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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obamamania

“Bush terminou o seu mandato. Viva Obama!” – parece ter sido o grito do dia à volta do planeta. Não é claro se toda esta obamamania deriva (1) dos anticorpos gerados nos últimos oito anos contra Bush, (2) da cor da pele de Obama, ou (3) de méritos demonstrados do novo presidente. Se tivesse de apostar, diria que 60% vem de (1), 30% de (2) e 10% de (3). Afinal, além de ser muito bom discursador, falando de modo claro, poderoso e inspirador, não sei muito mais sobre ele.




Imagem: gawker.com



Rapidamente Bush será esquecido, o bronzeado de Obama deixará de ser novidade e os discursos terão de passar a acções. As revistas que têm censurado a criatividade dedicando repetidas capas ao messias Obama finalmente destacarão outros temas. Inevitavelmente, as decisões do novo presidente, boas ou más, incomodarão sempre alguém. Por muito competente e bem intencionado que possa ser, Obama não cumprirá as exageradas expectativas que todo o mundo parece ter gerado. Afinal, onde é que já se ouviu um povo falar bem dos seus dirigentes? Espontaneamente, em poucos lugares.

De qualquer modo, desejo o maior sucesso ao novo presidente da nação mais poderosa (e, por isso, mais perigosa) do mundo. Sei que é utópico, mas que fantástico seria se as acções dele seguissem o espírito das palavras (“walk the talk”, como se diz por aqui) que hoje partilhou no discurso de tomada de posse. Palavras cheias de bons sentimentos, bons valores, uma visão abrangente do mundo, pacifista, justa e em algum ponto até ecológica. Que tenha a coragem de tomar decisões difíceis (em que talvez alguns tenham de perder para muitos ganharem, ou todos tenham de perder hoje para todos ganharem no futuro), desafiando lobbies, grupos de interesse, financiadores de campanhas, preconceitos, de modo a gerar o máximo de felicidade no mundo. Que tenha humildade para lidar com a imperfeição, dele, dos amigos e dos menos amigos, e para não seguir os impulsos agressivos e belicistas a que os EUA têm habituado o mundo. Que tenha a sabedoria para decidir onde e como deve intervir. Que seja um agente do bem e não ceda ao “lado negro da força”.

Não existem salvadores do mundo, nem da nação. Foi sobre isso que Obama falou hoje, responsabilidade: “O que nos é pedido agora é uma nova era de responsabilidade – o reconhecimento, por cada americano, de que temos deveres para com nós próprios, a nossa nação e o mundo (...)”.

Se o povo estado-unidense acreditar, pode ser que se gere uma profecia auto-realizadora positiva, de responsabilização individual, de optimismo, de mudança para melhor. E quem sabe povos de outros pontos do globo não se inspirarão na mesma onda? Bem precisamos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Inspiração

Às vezes temos momentos difíceis. Parece que nada nos corre bem. Que não somos capazes de cumprir os nossos objectivos. Ficamos tristes, frustrados. Até começamos a acreditar que certos objectivos são simplesmente impossíveis. Humanamente inalcançáveis. Que o nosso corpo, mente, coração ou alma nos limitam e não nos proporcionam as capacidades necessárias para chegar lá. Ou, quando o nosso ego é mais forte, facilmente encontramos explicações exteriores, somos muito criativos a gerar desculpas: não tive sorte, o vento estava contra, o exame era absurdamente difícil, “eles” não fizeram o que lhes competia...

A inspiração certa pode ajudar a superar estes momentos. Podemos encontrar inspiração em nós próprios, visualizando situações anteriores em que nos conseguimos superar e obtivemos sucesso, talvez até para nossa própria surpresa. Ou inspiração em pessoas próximas: um familiar, um amigo, um professor, um colega que parece sempre conseguir chegar aos seus objectivos, dos mais básicos aos mais ambiciosos. Ou em figuras públicas, históricas ou actuais, reais ou fictícias. O importante é descobrir como converter momentos difíceis em força e sucesso.

Talvez não seja assim tão impossível ficarmos mais fortes e chegarmos mais alto e mais longe. Afinal, a maioria de nós tem duas pernas, dois braços, dois olhos, um cérebro e um coração – tudo a funcionar razoavelmente. E mesmo que nem tudo funcione não quer dizer que não consigamos chegar lá. Na ParalympicSport.TV (também no Youtube) podemos encontrar bons exemplos de pessoas que se superam apesar de nem tudo funcionar perfeitamente, como o paraolímpico português Carlos Lopes, com quem me cruzei tantas vezes enquanto corríamos no Estádio Universitário:



sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Martti Ahtisaari

O prémio Nobel da Paz 2008 foi hoje atribuído ao mediador internacional Martti Ahtisaari, antigo presidente da Finlândia (1994-2000), pelos esforços no estabelecimento de paz duradoura em diversos pontos do globo.

O Comité do Prémio Nobel chamou-o “um mediador internacional excepcional” cujos esforços “contribuíram para um mundo mais pacífico e para a fraternidade entre nações”. Segundo o presidente do Comité, “ele é um campeão mundial no que toca a paz e nunca desiste”.

Outras qualidades destacadas na imprensa são a sua abordagem directa, sem rodeios, a determinação de ferro, paciência Zen e extrema persistência.

Claro que alguém com tanta visibilidade não pode passar sem críticas, mas é impossível não admirar o seu impacto no mundo.

Para Ahtisaari, ajudar a Namíbia na transição para a independência após anos de conflito com a África do Sul foi o seu trabalho mais importante, por ter demorado tanto tempo: 13 anos. Mas ele interveio em muitos outros conflitos, como no Kosovo, Iraque, Irlanda do Norte e Aceh (Indonésia).

Em 2005, ele ajudou a terminar o conflito de três décadas entre o Movimento Aceh Livre e o governo da Indonésia, através da sua ONG Crisis Management Initiative (dedicada a criar e manter a paz em zonas de conflito). Aproveitando o efeito conciliador do tsunami que devastou algumas zonas do sudeste asiático em Dezembro de 2004, Ahtisaari mediou cinco encontros de progressiva aproximação entre Janeiro e Julho de 2005. Como resultado, a 15 de Agosto de 2005 foi assinado um acordo de paz, cobrindo interesses críticos de ambas as partes e estabelecendo condições para uma implementação realista (autonomia de Aceh, abandono de exigências de independência, desarmamento dos rebeldes, retirada das forças indonésias não locais, respeito pelos direitos humanos, amnistia para rebeldes e prisioneiros políticos, monitoramento da implementação do acordo, etc.). [Mais detalhes sobre o processo de paz no site da CMI]




Foto: Jenni-Justiina Niemi (copyright: CMI)



Um dos negociadores no conflito terá comentado: “O método dele era realmente extraordinário. Ele disse, 'Vocês querem ganhar, ou querem a paz?'”


Não é necessário participar num conflito internacional para considerar a pergunta relevante. Quantas vezes não respondemos torto a alguém próximo, ou escalamos uma discussão usando “armas” cada vez mais poderosas, deitando na fogueira achas (ou gasolina!) em vez de água, simplesmente porque não resistimos ao impulso de querer “ganhar” a disputa? Esquecemos tantas vezes os nossos principais interesses, ofuscando o longo prazo encandeados com o imediato, que pomos em causa relações importantes com as discussões mais fúteis. Não apelo ao conformismo e à passividade – há disputas que podem e devem ser lutadas e ganhas, quando levam a um mundo melhor. Apelo à sabedoria. A sabedoria de engolir o orgulho e optar pela paz quando a guerra não leva a nada. Desejar a paz de verdade leva ao fim de conflitos, dos mais íntimos aos mais globais. Por vezes basta um pequeno movimento unilateral em direcção à paz para aniquilar a espiral de conflito.

O que é que eu quero? Quero ganhar, ou quero a paz?

domingo, 27 de julho de 2008

O ciclista africano

Terminou hoje o Tour de France 2008 e, mais uma vez, graças às extraordinárias características genéticas que lhes permitem desempenhos sobrenaturais em desportos de resistência, os ciclistas quenianos dominaram a prova (ver resultados).

Dominaram?? Ninguém viu um único ciclista negro no Tour de France, pois não? Três ciclistas africanos completaram a prova: sul-africanos, brancos, da equipa italiana Barloworld, o primeiro deles, John-Lee Augustyn, em 48°.

Existem ciclistas africanos?

Claro que existem ciclistas (competitivos) africanos, e alguns serão negros. No ranking africano da União Ciclista Internacional (a federação internacional da modalidade) encontram-se bastantes. O líder de 2008 é um sul-africano com o elucidativo nome de Nicholas White. A sua equipa, Microsoft South Africa, é integralmente constituída por ciclistas brancos.

No ranking europeu, certamente o mais competitivo a nível mundial, o primeiro africano é, em 220°, de novo um sul-africano branco, Robert Hunter.

Esta ausência de ciclistas negros competindo ao mais alto nível reflecte um conjunto de factores, sendo obstáculos socioeconómicos talvez os mais importantes. O menor desenvolvimento económico do continente africano limita os quilómetros de asfalto com qualidade para prática de ciclismo de estrada. O reduzido rendimento per capita e a baixa profissionalização do desporto reduzem a disponibilidade para praticar ciclismo (os atletas precisam de uma fonte de rendimento para comer e pagar as contas, que lhes toma tempo) e dificultam a aquisição das caríssimas bicicletas imprescindíveis para quem quer ser competitivo. As bicicletas que circulam no Tour de France custam milhares de Euros (5.000+), e cada ciclista usa duas ou três: para as etapas em pelotão (uma para etapas planas, outra para etapas de montanha), e outra, tipicamente ainda mais cara, para os contra-relógios.

Benefícios do ciclismo africano

Que importa se existem ou não ciclistas negros competindo ao mais alto nível? Deveria o ciclismo de estrada de alto nível ser uma prioridade para o continente africano? Provavelmente não, há muita coisa por resolver. Mas isso não quer dizer que não possa ser um bom desenvolvimento se alguém se motivar pela causa.

Ciclistas negros com visibilidade internacional constituiriam uma referência para muitos africanos que se identificariam com eles e possivelmente os tomariam como modelos a seguir. Mesmo que quase nenhum chegasse ao ciclismo profissional, ou mesmo ao ciclismo competitivo em geral, milhões de jovens e menos jovens veriam o ciclismo como uma opção para melhorar a qualidade de vida, tanto reduzindo os quilómetros percorridos a pé como praticando ciclismo “por desporto”. Mais pessoas a usar bicicleta no dia a dia aumentaria a disponibilidade para outras actividades (ao reduzir o tempo em longos percursos a pé), melhoraria a saúde (pressupondo que essas pessoas teriam acesso a calorias suficientes para compensar os eventuais gastos extra na bicicleta; de qualquer modo, 1 km de bicicleta é menos caro em calorias que 1 km a pé – exemplos de calculadoras de calorias aqui e aqui), aumentaria a auto-estima da população (mais saudável, mais capaz, melhor humor), e possivelmente atrasaria a adopção de meios de transporte poluentes como as motos, entre outros efeitos benéficos. Claro que também aumentariam os acidentes de bicicleta (mas raramente são graves, na minha experiência – óptimos para endurecer mãos, cotovelos e joelhos!)

Bikes for Africa

Todos estes efeitos podem ser conseguidos sem ciclistas negros no Tour de France. Existem várias iniciativas para levar bicicletas para África e promover o uso desse meio de transporte ecológico e saudável. Experimentem uma busca no google com “bikes for Africa”. Aparecem projectos como Re~Cycle, que recicla bicicletas no Reino Unido, a Australian Goodwill Bicycles Abroad (bicicletas australianas), e, entre outras, esta Bikes por Africa (bicicletas neozelandesas). Entretanto eu já tinha lido sobre outra Bikes for Africa e, mais recentemente, sobre Baisikeli (projecto dinamarquês).

Além de enviarem “lixo” de países mais ricos que se espera que se converta em meios de transporte em África, várias destas iniciativas geram emprego local, ao criar uma indústria africana de recuperação de bicicletas usadas, financiada pela subsequente comercialização.

Não encontrei nenhuma iniciativa portuguesa do mesmo tipo, o que não admira, tendo em conta que a prática do ciclismo é insignificante em Portugal. Num Eurobarómetro realizado em 2007 sobre “Atitudes sobre temas relacionados com a Política de Transportes da UE”, Portugal é o antepenúltimo país da UE27 (à frente de Malta e Luxemburgo) em utilização da bicicleta como principal meio de transporte: 1% da população. [Gostaria de saber quem são! Eu não conheço ninguém!]





The African Cyclist

Se eu pensasse em desenvolver o ciclismo competitivo em África, começaria provavelmente pela bicicleta de montanha, muito mais apropriada para prática em qualquer tipo de terreno (apesar de ser uma disciplina muito menos profissionalizada que o ciclismo de estrada e portanto ser mais improvável produzir atletas que consigam viver do desporto).

Mas há quem acredite e esteja motivadíssimo por levar em frente o projecto do ciclista negro no Tour de France. Em Singapura conheci o Nick (foi ele quem generosamente emprestou a super-bicicleta que me permitiu conquistar o terceiro lugar no triatlo de Singapura há duas semanas).





O Nick é fotógrafo por conta própria e apaixonado do ciclismo. Possui várias bicicletas excelentes, mas não é um super-atleta: pedala por prazer, não compete. Ao observar a ausência de ciclistas negros nas grandes competições internacionais, decidiu fazer alguma coisa. Foi até ao Quénia em busca de ciclistas. E encontrou. Encontrou o Zakayo Nderi e o Samwel Mwangi. Trouxe-os para Singapura no ano passado e, finalmente, durante Agosto, irão até França cronometrar uma subida em Alpe d'Huez. Não menos que a mais famosa “escalada” do Tour de France (leiam os artigos na Wikipedia: em português ou, mais completo, em inglês). É cronometrada oficialmente desde 1994, e portanto constitui óptima referência para testar um atleta com ambições de se bater com os melhores do mundo. O objectivo é que estes ciclistas consigam um tempo comparável com os dos atletas do Tour, para demonstrar que têm as capacidades físicas necessárias. Depois será possível abordar e impressionar potenciais equipas, patrocinadores e parceiros para avançar com o projecto.

Será provável encontrar um ciclista negro no Tour nos próximos anos? Talvez não. Mas o mundo só muda sempre que alguém concretiza um projecto improvável.

Vamos aguardar novidades no site do projecto: http://www.theafricancyclist.com

Boas pedaladas!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Adrien

“Adrien! Ça va?”

“Cara!! Beleza?!”, responde o Adrien com a usual radiação encandeadora de boas energias.

“Há quanto tempo! Tenho andado pela Europa e não tenho vindo ao escritório. Que é feito? Tudo bem? Quanto te casas?”, pergunto na brincadeira, lembrando-me da namorada.

“Casamos na França dentro de duas semanas! Está tudo marcado!”

“Uau! Parabéns! Vamos combinar um almoço um dia destes?”

“Vamos sim, beleza!”

E nunca mais nos vimos.

No dia seguinte, a vida do Adrien neste mundo terminou abrupta e improvavelmente quando um avião falhou a aterragem no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e chocou com o edifício onde ele trabalhava. Faz hoje um ano.

Na vida e na morte, o Adrien ensinou muita coisa a todos os que tiveram o privilégio de se cruzar com ele. Positivismo inabalável, alegria, vontade de viver, pleno de amizade, generosidade, muita energia e determinação para tantos projectos a realizar... Os comentários partilhados na missa de sétimo dia devem ter-nos deixado a todos com saudável inveja a pensar “Hmm... acho que ninguém diria algo assim sobre mim se eu tivesse morrido... Como é que eu deveria viver a minha vida? O que é que eu gostaria de deixar neste mundo?”

Na memória ficam só coisas boas, e a certeza de que o Adrien está óptimo, onde quer e como quer que esteja.

Cá em baixo ficamos com saudades de te ter por estas bandas. Muitas saudades!



quarta-feira, 16 de abril de 2008

Rana

Durante os seis meses na Índia tive direito a carro, incluindo um fantástico motorista: o Rana.

A disponibilidade do Rana era impressionante: 24/7 se necessário. Nunca se atrasou para me vir buscar. No mínimo, chegava exactamente à hora certa, mesmo que fosse às quatro da manhã para ir apanhar um voo madrugador. Houve até uma vez em que, por falha de comunicação, ele me veio buscar às três e meia da manhã... quando eu na verdade precisava dele às três e meia da tarde... e isso depois de ele me ter deixado em casa perto da meia-noite! Total disponibilidade. Obrigado!

Outro impressionante atributo do Rana era a precisão absoluta nas estimativas de tempo até cada destino. Mesmo com o implacável e aleatório trânsito que frequentemente assola Nova Deli e arredores, a qualquer hora do dia ou da noite, o Rana acertava com erro inferior a 10% (ou seja, seis minutos por hora) em quanto tempo íamos demorar. Graças a ele nunca me atrasei para nenhum comboio, voo, encontro ou reunião. Obrigado!

O Rana é um homem de poucas palavras. Como eu também sou, passámos muito tempo no carro em silêncio, sem qualquer desconforto. Poderia ter sido óptimo para desenvolver o meu hindi, mas além das nossas naturezas silenciosas, o inglês dele era excelente (ao contrário de muitos dos seus colegas, sobre quem ouvi bastantes reclamações) e nunca houve necessidade real de usar hindi.

Mas o facto mais impressionante sobre o Rana é que ele já esteve em toda a Índia! Cada vez que eu viajava para um novo lugar ele dizia: “É muito bom. Vai poder visitar x, y e z...” A conversa repetiu-se para (por ordem de viagem) Goa, Chandigarh, Mathura e Vrindavan, Mumbai, Ahmedabad, Jaipur, Jodhpur, Jaisalmer, Udaipur, Varanasi, Amritsar, Darjeeling... Na última vez já nem me consegui admirar por ele ter estado num estado tão longínquo como Sikkim. Suspeito que mesmo que passasse o resto da vida na Índia nunca teria visitado mais cidades que o Rana.

Tenho saudades do Rana!



segunda-feira, 14 de abril de 2008

Um inglês, uma americana, uma israelita, um italiano e um português...

... encontram-se em Gangtok, estado de Sikkim, Índia (ali entre o Nepal, Butão e Tibete).

Viajantes solitários, cada um com as suas idiossincrasias. Decidiram fazer um trekking de uma semana em altitude (pelos 4.000 metros). Subir uma montanha por nenhuma razão em especial: porque ela está ali, pelo exercício físico, pela experiência espiritual? Cada um saberá a sua razão. Ou talvez não.

O inglês decidiu viajar por uns meses quando terminou a licenciatura em “International Development”. “Não, não é Desenvolvimento Económico – tentei focar-me mais nos aspectos culturais, antropológicos...” Acha que há algo de errado com o capitalismo. Tem andado pela Índia, mas dentro de um par de semanas vai para o Nepal, por mais dois ou três meses antes de regressar a casa e procurar “emprego”. Conheceu a israelita em Varanasi. Fuma, às vezes umas coisas esquisitas.

A americana dedica-se literalmente a apagar fogos: é bombeira nas florestas americanas. Circula de helicóptero por áreas de intensa natureza no Alasca, Montana, etc. Tem treino de primeiros socorros e noções e ferramentas (como o cantil purificador de água) de sobrevivência na natureza – provavelmente a pessoa mais útil do grupo nesta aventura. Como o trabalho só a ocupa no Verão, aproveita o Inverno para viajar. Começou há quatro meses no Egipto, circulou pelo Médio Oriente, e veio até à Índia. Conheceu a israelita no Rajasthan há várias semanas e encontraram-se mais ou menos por acaso de novo no Sikkim. Está feliz e ansiosa pelo regresso a casa dentro de duas semanas, e pelo sushi que vai poder comer! Costuma praticar meditação. Fuma marijuana (mas não tabaco) quando se aborrece.

A israelita concluiu o mestrado em Espiritualidades Hindu e Budista Indianas (ou algo parecido) e decidiu viajar durante um ano. Apesar de já ter viajado por seis meses na Índia quando terminou a licenciatura, decidiu voltar. Iniciou a viagem em Janeiro e vai ficar até Julho, quando o visto caduca. Não sabe ainda para onde irá a seguir: Sri Lanka? Birmânia? Vietname, Tailândia e arredores? Prefere viajar sozinha, independente, mais aberta aos outros, por isso acaba por estar sempre acompanhada pelas “pessoas maravilhosas que vai conhecendo”. Gosta de parar de vez em quando por mais tempo em alguns lugares, como fez por um mês em Varanasi (“às vezes precisamos de mais tempo para ‘entrar’ num lugar”). É professora de ioga, mas não é muito disciplinada na prática em viagem. Medita só de vez em quando. Não fuma, não bebe.

O italiano viaja há quatro meses e vai regressar a casa dentro de duas semanas. A tempo de voltar ao seu emprego sazonal, prestando serviços a iates numa marina no Adriático (no nordeste da bota), dando aulas de vela, velejando e apanhando sol... e poupando uns trocos para mais uma viagem no próximo Inverno. Começou a viagem em Katmandu, para onde voou com a sua bicicleta (comprada há uns anos numa viagem no norte da Tailândia). Pedalou pelo Nepal, tentou sem êxito entrar no Tibete, e depois veio para a Índia. É um especialista em viajar leve: ao sair de Itália a bagagem cumpria o limite de 27 kgs, incluindo 13 ou 14 kgs da bicicleta e roupa para todos os climas (que vai tirando de uma mochila digna do Sport Billy). Fala apaixonadamente das suas aventuras de bicicleta, diz que lembra cada 10 metros da estrada, mas da próxima vez quer viajar de moto (“de bicicleta é muito duro!”; e realmente no Sikkim é só montes e vales...). Como bom italiano, sente tudo com muita emoção, tem um humor bastante volátil. Pratica meditação e ioga todos os dias, com disciplina espartana: é o primeiro a acordar, pelas cinco da manhã, para ter um período de sossego. Apesar do estilo de vida limpo associado à meditação Vipassana que pratica, é adepto de marijuana.

O português está há seis meses na Índia, mas a trabalhar. Antes da Índia viveu três anos na América Latina. Acaba de se “reformar” de um emprego demasiado bem pago como consultor. Diz que poupou para viver bastantes anos sem salário e procura actividades que o apaixonem realmente, que não só lhe dêem satisfação nas interacções com as pessoas mas também tenham missões que o preencham. Não gosta de fazer viagens de lazer muito longas – prefere viajar para trabalhar em novos lugares. Veio para Sikkim por duas semanas “desintoxicar-se” do trabalho e depois vai para Singapura por uns meses, sem planos. Não fuma, não bebe. É desportista, viciado em corrida. Já experimentou meditar, mas o principal resultado foi descobrir uma técnica para adormecer rapidamente. Pensa fazer um curso de meditação agora que terá mais tempo livre.


O mundo é maravilhosamente aleatório. A vida cheia de boas surpresas. Cinco viajantes solitários, quatro deles de longo prazo. Dois trabalhadores sazonais, dois desempregados e um reformado. Dois meditadores e dois iniciantes. Três fumadores de drogas leves, dois limpos. Um praticante de ioga e uma professora. Boas energias, alegria, espiritualismo, abertura ao próximo, tolerância. Ao segundo dia pareciam amigos de longa data. No último dia construíram um monumento à amizade e despediram-se “até logo”.



terça-feira, 4 de março de 2008

Mr. Desert

“Boa tarde. Gostariamos de fazer um tour de camelo no deserto amanhã.”

“Com certeza. Espere só um momento, que vou chamar o meu irmão.”

Pouco depois aparece o carismático Mr. Desert, dono da Sahara Travels. Só pode ser ele. Já tínhamos visto o nome escrito em algum lugar e tínhamo-nos interrogado sobre quem seria. Não foi preciso ele dizer nada para notarmos uma energia especial emanada por este homem de fartos bigode e barba. Simpatia, amabilidade, prazer genuíno de nos receber. Reparamos na fotografia atrás da secretária: ele há alguns anos atrás!

Pergunta-nos de onde somos e vai buscar o livro de comentários, para lermos o que outros turistas escreveram em português (e em espanhol, é quase igual) sobre os seus excelentes serviços.

Explicamos o que procuramos e ele oferece as suas condições, ajustando o programa habitual de passeio de camelo e noite no deserto de forma a que possamos apanhar o nosso voo no regresso. Apesar da minha mania de comparar todos os preços e tentar garantir que não estou a ser enganado, decidimos imediatamente que é a ele que queremos comprar o tour. O preço parece razoável e será impossível encontrar alguém que inspire maior confiança. Negócio fechado!





Durante a tarde, passeando por Jaisalmer, vemos um cartaz anunciando o recente festival do deserto (chegámos duas semanas atrasados). A programação inclui um “concurso Mr. Desert”, aparentemente de trajes tradicionais do Rajasthan, e lá está a fotografia dele, o Rajasthani por excelência. Também existe um concurso de bigodes, onde certamente Mr. Desert não ficaria mal classificado.

Voltamos no dia seguinte à hora marcada. Mr. Desert recorda que não voltaremos ao escritório no final do tour, e por isso não poderá perguntar-nos como foi a nossa experiência nem registar os nossos comentários. Mais importante ainda: não poderá entregar-nos uma foto sua autografada! Saca de uma fotografia (a mesma que tem por trás da secretária, de há uns anos) para cada um e escreve o nosso nome e uma dedicatória.

Depois de ponderar e concluir que ele iria gostar, pedimos para tirar uma fotografia com ele. Claro que aceita! Mas antes coloca um turbante saído de um baú e fica vários minutos em frente ao espelho a pentear a barba e enrolar o bigode (para cima, claro, sinal de honra!). Mr. Desert não pode ser fotografado de qualquer forma, há uma imagem a defender! Fico quase envergonhado por nem passar a mão pelo cabelo a pentear-me.






O passeio de camelo foi bom e a noite no deserto, com todo o infinito universo por cima de nós, fantástica. Tudo correu optimamente e à hora combinada estávamos a chegar ao aeroporto. Mas antes do guia se despedir, passa-nos o telemóvel: “Mr. Desert pediu para lhe ligar quando estivesse a deixá-los no aeroporto”. Queria saber se tinha corrido tudo bem, se tínhamos gostado da experiência. “Tudo fantástico, muito obrigado!”

Fiquei muito feliz e impressionado pelo interesse genuíno que o Mr. Desert demonstra pela satisfação dos seus clientes. Ele não está no negócio de fazer dinheiro, mas sim no negócio de fazer pessoas felizes.


Quem passar por Jaisalmer não pode deixar de fazer um passeio com a Sahara Travels do Mr. Desert (de vez em quando ele acompanha grupos de turistas!). O escritório fica mesmo ao lado (direito de quem entra) da primeira porta do forte. Contactos: sahara_travels@yahoo.com, tel. +91 2992 252609. Mandem-lhe um abraço meu!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Ténis novos

“Hello! Hello! Excuse me!”

Quando ele já estava ao meu lado e era impossível continuar a fingir-me surdo, viro a cara para encontrar um homem de baixa estatura com uma caixa de engraxar sapatos na mão.

Para variar, pergunta-me de onde sou. Respondo com a má vontade que vai crescendo proporcionalmente ao número de vezes que a pergunta se repete, já esperando que a conversa seja direccionada para a óbvia transacção comercial... Reparo, satisfeito, que estou de ténis, e portanto será impossível ele oferecer-se para me engraxar os sapatos.

A conversa desenvolve-se: há quanto tempo estou na Índia, quanto tempo vou ficar... “Vou ficar seis meses, trabalho em Gurgaon...”

Em que trabalho? Que pergunta complicada... “Negócios”, respondo. Que tipo de negócios? “Qualquer negócio” (perguntas complicadas, respostas complicadas…).

Ele fica meio intrigado, mas pouco impressionado: “Eu limpo sapatos. Sapatos pretos, sapatos castanhos, sapatos brancos – quaisquer sapatos.”

Trungas – chapadão nas fuças!! Acordo. Interesso-me por este homem baixinho que caminha ao meu lado falando com assertividade, nobreza, auto-estima, orgulho nele próprio e naquilo que faz na vida. Sinto-me a encolher até ficar mais baixo do que ele. Só então reparo como uns segundos antes eu estava a olhar para ele de cima para baixo, desvalorizando a pessoa e a profissão... Sou muito estúpido!

Trocamos boas energias e ele convida-me a sentar ali à frente para conversarmos. Aceito satisfeito, descontraído.

Pergunta se sei falar Hindi, como outros estrangeiros que ele conhece (a quem já limpou os sapatos) que estão na Índia há mais tempo. Respondo “main Hindi sikh raha hoon” [“estou a aprender Hindi”], mas sei muito pouco. Não há problema – o inglês dele é excelente.

Olha para os meus ténis e pergunta onde os comprei, se na Índia ou em Portugal. Foi em Portugal. Há quanto tempo? Há mais de um ano. “São sapatos muito bons! Se fossem indianos já estariam destruídos”, comenta.

Tinha pensado que estava a salvo da transacção comercial, mas ele decide mostrar que também sabe limpar ténis. Saca de uma escova de dentes, molha-a num líquido branco, e começa a esfregar a parte da frente do meu ténis direito dizendo que não me vai cobrar nada. Insisto que não quero que limpe os sapatos – não é uma questão de poupar umas rupias (que sei que ele vai acabar por levar), mas sim de me ser indiferente o aspecto dos meus ténis e saber que os vou sujar de novo rapidamente. Mas, claro, ele não liga e continua a sua demonstração grátis.

Impressionante: a ponta do meu ténis ficou realmente brilhante. Enquanto ele explica que são “só 20 rupias” o meu cérebro roda umas engrenagens até concluir que o mundo ficará melhor se encomendar o serviço: eu ficarei indiferente ao aspecto dos tênis e às 20 rupias, ele ficará orgulhoso por mais um serviço bem feito a mais um estrangeiro, e levará mais 20 rupias para casa.

Tiro os sapatos para facilitar o trabalho. Durante vários minutos ele esfrega-os meticulosamente de uma ponta à outra com a escova de dentes molhada na tal fórmula branca secreta e milagrosa (provavelmente detergente: os ténis ficaram a cheirar a roupa lavada).

Resultado final: reluzentes, como novos! Mesmo sabendo que o brilho não durará muito, é impossível ficar indiferente. Sem dúvida, o homem domina o negócio, tanto a área comercial como a técnica. E eu é que trabalho em “qualquer negócio”!





Pago as merecidíssimas 20 rupias e só então lhe pergunto o nome: Deram (ou talvez Dharam). Apertamos a mão e agradeço, não tanto o excelente serviço, mas muito mais a conversa, as boas energias e a lição do dia. Despeço-me desejando boa sorte e seguimos os nossos caminhos, eu provavelmente mais enriquecido do que ele.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Homem invisível

Após o almoço (um thali e um lassi doce, para variar) voltei para casa caminhando pela berma da estrada (pelo lado direito, como manda o bom senso num país que conduz – aproximadamente – à esquerda).

À minha direita o terreno afunda-se um pouco e lá está o omnipresente monte de lixo. E navegando no lixo, claro, duas vacas tentam encontrar alimento. Junto às vacas, três ou quatro porcos na mesma empreitada. Até aí nada de novo... Só então reparo no homem! Junto às duas vacas, três ou quatro porcos, e mais dois cães que entretanto detectei, um homem vasculha também. Vacas, porcos, cães e homem competem pelos restos que algumas pessoas – para mim javardas (sem ofensa aos três ou quatro porcos), para o homem talvez generosas – ali deitaram.

No chão, junto à estrada, está a bicicleta enferrujada em que ele se transporta, já carregada com dois sacos de "objectos de valor" que tentará trocar por umas rupias. Passo a dois metros, mas o homem nem dá por mim. Estamos em dimensões diferentes: eu não existo para ele... será que ele existe para mim?

Continuo a andar, pensando que cada vez me impressiono menos com estas visões, infelizmente tão frequentes. Tão frequentes que, nesse instante, vejo dois miúdos de cócoras entre os arbustos, num acto tão natural como descarregar os intestinos. Uma miúda de talvez uns oito anos e um miúdo um pouco mais velho. Também eles noutra dimensão.

Dois minutos depois regresso à matrix ao cruzar o portão do meu condomínio.




Em Ahmedabad, outra dimensão, à beira do rio Sbarmati





E, ali a 200 metros, o hotel Le Méridien

terça-feira, 14 de junho de 2005

Tony Meléndez

Os leitores das bulicenas que consideram que têm uma vida difícil poderiam pensar em relativizar tal opinião. Quando acharem que não conseguem fazer alguma coisa, peçam conselhos ao Tony Meléndez, um nicaraguense exemplar, a ver o que ele vos diz: "¡Sí puedes, sí puedes!" (daqui a três anos certo candidato a presidente dos EUA deveria pagar-lhe royalties pelo uso do slogan!). Músico talentoso, pai adoptivo de duas crianças centro-americanas, imensa alegria de viver. Inspirador. Felizmente os pais e ele próprio profetizaram-lhe uma vida de sucesso e tornaram a profecia realidade. O rapaz tocava hoje à noite na Guatemala... mas infelizmente tive de apanhar um avião bem cedo e voltar a El Salvador para justificar o meu salário.




Site oficial: www.tonymelendez.com