é quase igual) sobre os seus excelentes serviços.

Explicamos o que procuramos e ele oferece as suas condições, ajustando o programa habitual de passeio de camelo e noite no deserto de forma a que possamos apanhar o nosso voo no regresso. Apesar da minha mania de comparar todos os preços e tentar garantir que não estou a ser enganado, decidimos imediatamente que é a ele que queremos comprar o tour. O preço parece razoável e será impossível encontrar alguém que inspire maior confiança. Negócio fechado!





Durante a tarde, passeando por Jaisalmer, vemos um cartaz anunciando o recente festival do deserto (chegámos duas semanas atrasados). A programação inclui um “concurso Mr. Desert”, aparentemente de trajes tradicionais do Rajasthan, e lá está a fotografia dele, o Rajasthani por excelência. Também existe um concurso de bigodes, onde certamente Mr. Desert não ficaria mal classificado.

Voltamos no dia seguinte à hora marcada. Mr. Desert recorda que não voltaremos ao escritório no final do tour, e por isso não poderá perguntar-nos como foi a nossa experiência nem registar os nossos comentários. Mais importante ainda: não poderá entregar-nos uma foto sua autografada! Saca de uma fotografia (a mesma que tem por trás da secretária, de há uns anos) para cada um e escreve o nosso nome e uma dedicatória.

Depois de ponderar e concluir que ele iria gostar, pedimos para tirar uma fotografia com ele. Claro que aceita! Mas antes coloca um turbante saído de um baú e fica vários minutos em frente ao espelho a pentear a barba e enrolar o bigode (para cima, claro, sinal de honra!). Mr. Desert não pode ser fotografado de qualquer forma, há uma imagem a defender! Fico quase envergonhado por nem passar a mão pelo cabelo a pentear-me.






O passeio de camelo foi bom e a noite no deserto, com todo o infinito universo por cima de nós, fantástica. Tudo correu optimamente e à hora combinada estávamos a chegar ao aeroporto. Mas antes do guia se despedir, passa-nos o telemóvel: “Mr. Desert pediu para lhe ligar quando estivesse a deixá-los no aeroporto”. Queria saber se tinha corrido tudo bem, se tínhamos gostado da experiência. “Tudo fantástico, muito obrigado!”

Fiquei muito feliz e impressionado pelo interesse genuíno que o Mr. Desert demonstra pela satisfação dos seus clientes. Ele não está no negócio de fazer dinheiro, mas sim no negócio de fazer pessoas felizes.


Quem passar por Jaisalmer não pode deixar de fazer um passeio com a Sahara Travels do Mr. Desert (de vez em quando ele acompanha grupos de turistas!). O escritório fica mesmo ao lado (direito de quem entra) da primeira porta do forte. Contactos: sahara_travels@yahoo.com, tel. +91 2992 252609. Mandem-lhe um abraço meu!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Ténis novos

“Hello! Hello! Excuse me!”

Quando ele já estava ao meu lado e era impossível continuar a fingir-me surdo, viro a cara para encontrar um homem de baixa estatura com uma caixa de engraxar sapatos na mão.

Para variar, pergunta-me de onde sou. Respondo com a má vontade que vai crescendo proporcionalmente ao número de vezes que a pergunta se repete, já esperando que a conversa seja direccionada para a óbvia transacção comercial... Reparo, satisfeito, que estou de ténis, e portanto será impossível ele oferecer-se para me engraxar os sapatos.

A conversa desenvolve-se: há quanto tempo estou na Índia, quanto tempo vou ficar... “Vou ficar seis meses, trabalho em Gurgaon...”

Em que trabalho? Que pergunta complicada... “Negócios”, respondo. Que tipo de negócios? “Qualquer negócio” (perguntas complicadas, respostas complicadas…).

Ele fica meio intrigado, mas pouco impressionado: “Eu limpo sapatos. Sapatos pretos, sapatos castanhos, sapatos brancos – quaisquer sapatos.”

Trungas – chapadão nas fuças!! Acordo. Interesso-me por este homem baixinho que caminha ao meu lado falando com assertividade, nobreza, auto-estima, orgulho nele próprio e naquilo que faz na vida. Sinto-me a encolher até ficar mais baixo do que ele. Só então reparo como uns segundos antes eu estava a olhar para ele de cima para baixo, desvalorizando a pessoa e a profissão... Sou muito estúpido!

Trocamos boas energias e ele convida-me a sentar ali à frente para conversarmos. Aceito satisfeito, descontraído.

Pergunta se sei falar Hindi, como outros estrangeiros que ele conhece (a quem já limpou os sapatos) que estão na Índia há mais tempo. Respondo “main Hindi sikh raha hoon” [“estou a aprender Hindi”], mas sei muito pouco. Não há problema – o inglês dele é excelente.

Olha para os meus ténis e pergunta onde os comprei, se na Índia ou em Portugal. Foi em Portugal. Há quanto tempo? Há mais de um ano. “São sapatos muito bons! Se fossem indianos já estariam destruídos”, comenta.

Tinha pensado que estava a salvo da transacção comercial, mas ele decide mostrar que também sabe limpar ténis. Saca de uma escova de dentes, molha-a num líquido branco, e começa a esfregar a parte da frente do meu ténis direito dizendo que não me vai cobrar nada. Insisto que não quero que limpe os sapatos – não é uma questão de poupar umas rupias (que sei que ele vai acabar por levar), mas sim de me ser indiferente o aspecto dos meus ténis e saber que os vou sujar de novo rapidamente. Mas, claro, ele não liga e continua a sua demonstração grátis.

Impressionante: a ponta do meu ténis ficou realmente brilhante. Enquanto ele explica que são “só 20 rupias” o meu cérebro roda umas engrenagens até concluir que o mundo ficará melhor se encomendar o serviço: eu ficarei indiferente ao aspecto dos tênis e às 20 rupias, ele ficará orgulhoso por mais um serviço bem feito a mais um estrangeiro, e levará mais 20 rupias para casa.

Tiro os sapatos para facilitar o trabalho. Durante vários minutos ele esfrega-os meticulosamente de uma ponta à outra com a escova de dentes molhada na tal fórmula branca secreta e milagrosa (provavelmente detergente: os ténis ficaram a cheirar a roupa lavada).

Resultado final: reluzentes, como novos! Mesmo sabendo que o brilho não durará muito, é impossível ficar indiferente. Sem dúvida, o homem domina o negócio, tanto a área comercial como a técnica. E eu é que trabalho em “qualquer negócio”!





Pago as merecidíssimas 20 rupias e só então lhe pergunto o nome: Deram (ou talvez Dharam). Apertamos a mão e agradeço, não tanto o excelente serviço, mas muito mais a conversa, as boas energias e a lição do dia. Despeço-me desejando boa sorte e seguimos os nossos caminhos, eu provavelmente mais enriquecido do que ele.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Homem invisível

Após o almoço (um thali e um lassi doce, para variar) voltei para casa caminhando pela berma da estrada (pelo lado direito, como manda o bom senso num país que conduz – aproximadamente – à esquerda).

À minha direita o terreno afunda-se um pouco e lá está o omnipresente monte de lixo. E navegando no lixo, claro, duas vacas tentam encontrar alimento. Junto às vacas, três ou quatro porcos na mesma empreitada. Até aí nada de novo... Só então reparo no homem! Junto às duas vacas, três ou quatro porcos, e mais dois cães que entretanto detectei, um homem vasculha também. Vacas, porcos, cães e homem competem pelos restos que algumas pessoas – para mim javardas (sem ofensa aos três ou quatro porcos), para o homem talvez generosas – ali deitaram.

No chão, junto à estrada, está a bicicleta enferrujada em que ele se transporta, já carregada com dois sacos de "objectos de valor" que tentará trocar por umas rupias. Passo a dois metros, mas o homem nem dá por mim. Estamos em dimensões diferentes: eu não existo para ele... será que ele existe para mim?

Continuo a andar, pensando que cada vez me impressiono menos com estas visões, infelizmente tão frequentes. Tão frequentes que, nesse instante, vejo dois miúdos de cócoras entre os arbustos, num acto tão natural como descarregar os intestinos. Uma miúda de talvez uns oito anos e um miúdo um pouco mais velho. Também eles noutra dimensão.

Dois minutos depois regresso à matrix ao cruzar o portão do meu condomínio.




Em Ahmedabad, outra dimensão, à beira do rio Sbarmati





E, ali a 200 metros, o hotel Le Méridien

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Apetite indiano

Os indianos (pelo menos os meus colegas) adoram comer! É impressionante. Aqui o custo de não almoçar é muito maior do que no Brasil ou em Portugal. Em dias de prazos mais apertados no trabalho não tenho problemas em não almoçar (ups, a minha mãe não leu isto!), mas isso aqui vale logo uma greve geral de consultores contra a escravatura.

Todos os dias há alguma comida especial a meio do dia: um bolo de aniversário, umas chamussas, uns doces... Durante o Diwali os doces foram especialmente frequentes. Não é difícil descobrir quando chegou comida: basta notar o fluxo intenso de pessoal de todos os pontos do escritório, convergindo na copa. E quem se atrasa 1 minuto já sabe que é muito pouco provável que ainda sobre alguma coisa. Só quando observei este fenómeno é que percebi o sucesso estrondoso dos Pastéis de Belém que trouxe para o pessoal no meu primeiro dia! (um americano até me perguntou “como é que sabias que eles adoram doces??”)

É permitido comer na área de trabalho... e no entanto o escritório está imaculadamente limpo! A explicação para a limpeza é provavelmente a mão de obra barata: de vez em quando lá está um rapaz de cócoras a varrer umas migalhas do chão.

A copa do escritório condiz com o apetite voraz do pessoal: é enorme. Há quem tome o pequeno-almoço no escritório: cereais, leite, torradas... Muita gente almoça diariamente na copa, mandando vir um thali de fora ou trazendo comida de casa. À tarde o pessoal entretém o estômago com algumas chamussas ou doces que alguém traz, com umas torradas com doce, manteiga, queijo, ou ketchup (sim, torradas com ketchup!), umas bolachas ou uns cereais.

Além de comida, a copa conta ainda com uma outra ferramenta motivacional poderosíssima: uma mesa de matraquilhos! Todas as tardes, por volta das cinco horas, verifica-se um novo fenómeno de migração de consultores para a copa, desta vez para disputar emocionantes jogos de matrecos. Obviamente, os melhores jogadores são os empregados que ficam na copa todo o dia (todos homens) e que devem ter milhares de horas acumuladas de treino.



Matraquilhos, escritório

Festas

O escritório onde trabalho aqui em Gurgaon é muito alegre. As pessoas parecem felizes acima da média. Talvez devido a uma maior juventude, ou ao facto de muitos terem entrado na empresa no último ano, o pessoal reclama pouco, sentem-se energias muito positivas, os níveis de cinismo parecem bastante reduzidos. Ou será da cultura ou religião?

Não sei se existe alguma relação de causa-consequência com a alegria descrita acima, mas abundam as festas neste escritório.

Em Outubro aconteceu em Delhi um encontro de colegas da Ásia-Pacífico e todo o escritório foi convidado para um concerto da Indian Ocean, uma banda indiana super-famosa (pelo que entendi, talvez algo como se os Xutos fossem tocar no jantar de Natal da empresa em Portugal? ou o Jota Quest no Brasil?).

Em Novembro houve uma festa de Diwali no escritório. O Diwali, conhecido como “festival da luz”, é mais ou menos tão importante para os hindus como o Natal para os cristãos. Celebra a vitória do bem sobre o mal, o regresso de Rama depois de ter vencido Ravana, demónio rei de Lanka. No seu regresso, Rama foi recebido com luzes do sul ao norte da Índia, e por isso as pessoas celebram o Diwali iluminando as casas e decorando-as com flores. Fizemos o mesmo no escritório. Para estimular a criatividade, foi organizado um concurso de decoração. A minha zona ficou em 2. lugar! Claro que não foi graças a mim, até porque as minhas humildes contribuições foram todas vetadas.



Decorações de Diwali no escritório


Achei apropriado vestir roupa tradicional nesse dia, mas terceirizei a missão de comprar uma kurta ao meu motorista.



Vestidos a rigor

Em Dezembro houve uma “holiday party” (o equivalente a jantar de Natal, com a diferença que aqui não há Natal). Tanto na festa de Outubro como na de Dezembro actuou uma banda de colegas tocando covers de músicas conhecidas (algumas indianas) com as típicas letras reclamando das horas de trabalho, do chefe chato, etc... Nerdices de consultores, é verdade, mas divertido.

Mas o mais impressionante é que entre Outubro e Dezembro houve sete casamentos (sete! 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7!!) de colegas do escritório. Como é possível?? O escritório tem umas 100 pessoas... muitas já são casadas (os indianos casam em média um pouco mais cedo do que nós “ocidentais”)... Não podem sobrar muitas para casar no próximo ano! Entendi que parte do fenómeno é explicado pelo costume de casar nesta altura do ano (e reparei em muitas festas de casamento nos lugares por onde passei nesse período).

Nomes

A adaptação ao novo escritório foi imediata na maior parte dos aspectos. Afinal, nada muito diferente de ir fazer um projecto em El Salvador, México, Dubai ou Milão.

A minha principal dificuldade no início (e ainda agora é difícil) foi lembrar os nomes do pessoal! Nomes estranhíssimos que, na maioria, nunca tinha ouvido antes. Que chato esquecer até o nome das pessoas com quem falava mais! E que complicado nem sequer conseguir adivinhar se o nome (por exemplo quando recebia um e-mail) era de homem ou de mulher.

Só para exemplificar, adivinhem o sexo das pessoas na minha equipa actual: Srivatsan, Pankaj, Satyam, Gaurav, Shailendra, Deepinder, Suraj. Então? Quantas mulheres na equipa? Nenhuma – tudo homens.

O facto de um nome acabar em “o” ou em “a” não ajuda: primeiro, porque poucos nomes terminam em “o” ou “a”, e, segundo, porque existem nomes de mulher terminados em “o” e nomes de homem terminados em “a”.

Por exemplo, para definir as burocracias da minha vinda para a Índia, troquei uns e-mails com alguém chamado Rinkoo... que eu pensei sempre ser um homem! Acho que consegui disfarçar a surpresa quando finalmente conheci a Rinkoo... Felizmente, quando escrevemos em inglês não fica muito evidente o sexo da pessoa... pelo menos não quando não são necessários formalismos de “Mr.” e “Ms.”.

De todos, o nome mais engraçado que já ouvi é... Ashish! (Imagino que se fosse uma mulher os pais teriam escolhido o nome de Marijuana...).

Gurgaon

O escritório onde trabalho fica em Gurgaon, uma cidade a uns 30 kms de Delhi (entre 40min e 2h de distância, dependendo do trânsito). Não sei se existe um “centro da cidade”. Gurgaon parece ser um enorme local de construção, com muitos edifícios em obras, muito pó, muitos edifícios de escritórios novos, uma estrada com vários centros comerciais consecutivos (uns 6? 8?), construídos nos últimos 1 ou 2 anos. O edifício onde fica o escritório é tão recente (1 ano?) que nem sequer aparece nos Google Maps. A auto-estrada que passa junto ao escritório e que vem do aeroporto não existia quando passei por aqui há 2 anos. Dá mesmo para ver na rua o que é isso de crescimento de PIB de 8%...


Escritório em Gurgaon (sim, bem no meio da foto)

Comida

Como é a comida aqui? Simples: caril!!! Caril caril caril caril! Imagino que o meu suor já cheira a caril...


Eu gosto da comida, e aqui é fácil ser vegetariano (e eu tenho sido praticamente ovo-lacto-piscio-vegetariano desde que sofri uma overdose de carne nas serras gaúchas no Carnaval). A minha refeição diária até é bastante parecida com o arroz com feijão brasileiro: sempre arroz, normalmente também pão, muitas vezes feijão ou lentilhas (em caril) e caris de várias coisas. 80% dos meus almoços são thalis: uma espécie de "combo" do McDonalds, que inclui um ou mais tipos de pão, arroz (branco ou não), e várias tacinhas com caris diversos de legumes e queijo (e custa menos de 1.5 Euro onde eu costumo almoçar!). Os thalis são óptimos para quem, como eu, não gosta de pensar muito ao escolher o que comer e tem uma dificuldade extrema em lembrar-se do nome do que comeu anteriormente.




Thali (foto eventualmente sujeita a copyright; obtida em busca Google Images...)



A sobremesa típica é gulab jamun: uma bola de quatro ou cinco centímetros de diâmetro, pelo que consigo identificar, feita de farinha e ovo (e queijo? manteiga?), frita, e depois mergulhada em calda de açúcar.




Doçaria de rua, Mathura (gulab jamun sao aquelas bolas castanhas na panela do lado direito)



Os temperos são sempre fortes, não necessariamente picantes, mas pelo menos intensos, e o paladar acaba por ficar cansado. É difícil sentir o “verdadeiro” sabor dos alimentos porque está escondido atrás de um monte de especiarias potentes. E é muito difícil variar de sabores indianos: mesmo quando encontro comida italiana, por exemplo, a pasta e a pizza têm também temperos indianos fortes!!

Roupa

O colorido das roupas das indianas é espectacular. Depois de ter passado alguns meses a trabalhar em projectos de moda, de ouvir tanto falar das tendências de cor para a próxima estação, de ver literalmente monótonos guarda-roupas em cinzento, preto, castanho ou – que ousadia! - verde... é refrescante ver quão alegremente as mulheres se vestem na Índia. Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul... o arco-íris completo nos seus tons mais vivos.

É interessante que os trajes tradicionais são usados por pessoas de todas as classes socioeconómicas. No dia-a-dia no trabalho, várias colegas vestem saris ou outras roupas tradicionais, e muitas pelo menos à sexta-feira.

Gabo-lhes a paciência: o sari é um pedaço de tecido de vários metros que a mulher enrola em volta do corpo. Pelo que entendo, o processo não é nada simples (as colegas estrangeiras que experimentaram tiveram de pedir ajuda a especialistas locais para se vestirem). E existem vários estilos de colocar o sari, conforme a região ou país. Portanto não se pode dizer que seja uma roupa prática.




Turistas indianos entrando no Forte Vermelho, Nova Delhi


Até na praia as mulheres vestem saris. Não só na areia como também quando tomam banho! As indianas “decentes” não parecem gostar de mostrar muito o corpo. O mais engraçado é que há uma forma bastante habitual de enrolar o sari que deixa a parte lateral da barriga da mulher, até ao umbigo, à mostra. Mais indecente que as barrigas brasileiras. E as barrigas das mulheres indianas são em geral bastante ahn... fofinhas.




Praia de Baga, Goa


Como de costume, os homens são uns aborrecidos. No dia-a-dia não se vestem de forma muito diferente ao resto do mundo. Apenas em festas aparecem com trajes tradicionais, normalmente bastante coloridos, mas menos ousados que os femininos.