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domingo, 2 de novembro de 2008

Maratona de Nova Iorque

Missão cumprida! Terminei a maratona de Nova Iorque em 2h57'51”!! Fui 802º entre os 38.096 atletas que terminaram a prova em menos de 10 horas (resultados completos aqui).


Em milhas é mais fácil!

Esta foi, sem dúvida, a mais fácil das minhas cinco maratonas até ao momento. Na melhor forma de sempre (para maratonas), com baixas temperaturas e muito apoio, tudo fica mais fácil: parece que a distância é reduzida, e o sofrimento também.

(Nota: Podem consultar o percurso da maratona aqui)



Foto: brightroom



Já em cima da ponte Verrazano-Narrows (Staten Island-Brooklin), onde seria dada a partida, sentia-me preparadíssimo para a maratona. Treinos excelentes nos meses anteriores, com qualidade, sem lesões, recuperação rápida de treino para treino. Sem quaisquer dores ou cansaço no corpo (pés, pernas, joelhos...), bem dormido. Boa alimentação (hidratos de carbono!) nas vésperas e no próprio dia. Desperdícios líquidos e sólidos libertados. Café uma hora antes da partida, porque consta que promove a queima de gorduras, poupando valioso glicogénio. (Aha! Afinal não estou livre de drogas! Ok, ok, confesso que este ano devo ter tomado uma meia dúzia de cafés, todos por razões desportivas...) Corpo quente, graças às calças e casaco comprados no Salvation Army (US$4 pelas calças, US$5 pelo casaco!, para os poder deixar na partida no último minuto) e ao aquecimento de 10 minutos em corrida lenta. Dia espectacular: céu azul, quase limpo de nuvens, frio mas não gelado (entre 5 e 10ºC). Adrenalina em cima. Venham as 26 milhas!




Roupa do Salvation Army



Tiro de partida! Os primeiros atletas começaram a correr ao som de Frank Sinatra: “Start spreading the news...”. Na minha partida (havia três pontos de partida simultânea) ficámos a olhar para os atletas de elite a passar ao lado (pareciam ir devagar!), até que reparámos que o pessoal à nossa frente tinha começado a avançar e iniciámos a nossa peregrinação até ao Central Park.



Foto: brightroom



As duas primeiras milhas fizeram-se quase sem dar por elas, ultrapassando atletas na ponte. À entrada no Brooklin apareceram os primeiros dos milhões de espectadores prometidos, a fazer bastante barulho.



Foto: brightroom



Pouco depois surgiu a milha 3 e o km 5: “Já?! Isto está a passar rápido! Já lá vai quase 1/8 de maratona!”.



Foto: brightroom



No km 5 passei pelo primeiro tapete de detecção de chips (além do da linha de partida) e imaginei as bulicenas a serem actualizadas com o meu tempo e o pessoal a acompanhar à distância e a mandar apoio através de intensas radiações telepáticas! Cada vez que passava por um tapete – a cada 5 kms, na meia-maratona, em cada milha entre a 16 e a 26 e na meta – ficava sempre animado ao imaginar a informação a ser actualizada e os leitores das bulicenas a mandar mais energias de apoio. Obrigado pessoal!

Perto da milha 4 estavam a Sílvia e a Mei Yee, muito animadas e animadoras, no primeiro ponto combinado. Energia recarregada a 120%!





Irracional mas verdadeiro: correr em milhas é (psicologicamente) mais fácil! Cada milha que passava eram 1,6 km, em 3 milhas já lá iam quase 5 km... Apenas 26 milhas em vez de 42 km!! Fiquei surpreendido com a rapidez com que aparecia cada nova milha. A ajudar a passar o tempo claro que estava o público e os atletas companheiros de aventura, mas também os postos de abastecimento (a cada milha), que se viam de longe e davam logo aquele ânimo de “mais uma milha!” (ou “menos uma”).

O temido vento estava contra. Foi a primeira coisa em que tinha reparado ao sair de casa às 6:30 da manhã: as bandeiras esvoaçando para Sul... nem tudo pode ser perfeito. Durante a prova, notei o vento especialmente na 4ª Avenida no Brooklin, onde corríamos uma recta de Sul para Norte, entre as milhas 4 e 8. Ao verificar que conseguia manter o ritmo pretendido, deixei de reparar – afinal, não havia nada que eu pudesse fazer (experimentei algumas vezes ficar atrás de outros atletas, a ver se me protegia do vento, mas não senti grande efeito e acho sempre algo claustrofóbico ir “na cola”).



Foto: brightroom



Túnel de energia

No Norte do Brooklin, por volta da milha 10, o público estava incrivelmente animado. Na Avenida Bedford, num trecho um pouco mais estreito que tornava o público mais próximo e obrigava os atletas a correrem num pelotão mais compacto, formou-se um autêntico túnel de energia. Os espectadores gritavam alto, por vezes em resposta a um berro de um atleta mais inspirado, e formava-se uma ressonância espectacular: de repente éramos todos campeões olímpicos e os nossos depósitos de energia voltavam ao nível máximo (como nos jogos de computador, quando apanhamos um objecto que restabelece a energia a 100%). Obrigado pessoal!

Até perto da meia-maratona (13,1 milhas; ponte entre Brooklin e Queens) tudo foi bastante fácil, como deveria ser (se corresse a primeira metade em esforço provavelmente não conseguiria completar a maratona). O ritmo estava perfeito. Tinha alguma vontade de fazer uma paragem nas boxes (nos WCs portáteis disponíveis em cada milha) mas fui adiando a paragem até ao final e acabei por poupar esses segundos. Comecei a sentir as pernas e pela primeira vez lembrei-me de que em algum momento apareceria o senhor sofrimento.


Estádio olímpico

Na milha 16 (ponte de Queensboro, entre Queens e Manhattan) iniciei a contagem decrescente: 10 milhas para o final, 9, 8... Pela primeira vez fiz a conta básica: “10 milhas x 7'/milha = 70 minutos, a somar a 1h48' que já lá vão... quer dizer que mesmo que o meu ritmo piore para 7'/milha [a média estava em 6'47”/milha] ainda devo conseguir baixar das 3 horas!!”. Mas rapidamente pensei que 7'/milha não era assim tão lento, e que bem poderia acontecer que os últimos kms fossem mesmo muuuuito lentos e portanto tinha de me concentrar em manter o ritmo até o mais tarde possível.

À saída da ponte de Queensboro, ao entrar na 1ª Avenida em Manhattan, tornei-me o líder da maratona à entrada no estádio olímpico! Fortes aplausos, gritos ensurdecedores, energia, muita energia.... Ali estava uma ruidosa multidão (invisível e silenciosa para quem vinha na ponte) que se espalhava por umas três milhas.

Durante a milha seguinte olhei bastante para o público à procura de caras conhecidas que tinham combinado estar por ali. Mas a multidão era tão densa que a probabilidade de as encontrar era muito baixa. Foquei-me em apreciar o público e sintonizar as antenas para recolher energias telepáticas.

A longa recta entre as milhas 16 a 20 fez-se bem, com energia extra graças ao espectacular público. Apesar de não sentir calor, pela milha 18 decidi tirar a camisola de manga comprida, para ver se o frio me ajudava a superar os difíceis kms finais. Por essa altura passámos no posto de abastecimento de PowerGel, que nos recordava que as nossas reservas de glicogénio deveriam estar praticamente a zero e o “muro” poderia aparecer a qualquer momento...



Foto: brightroom



Onde está o “muro”?

Na milha 20 (km 32, famoso ponto a partir do qual o “muro” costuma atacar) entrámos no Bronx, mas logo na milha 21 saímos. A reentrada em Manhattan, a 5 milhas da meta (pouco mais de meia hora!), deu-me bastante ânimo: “só” faltava entrar no Central Park e terminar! As pernas estavam cansadas, algo doridas, mas ainda conseguia dar passadas normais. Surpreendido, não notei sinais do “muro”. Mas suspeitava que ele poderia aparecer a qualquer momento e nada estava garantido.



Foto: brightroom



Após a milha 22 iniciámos uma longa e razoavelmente inclinada subida na 5ª Avenida. Do lado direito estava já o Central Park! No fim da subida, após a milha 23 (5 kms para terminar! Só mais uns 20 minutos!!), entrámos à direita no Central Park e iniciámos uma montanha russa de duas milhas, com bastantes mais descidas que subidas (para alegria de todos os corredores), que me ajudaram a fazer uma 24ª milha razoável (voltei a fazer os cálculos - começava a ser difícil não fazer menos de 3 horas!!) e uma 25ª milha rápida (uma das mais rápidas de toda a corrida).



Foto: brightroom



Última milha!

Uma milha para o final e o muro não tinha aparecido!! Continuava razoavelmente lúcido (apesar de na foto parecer estar a dormir uma sesta...), nem sinais de quebra! Animei-me e dei ordens às pernas para acelerar ligeiramente o ritmo, dar tudo até ao final. E elas obedeceram!





Passei novamente pela Sílvia e pela Mei Yee. A concentração e o cansaço não permitiram distinguir os berros conhecidos entre os anónimos, mas com certeza que o apoio delas ajudou a tirar uns segundos naqueles metros finais!

Já era oficial: pela primeira vez em cinco maratonas não ia sentir o muro! Entrei na rua Sul do Central Park e vi ao fundo a estátua do Cristóvão Colombo, no Columbus Circle. Mais ou menos 1 km para a meta! Verifiquei também que aquela rua é a subir! Nunca tinha reparado, e já passei por ali tantas vezes. Não desanimei – mantive o ritmo forte e continuei a ultrapassar atletas mais cansados.

Meia milha para o final! Por essa altura passei pelo Miguel e pela Christine, cujos berros também não consegui distinguir da multidão. Estava totalmente focado na estátua do Colombo ao fundo e no ritmo forte para acabar.



Foto: brightroom



Finalmente entrei no Columbus Circle e virei à direita para o Central Park – meta a pouco mais de 400 metros! Olhei à volta à procura de caras conhecidas e encontrei logo o Paulo e a Ju, muito animados e com um cartaz com palavras de apoio que a velocidade não permitiu ler. Adrenalina bem em cima, a camuflar quaisquer dores ou cansaços. Tinha entrado no que me parecia um “ritmo louco” para voar os últimos metros.



Foto: brightroom



400 jardas para o final... 300 jardas... Quase não notei a última subida antes da meta... 200 jardas... A meta estava já ali! Cruzei a meta com a lucidez suficiente para “posar” para uma eventual foto final e só então parei o cronómetro: 2 horas, 57 minutos e 50 e tal segundos!! Missão cumprida!



Foto: brightroom



No mesmo instante em que senti a alegria do objectivo alcançado, a adrenalina eclipsou-se. As pernas, que momentos antes galgavam asfalto, agora não queriam nem andar! De repente, ficou frio! Foi então que comecei as duas milhas mais difíceis de todo o dia: caminhar até à saída do Central Park, na rua 85, e depois de volta ao Columbus Circle para encontrar os amigos e celebrar!





Tempos realizados vs. planeados

Eu próprio fico, modestamente, fascinado com a minha capacidade de estimar tempos de corrida. Demonstra um razoável conhecimento do meu corpo e das minhas capacidades. Como se vê na tabela abaixo, os tempos realizados na maratona foram muito próximos dos planeados (erro inferior a 1% em quase todas as milhas). Só houve uma ligeira divergência a partir da milha 16, porque eu tinha planeado ser um pouco mais rápido naquela fase da corrida, até à milha 22, e a partir daí tinha previsto “morrer” e ter de entrar num ritmo lento a que felizmente fui poupado!





O melhor público do mundo

Não sei se eram os 2,5 milhões estimados pelos organizadores (média de 60 pessoas por metro de percurso, ou seja 30 pessoas/metro de cada lado... parece-me um pouco exagerado), mas havia muita muita gente ao longo da maratona. Além das pontes, onde o público não tinha acesso, havia poucos metros sem gente. Mas, mais do que estar lá a assistir passivamente, como acontece em muitas provas, o pessoal em Nova Iorque faz questão de gritar, aplaudir, fazer barulho.

E o apoio não é anónimo, para o grupo de atletas em geral: sempre que possível, os espectadores identificam o atleta (por alguma palavra escrita no equipamento, às vezes simplesmente pelo número de prova) e dão apoio individualizado, gritando os nomes dos atletas, dos seus clubes, etc. No meu caso, porque levei na maior parte da prova, devido ao frio, uma camisola de uma corrida no Brasil, dos Bombeiros de São Paulo, de vez em quando ouvia “Go Bombeiros!”. Pode parecer que não faz grande diferença, mas saber que alguém olhou para mim e me dedicou um apoio especial energiza-me e responsabiliza-me: “tenho de ir bem!”.

Sem dúvida, o melhor público do mundo.

Devo confessar que fiquei um pouco desiludido com as bandas de música ao longo do percurso. As minhas recordações da maratona de Madrid'2001 eram de bandas talvez a cada 5 km, mas que tocavam tão alto que se ouviam uns 500 metros antes e uns 500 metros depois, e me deixavam com o ritmo na cabeça quase até à banda seguinte. Em Nova Iorque a maior parte das bandas eram pouco barulhentas e geralmente eu só reparava nelas no instante em que passava mesmo em frente. E como às vezes havia outra banda poucos metros depois, raramente dava para perceber o que elas estavam a tocar. Acho que nenhum ritmo ficou na cabeça por mais do que uns segundos. Acredito que menos bandas e mais barulhentas teriam maior impacto.

A maratona também proporciona prognósticos para as eleições presidenciais americanas: Obama vai ganhar. De vez em quando aparecia um espectador com um cartaz de apoio ao Obama (por exemplo “High fives for Obama here”) ou um atleta com algum dizer nas costas tipo “We can do it”. Zero para o McCain. No mínimo, por alguma razão, adeptos do Obama são mais propensos a participar e assistir a maratonas demonstrando publicamente as suas preferências políticas.


Os melhores voluntários do mundo

Segundo os organizadores, a maratona de Nova Iorque conta com mais de 6.000 voluntários, dedicados às mais diversas funções: dar indicações para garantir que os atletas chegam ao ponto de partida correcto na ordem correcta no momento correcto, oferecer abastecimento de água e Gatorade a cada milha, prestar assistência médica, indicar o caminho durante a corrida, felicitar e ajudar os atletas após a meta, etc. etc. etc.



Foto: brightroom



Mais impressionante que a quantidade de voluntários era que eles não só correspondiam à responsabilidade que tinham aceite, mas também mostravam genuíno interesse, alegria, preocupação pelos atletas. Nos postos de abastecimento, a cada milha, além de estenderem a mão com copos de água ou Gatorade, os voluntários gritavam palavras de incentivo “mile 12!”, “way to go!”, “you look great!”. Após a meta, dezenas de voluntários em fila aplaudiam e felicitavam os atletas pelo “great job!”. De vez em quando algum perguntava “are you ok?”, “do you need help?” com sincera preocupação. Seria impossível morrer ali sem ninguém dar por isso (ao contrário do que senti em Mumbai, onde logo após a meta entrei numa multidão de anónimos que facilmente ignoraria um corpo ali caído por vários dias).

Extraordinário. Verdadeiros voluntários, que, como o próprio nome sugere mas nem sempre corresponde à verdade, faziam o seu trabalho com vontade. Obrigado!


Os vencedores

Os vencedores da maratona foram ambos repetentes na façanha. A primeira mulher foi a inglesa Paula Radcliffe, recordista mundial na maratona e detentora de quatro dos cinco melhores tempos de sempre na distância, que já tinha vencido em Nova Iorque em 2004 e 2007.



Foto: brightroom



O primeiro homem foi o brasileiro Marilson Gomes dos Santos, que tinha vencido em 2006, surpreendendo a concorrência africana, que não fazia ideia de quem ele seria, com uma fuga na milha 20. Este ano ganhou após uma recuperação fantástica na última milha, quando ia em segundo a uns 10 segundos do líder.



Foto: brightroom



Cobertura televisiva

Aqui podem encontrar imagens televisivas da maratona: reportagem completa da NBC Sports (5 horas – óptima para ter uma ideia de tudo o que se passa à volta deste mega-evento), maratonas masculina e feminina completas (2h-2h30m – foco exclusivo nos vencedores), e resumos de dois minutos sobre os vencedores masculinos, femininos, de corrida e cadeira de rodas.


Próximas loucuras?

E agora que alcancei este objectivo e que a adrenalina se foi... que loucuras se seguirão?

Para já nada muito definido, mas com certeza surgirão ideias a executar! Esta semana é de repouso semi-activo para recuperar bem e rápido. Andar, nadar devagar, alguma corrida lenta e curta mais para o final da semana.

Dia 20 ou 21 de Dezembro tenciono participar no Troféu Marquês do Funchal de pentatlo moderno, em Lisboa, por isso vou concentrar-me em treinar natação e investir em corrida para ganhar velocidade (dentro do possível no relativo pouco tempo entre recuperar da maratona e a prova) e estar na melhor forma possível para nadar 200 metros e correr 3 km. As logísticas do tiro, esgrima e hipismo não facilitam o treino, portanto vou confiar que ainda me lembro como se fazem.

Quanto a maratonas, há sempre novos objectivos possíveis: até ao recorde do mundo (2h03'59”, do fantástico etíope Haile Gebrselassie, na maratona de Berlim deste ano) há muito a melhorar! Tenho pelo menos mais 4 a 6 anos para melhorar a minha forma física (o não menos fantástico e tuga Carlos Lopes foi campeão olímpico em Los Angeles'1984 – com recorde olímpico que durou até Pequim'2008 – aos 37 anos, e recordista do mundo na maratona de Roterdão em 1985, aos 38 anos!). Gostaria pelo menos de melhorar o meu recorde até às 2h48m, que era o tempo que esperava – talvez um pouco irrealisticamennte – ter conseguido fazer logo na primeira maratona. Para acreditar que posso fazer esse tempo, “basta” continuar a trabalhar velocidade/limiar anaeróbio para voltar a fazer 1h20' na meia maratona (ou menos – o meu recorde, de 2000, é 1h17') e resistência para aguentar um ritmo de 15 km/h (4'/km) durante toda a maratona, e escolher um percurso plano numa cidade onde faça bastante frio na altura da prova.

Irei dando notícias!

2008 ING NYC Marathon Alert

Latest Results at 12:42:12 PM:
Location Time Pace/mile
5km0:20:436:40
10km0:41:486:43
15km1:02:496:44
20km1:23:436:44
Half-Marathon1:28:156:43
25km1:45:106:46
Mile 161:49:246:50
Mile 171:55:076:46
Mile 182:01:516:46
30km2:06:086:45
Mile 192:08:356:46
Mile 202:15:296:46
Mile 212:22:276:47
35km2:27:476:47
Mile 222:29:216:47
Mile 232:36:056:47
Mile 242:43:096:47
40km2:48:516:47
Mile 252:49:496:47
Mile 262:56:266:47
Finish2:57:516:46

All times are unofficial. Times may vary in post race official results.


New York Road Runners

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A postos!

É já no Domingo: a maratona de Nova Iorque. Após meses de preparação, estou pronto para mais um desafio de 42,195 quilómetros. Depois de ter completado a maratona de Mumbai em 3h20min no dia 20 de Janeiro, o objectivo é agora bater o meu recorde pessoal na distância (3h03, na minha primeira maratona, há 8 anos) e terminar abaixo das 3 horas: 2 horas, 59 minutos e 59 segundos seria fantástico.

Como posso ambicionar melhorar o meu tempo em 20 minutos apenas nove meses depois? É fácil: há por aí uns laboratórios que produzem umas pastilhas espectaculares que nos fazem mais rápidos, mais fortes, mais resistentes, mais inteligentes e outros efeitos maravilhentos em muito pouco tempo. Brincadeira! No último ano talvez tenha tomado uma ou duas pastilhas para combater alguma constipação, mas de resto estou totalmente limpo – venham os controles anti-doping! Limpo de drogas, de álcool e praticamente de carne também... Como é que posso julgar-me capaz de tal desempenho?

Após a maratona de Mumbai analisei os factores internos e externos a influenciar para melhorar o meu tempo e defini a estratégia de ataque. [Aviso: os parágrafos que se seguem poderão ser esotéricos ou entediantes para os menos interessados em detalhes técnicos ou simplesmente palavrosos]


Factores internos

Para além da mente (psicologia), identifiquei os principais factores “internos” que eu poderia influenciar na minha preparação – a minha resistência, velocidade e peso:

Resistência: Claro que é preciso resistência (i.e., capacidade de realizar um esforço físico de longa duração) para terminar uma maratona. Essa resistência obtém-se fundamentalmente com treinos longos (no meu plano, até 36-37 km). Nesta preparação fiz mais treinos acima de 2 horas do que para maratonas anteriores (foram sete). E certamente bati o meu recorde de kms corridos em 7 dias seguidos: na semana entre 28/Set e 4/Out corri mais de 8 horas em 5 treinos, totalizando cerca de 110 km. Essa semana começou com a meia-maratona de Newport, que completei em 1h23'48” (não corria uma meia-maratona tão rápida desde Buenos Aires em 2005, e antes disso desde 2002). Quatro dias depois fiz um treino de 37 km e, depois de apenas um dia de descanso, corri uma nova meia-maratona (no Central Park), que esperava fazer mais devagar dado não poder ter recuperado ainda do treino longo, mas que terminei em pouco mais de 1h24'! Foi uma semana muito animadora para manter as aspirações de baixar das 3h na maratona.




Foto: Ken Shelton Photography

Na meia-maratona de Newport, por volta da milha 9 (alguma figura conhecida na foto? não, não me refiro ao tipo de barba...); nesta prova comecei a aprender a "correr em milhas"! quem diria que uma meia-maratona tem 13,1 milhas?



Velocidade: Correr uma maratona em 3h exige uma velocidade média (14 km/h) mais rápida que a minha velocidade habitual em treino (ultimamente perto dos 12,5 km/h). Desde que deixei o pentatlo competitivo em 1999 praticamente deixei de fazer treinos rápidos de corrida e passei a participar em provas com reduzida frequência – por isso tenho perdido bastante velocidade. Nas vezes em que treinei para as anteriores maratonas nunca consegui fazer treinos de velocidade ao mesmo tempo que aumentava a quilometragem (estava tão cansado a recuperar dos treinos longos que era impossível pensar em treinos rápidos, além de que há sempre um maior risco de lesão quando se aumentam as duas variáveis: volume e intensidade). Desta vez decidi arriscar e fiz, pela primeira vez em bastantes anos, séries de corrida (repetições de 400, 800 e 1000 metros) e treinos de limiar anaeróbio (20 a 40 minutos a ritmo de meia-maratona). São treinos mais duros, de algum sofrimento, mas que geram um estranho bem-estar pós-treino e que me fizeram sentir cada vez mais forte e mais rápido, sem ficar cansado nem lesionado – recuperei muito bem de um treino para outro.

Peso [queridos pais, podem saltar este parágrafo!]: Sem dúvida, se eu pesar menos conseguirei correr mais rápido com o mesmo esforço. Entre Abril e Julho, sem qualquer esforço nesse sentido, simplesmente graças a uma maior actividade física (juntando a natação e o ciclismo à habitual corrida) e alimentação mais regrada (menos açúcar e menos gordura), perdi cerca de 3 kgs. Pela primeira vez em 15 anos a minha avó e os meus pais podem afirmar com verdade “estás mais magro!”. Nos últimos 15 anos o meu peso tinha sido praticamente constante: uns 66 kgs (excepto dois períodos “negros” em que cheguei a escandalosos 69 kgs). Depois de ter perdido estes 3 kgs que pensava ser impossível perder, concluí que ao longo do tempo tinha transformado músculos em gordura – agora noto que realmente a minha barriga e as minhas pernas estão mais “secas” (segundo algumas medições – sabe-se lá se fiáveis – efectuadas em Julho, a minha taxa de gordura corporal era inferior a 10%).


Factores externos

Os principais factores “externos” que identifiquei, influenciáveis ao escolher a maratona a correr, foram o clima, o percurso e a animação:

Clima: Já pude observar que o meu desempenho sofre bastante com a temperatura ambiente. Mais frio, mais rápido. Mais quente, mais lento e mais cansado. Isso foi especialmente evidente nas quentes e húmidas maratonas de Singapura (2003) e Mumbai (2008). Por isso já tinha decidido há algum tempo que teria de escolher uma maratona “fria” para bater o meu recorde. Nova Iorque é excelente: segundo o site da prova, a temperatura média no dia da prova tem sido de 13ºC. No fim-de-semana passado achei que ainda não estava suficientemente frio e pensei como seria bom se arrefecesse um pouco... Alguém me ouviu e decidiu regular o termóstato para os 4-5ºC... brrrrrrrr! Agora estou a achar que está demasiado frio e já nem sei bem que devo vestir para a prova. Uma variável climática que não tinha considerado é o vento: aqui venta forte e, infelizmente, nem sempre a favor. O percurso da maratona é mais Sul-Norte do que Norte-Sul... portanto o sentido em que sopre o vento será determinante para eu manter ou não as minhas ambições de tempo final.

Percurso: Claro que um percurso plano é mais fácil que um percurso com subidas e descidas (melhor que plano só o percurso da meia-maratona da Ponte 25 de Abril, que só tem descidas!). Segundo os entendidos, o percurso da maratona de Nova Iorque é duro, especialmente devido às subidas (as principais ao cruzar pontes – vejam aqui a altimetria), ao vento, e às multidões de público e atletas que fazem os 42 km um pouco mais longos (por ser difícil percorrer sempre o caminho mais curto possível). Não foi uma escolha perfeita, mas acredito que o frio e as multidões (irradiadoras de energias positivas) ajudarão a vencer as subidas e o vento contra.





Animação: Das quatro maratonas que fiz até hoje, apenas uma (a de Madrid'2001) tinha um número decente de participantes e uma quantidade simpática de espectadores animadores. Lisboa'2000 e Mumbai'2008 tinham poucos participantes (uns 500) e muito pouco público, e a de Singapura'2003 tinha mais participantes (uns 2.500) mas também pouco público. No Domingo não me poderei queixar de companhia na prova: 39.000 atletas e dois milhões de espectadores! Mais de 120 bandas a tocar (lembro-me de ter sido das coisas que mais apreciei em Madrid, onde só havia uma meia dúzia de bandas)! E ainda, ao contrário de Mumbai em que não havia absolutamente ninguém mais próximo a dar apoio ao vivo e em directo, terei vários amigos cujos gritos de incentivo espalhados pelo percurso me carregarão de energias pelos seguintes kms. Com certeza não faltarão energias positivas. Mas se por acaso faltarem, naqueles sempre penosos 5 kms, perdão, 3 milhas finais, posso sempre pôr-me a cantarolar algo que me anime a continuar a remar com bom ritmo:






Apoio à distância

Agradeço as palavras de apoio que tantos amigos e familiares têm transmitido ao vivo, telefónica, electrónica e telepaticamente. Obrigado!

Se quiserem acompanhar a prova sem esperar pelas minhas eventuais notícias, visitem as bulicenas no Domingo. Começo a correr às 9h40 da manhã, hora local (14h40 em Lisboa). Se as tecnologias funcionarem como esperado, as bulicenas serão actualizadas com os meus tempos de passagem a cada 5 kms, meia-maratona, milhas entre a 16 e a 26, e meta.

(Se falhar algum ponto, antes de ligarem para o 112, o 911 ou o +1-555-MARINES, pensem que pode ter sido simplesmente a falha de alguma tecnologia pelo caminho: o sistema de chip e respectivo detector que controla as minhas passagens, a comunicação entre esse detector e o sistema de informação que por sua vez está ligado a algum outro sistema que envia e-mails de aviso que são recebidos em algum servidor do google que por sua vez os publica nas bulicenas, às quais vocês acedem através de algum fornecedor de acesso à Internet – e com certeza tudo é muito mais complicado do que esta minha simplificação ignorante... Cheira-me que a probabilidade de alguma destas ligações falhar é bastante maior do que a de as minhas pernas, coração ou cabeça falharem.)

Se além da possibilidade de consultarem as bulicenas quiserem receber e-mails de aviso sobre o meu progresso na prova, podem inscrever-se aqui .

Podem ver os meus tempos planeados para Domingo aqui:





Não “orçamentei” velocidades diferentes nas subidas e descidas (uma sofisticação a adicionar numa próxima ocasião), mas tive em conta o facto de nunca nas quatro maratonas anteriores ter conseguido manter o mesmo ritmo nos quilómetros finais: nos primeiros 30 e poucos quilómetros tentarei manter um ritmo ligeiramente mais rápido que a média, esperando que o ritmo lento no final não me faça falhar o objectivo das 2h59'59”.


Curtir a corrida!

Estou ansioso por começar a correr. Há bastantes anos que não me sentia tão ansioso por começar uma competição (parece que vou para um campeonato do mundo de pentatlo!). Talvez porque há bastantes anos que não investia tanto numa prova? E que não me colocava um objectivo que me parece tão... desafiante?

Na minha primeira experiência aprendi a respeitar muito a “senhora maratona”. Sei que muita coisa pode acontecer que não me permita fazer o tempo desejado. Ou sequer concluir a prova! Acima de tudo, no Domingo quero curtir a corrida (“curtir 42km a correr??!?!”), o ambiente único desta maratona, os 39.000 atletas (juntos percorreremos o equivalente a 40 voltas à Terra!) com os seus desafios individuais, as suas emoções, as suas dificuldades e as suas vitórias, os dois milhões de espectadores a apoiar amigos e anónimos, as mais de 120 bandas a tocar estilos diferentes mas certamente com ritmos inspiradores, os amigos prontos a descarregar injecções de energia directamente na veia, as vistas de Staten Island, Brooklin, Queens, Manhattan, Bronx, Central Park... ah sim... aquela vista extasiante da meta no Central Park, que teima em não chegar!

domingo, 20 de janeiro de 2008

Maratona de Mumbai

Missão cumprida! Completei a maratona de Mumbai no tempo planeado: 3 horas e 20 minutos! Obrigado a todos pelo apoio virtual e/ou telepático!





Alguns leitores poderão perguntar-se (ou, pior ainda, perguntar-me): mas porque raios alguém corre uma maratona??! Boa pergunta... Nunca me coloquei essa pergunta, portanto não sinto necessidade de uma resposta. Corro porque sim e pronto. Pode ser que a tente responder um dia. Entretanto, fica aqui o relato desta loucura, sem perguntas, e ainda menos respostas, existenciais.

Fiquei em 63° entre 432 participantes. O vencedor, John Kelai (do Quénia, surpreendentemente), tinha vencido também em Singapura’2003, a última maratona em que eu tinha participado. Mas parece que ele tem treinado mais: baixou o tempo em 7 minutos, enquanto eu aumentei 5 minutos.

Podem ver os resultados completos em http://www.sport-timing.at/results/results_overview.php?Event_ID=1040.

Para quem gosta de números e estatísticas, na tabela abaixo podem ver os meus tempos de passagem. As três primeiras colunas (“planeado”) eram a minha previsão de hora de passagem em cada km, que passei a uns colegas que talvez aparecessem por lá. A coluna “real” tem os tempos executados – podem confirmar que foram todos dentro da previsão, inicialmente muito perto da média, e depois convergindo para o tempo máximo.




Tempos de passagem estimados vs. reais



E este gráfico mostra o meu ritmo de prova em cada fase: no eixo vertical está o tempo médio por km e no eixo horizontal a distância percorrida (por exemplo, nos primeiros 5 km corri a uma média de pouco menos de 4 min e 40 segundos por quilómetro). A barra cinzenta por trás do gráfico indica o meu objectivo: entre 4’30” e 4’45” por quilómetro. Podem ver que na primeira metade fui acelerando muito ligeiramente e que a partir do km 30 deixei de conseguir manter o ritmo abaixo dos 4’45”. Nos kms 35 e 36 nota-se bem o efeito da única subida do percurso (que maldade colocá-la ali!), e no km 37 a subsequente descida. E, finalmente, os penosos 5 kms finais, planos mas muito duros.


Tempos médios por km




Indianos, corridas e pernas

Constatei duas coisas importantes nesta prova:
1) Existem indianos que correm (mas não muitos)
2) Existem indianos que mostram as pernas (mas não muitos)

Durante os três meses que antecederam a maratona devo ter visto umas três pessoas a treinar corrida (vi algumas outras pessoas a correr por motivos diversos, como apanhar o comboio, mas não por desporto). É comum ver gente a caminhar como exercício físico, mas não a correr. Portanto eu estava um pouco céptico sobre os 30 mil participantes anunciados para o evento – não poderiam ser todos estrangeiros!

Rapidamente percebi que os 30 mil se dividiam em algo como 27 mil na mini-maratona (6 km), 2 mil na meia-maratona e 500 na maratona... Bastante mais provável.

E pude constatar que, em qualquer uma das três provas, muita gente a fez caminhando e não a correr! 6 km a andar ainda vá, deve dar 1 hora e meia ou assim. Mas 21km? E 42km??

Mas o que é facto é que, entre muitos caminhantes, vi também muitos indianos a correr. Na maratona havia bastantes estrangeiros, mas a maioria dos atletas era local. Afinal há (alguns) indianos que correm! E o vencedor da meia-maratona foi um indiano: há alguns indianos que correm bem!

Quando corro perto de casa, os homens por quem passo ficam descaradamente a olhar para as minhas pernas (mais descaradamente do que olham para as mulheres). Eu sou bastante distraído, portanto nunca teria reparado se não fosse mesmo tão óbvio. Possíveis explicações:


  1. Os meus calções (e não as pernas) chamam a atenção. Esta seria a explicação mais plausível se o fenómeno se verificasse apenas quando eu uso os meus calções vermelhos gastos (algumas pessoas acham que são cor-de-rosa), os mesmos que usei nesta maratona, e na maratona de Singapura há 4 anos, e em tantas outras corridas. Eram os calções da selecção de pentatlo moderno talvez em 1998?, portanto ainda só têm uns 10 anos (não, apesar do que alguns leitores poderão estar a pensar, não estou a precisar de uns calções novos). Não só estão gastos na cor como também no tecido, mas continuam a cumprir a sua função de tapar as partes privadas para não gerar pensamentos pecaminosos nem matar nenhuma velhinha de ataque cardíaco, enquanto me dão liberdade de movimentos para correr sem atritos e sem calor. Já verifiquei cientificamente que o fenómeno é independente dos calções utilizados, portanto não é esta a explicação.


  2. Os indianos nunca mostram as pernas, e portanto é interessante, exótico, talvez chocante, ver alguém que as mostra. Esta é a explicação mais provável, visto que aqui perto de casa vejo bastante gente nos seus exercícios matinais (caminhada), mas toda a gente usa calças (penso que já vi um ou dois homens de calções).


  3. As pernas dos indianos são diferentes: menos pêlos? mais escuras? Obviamente, nunca reparei, primeiro porque costumam andar tapadas, e segundo porque ainda não estou assim tão indianizado a ponto de ficar a olhar para as pernas do pessoal.


  4. Os indianos gostam de pernas de homens. Esta explicação é também possível. Afinal, eles têm o hábito de passear com outros indianos (também homens) segurando ternamente a mão um do outro, portanto não seria de admirar que gostassem de apreciar as pernas de outros homens.



Então e as mulheres não olham para as minhas pernas? É verdade, tenho de confessar que nunca flagrei nenhuma indiana a olhar para as minhas pernas. Podem imaginar em que estado está a minha auto-estima... Para não me deprimir muito, posso encontrar várias explicações:
a) As mulheres olham mas são discretas
b) Na verdade não encontro tantas mulheres assim quando corro
c) Corro demasiado rápido para elas poderem apreciar

Antes do arranque da maratona, vi passar atletas da meia-maratona (começou 1 hora antes) e quase toda a gente estava de calças. Que coisa desconfortável, correr 21 km de calças... Fiquei a pensar que nem em provas os indianos mostrariam as pernas... Fiquei mais descansado quando comecei a ver os maratonistas: finalmente, a maioria estava de calções! Afinal há (alguns) indianos que mostram as pernas!


A caminho da partida

São 7 da matina, o sol começa a regressar da sua volta ao mundo nocturna. Cá em baixo, nesta cidade que hoje é o centro do meu universo, procuro o caminho para a partida da maratona de Mumbai. Passo por vários corpos deitados no chão, totalmente envoltos em cobertores. Se algum corpo tiver sido abandonado pela respectiva alma vai demorar a ser descoberto, já que não é raro ver corpos por ali deitados ao longo do dia. Mas ainda é hora de dormir para muita gente, com casa e sem casa. E, apesar da música de batida poderosa que já vem da zona da corrida e do movimento de atletas e público, estes sem-abrigo dormem como se fosse um dia normal, se é que eles têm algum dia que se possa chamar normal.

Finalmente entendo por onde tenho de ir para me juntar aos restantes maratonistas. Quando dou por mim, estou a caminhar onde os atletas de elite fazem o seu aquecimento para a maratona: só vejo atletas de pele mais escura que o habitual mesmo na Índia, todos com números de prova de dois dígitos. Penso “e se eu ficasse aqui?” (sendo estrangeiro, apesar de cara-pálida, até poderia funcionar), mas continuo o meu caminho em direcção à partida do “povão”.

Junto-me aos restantes maratonistas não de elite e começo a olhar em volta. O número de atletas é reduzido, semelhante ao da minha primeira maratona, Lisboa em 2000. Poucos atletas significa que vou correr sozinho grande parte do percurso.

Estou certamente numa maratona diferente: alguns atletas de mochila, outros de calças, vários atletas descalços, outros com calçado totalmente inadequado para correr 42 km (ténis tipo all star, por exemplo). Que coragem! Ou loucura?

Pouca gente leva mantimentos para a prova. Fico a pensar quantos chegarão ao fim.


Partida

A partida foi dada quando o povão estava bloqueado por um grupo de soldados a uns 200 metros da largada. Nem sequer ouvimos o tiro de partida. Só percebemos que a maratona tinha começado quando os soldados saíram da nossa frente e nos deixaram correr. Então vimos que já não havia ninguém na largada. Foi nesse momento que desisti do objectivo de vencer a prova. Demorei cerca de 2 minutos desde o tiro de partida até passar na largada, por isso o meu tempo oficial é na verdade 3h22min, e o tempo “líquido” são as tais 3h20min (sim, concordo que os 2 minutos contariam se tivesse batido o recorde do mundo... mas não era essa a minha corrida, por isso deixem-me registar as 3h20min, vá lá).

Comecei a corrida calmamente, entrando logo no ritmo certo, por volta de 4’40” por quilómetro. Sabia que para fazer 3h20min (média de 4’45”/km) teria de correr ligeiramente mais rápido nos primeiros 30 kms, já que o “muro” dos kms finais é muito poderoso e me obrigaria a abrandar. Mas também sabia que não poderia ir mais rápido do que uns 4’30”/km, pois não estava treinado para essas velocidades.

O que é que alguém pensa quando começa uma maratona? Posso pensar muita coisa, mas algo que não me passa pela cabeça é que vou correr 42 km. Começo a maratona sabendo que vou passar bastante tempo a correr, mas não penso na brutalidade do esforço a completar. O importante é saber que estou preparado para completar a prova. Essa confiança vem dos meses anteriores de preparação disciplinada. Sei que treinei menos que para maratonas anteriores, e que estou em pior forma, mas por isso mesmo o meu objectivo é menos ambicioso.

Desde o início fui ultrapassando pessoal que tinha começado rápido demais e que ia abrandando. Na verdade, alguns nem sequer começaram rápido demais: havia pessoal a começar a maratona a andar! Imagino que pretendiam completar os 42 km sem correr... Estimei logo umas 8 horas na melhor das hipóteses. Os indianos gostam realmente muito de caminhar. Também na meia-maratona, que tinha partido 1 hora antes da maratona e que partilhava os primeiros 11 kms, havia centenas de pessoas a andar, com ar de quem não tinha corrido um único metro!

Logo no segundo quilómetro passa por mim um rapaz a sprintar loucamente, a ritmo que só dá para aguentar uns 200 metros. Pára pouco depois e continua a andar... Um minuto depois, passa por mim de novo em alta velocidade. “Louco... será que pretende fazer os 42 km assim??” Claro que nunca mais o vi.

Pouco depois do km 3, quando os atletas mais rápidos já passavam no outro sentido da marginal reparo num rapaz descalço a correr uns 30”/km mais rápido que eu, com todo o ar de quem vai aguentar o ritmo até ao fim. Espero que os pés tenham aguentado!

Nessa altura começamos a correr junto ao mar, à esquerda. Reparo que nos quilómetros seguintes a estrada continua na sombra. Óptimo, o sol vai demorar a aparecer e a temperatura vai continuar moderada. Tinha pensado que seria uma prova difícil com muito calor e humidade, mas nem está tão quente assim.

Por volta do km 7 reparo que outro atleta corre ao meu lado. Ele acelera um pouco e faz-me sinal para o acompanhar. Penso “vai lá tu à tua velocidade que eu estou muito bem na minha”. Ele acaba por resignar-se e fica ao meu lado novamente. Pergunta-me “what is your time?”. Eu “3h10min to 3h20min”. “Ah... that’s too fast”, responde. E eu, pensando que estávamos no ritmo certo para o meu tempo, pergunto “what’s your time?”. Ele responde “4h”. Quatro horas??! “You’re going too fast”, digo-lhe, “you should go 30” to 1’ slower per km!” Ele responde que já tentou ir mais devagar noutras provas mas que não resulta, então que prefere dar o máximo que conseguir até à meia volta (que seria no km 24, três kms depois do meio). Pensei que ele estava a precisar de um treinador mas não me voluntariei para o ajudar naquele momento... Fiquei feliz por ele quando uns dois ou três kms depois ficou para trás. Espero que tenha abrandado radicalmente.


Mantimentos

A partir do km 12, quando o pessoal da meia-maratona deixou de seguir no mesmo percurso, fiquei bastante sozinho. Até ao km 30 fui passando e sendo ultrapassado por um atleta indiano com ritmo parecido, mas ele acabou por abrandar mais nos derradeiros kms e terminou uns minutos depois de mim.

No km 14 (uma hora e pouco de prova) tomei o primeiro PowerGel. É basicamente um gel de açúcar (composto de água, maltodextrina, frutose, minerais e vitaminas) que ajuda a repor rapidamente alguma energia durante o exercício. Uma embalagem contém 108 kcal, uma pequena fracção do consumo energético de uma maratona, que deve ser algo próximo das 3000 kcal. O importante é ter energia para o cérebro funcionar. Na minha primeira maratona eu não sabia o que era isso do “muro” e aprendi da pior forma. Agora já detecto falta de energia mais facilmente – o primeiro sintoma é uma sensação de sono...




Primeiro PowerGel, km 14



Logo nos primeiros kms tinha reparado na boa qualidade do apoio aos atletas: água a cada 1 ou 2 kms, e alguns postos médicos mais espaçados. Peguei sempre numa garrafa de água desde a primeira oportunidade, inicialmente para despejar por cima da cabeça e aliviar o calor. Nos primeiros 15 kms ainda me esforcei por deitar as garrafas vazias em caixotes de lixo, mas a escassez de caixotes de lixo e o cansaço (a falta de açúcar começou a tornar difícil acertar no “cesto”) fez-me desistir. Passei a tentar pelo menos deitá-las para o chão perto de um dos assistentes da prova. Havia bastante gente a dar apoio, inclusive na limpeza, e estavam a fazer um muito bom serviço de deixar a rua limpa. Aliás, notei em geral que Mumbai estava bastante limpa – não sei se propositadamente para a maratona ou porque a campanha de civismo e limpeza da cidade (com cartazes por todo o lado) está a surtir efeito.

Depois do km 12 começaram a oferecer também uma bebida isotónica em alguns pontos de apoio, mas pareceu-me uma bebida pouco energética. Se eu não tivesse trazido os meus próprios mantimentos (quatro saquinhos de PowerGel) com certeza teria tido problemas em manter níveis de energia minimamente saudáveis até ao fim.


Paragem nas boxes

Antes da partida já sentia vontade de despejar uns líquidos... mas a única casa-de-banho que vi tinha uma fila razoável, e tenho reparado que as filas nas casas-de-banho indianas não avançam muito rapidamente (suspeito que isto de não usar papel higiénico não ajuda na velocidade). Decidi que provavelmente teria de fazer uma paragem nas boxes em algum momento da prova.

No km 10 tinha passado por uma casa-de-banho, mas também aí a fila era enorme porque o percurso ainda era partilhado com a meia-maratona. Tinha esperança de encontrar casas-de-banho na passagem à meia-maratona, mas nada. Resignei-me e comecei a pensar que teria de encontrar um lugar sossegado, descampado, longe de público, para aliviar a bexiga. Já bastava a dor normal de uma maratona, não precisava de uma sensação desagradável extra. O problema era que havia pessoas por todo o lado!

O povo saiu à rua para ver, aplaudir e incentivar os loucos que se aventuraram a correr os 42 km. Havia gente em quase cada metro de todos os 42.195 (na maratona de Lisboa só me lembro da minha família, o pessoal inebriado a sair da Kapital às nove da manhã, e poucas pessoas mais...). Infelizmente não contei com torcida de pessoal conhecido, mas a falta de açúcar no corpo em alguns momentos fez-me ouvir “Bora lá!!” e algum outro incentivo totalmente inverosímil.

Finalmente, por volta do km 23, pouco antes de dar meia-volta e começar o regresso em direcção à meta, vejo a minha ultima hipótese: uma marginal junto ao mar, tipo ciclovia Cascais-Guincho, com muito pouco público! Começo a reparar que quase não há público mas que há um polícia ou segurança a cada 50 ou 100 metros... Teve de ser ali: a uns 20 metros de um polícia, encosto à berma, junto a uma placa de um patrocinador da maratona para ficar mais discreto, e despejo os líquidos inúteis (praticamente só água, portanto não contribuí assim tanto para sujar a cidade). Gastei ali uns 20 segundos, mas foram muito bem investidos. Tinha de me começar a preparar para outras dores, e por isso tomei mais um PowerGel pouco depois do km 24.




Retorno, km 23




O muro

Até ao km 30 a corrida fez-se razoavelmente bem, e os meus tempos médios mostram que mantive um ritmo estável, até com ligeira aceleração, dentro dos meus objectivos. No km 33 voltei a sentir “sono” (ou seja, falta de gasolina) e decidi tomar o terceiro PowerGel. O ritmo estava a piorar, agora perto dos 4’50” por km e sabia que estava prestes a ter de enfrentar a única subida da prova (uma colina que já tinha subido e descido no sentido inverso, por volta do km 10).

O cérebro ainda permitia fazer alguns cálculos e pensei que mesmo que o ritmo piorasse para 5 minutos por km ainda conseguiria completar a prova em cerca de 3h18min – não seria difícil cumprir o meu objectivo!

A subida no km 35 foi o começo do fim da prova. Senti o ritmo a baixar bastante e o relógio confirmou: 5’18”. Foi o quilómetro mais lento de toda a maratona. Pensei que a descida subsequente me permitiria recuperar alguns segundos, mas as pernas começaram a ameaçar fazer greve e não fui assim tão rápido: o km 37 saiu em 4’45”. Pela primeira vez numa maratona senti que talvez fosse sofrer cãibras, como já vi tantos maratonistas sofrerem nos kms finais, mas felizmente não chegou a acontecer.

Cá está o muro: as minhas reservas de glicogénio estão em baixo, as pernas mudaram o combustível para gordura... Sinto-me meio apagado. Decido tomar o último PowerGel, para ajudar a manter-me minimamente lúcido nos 5 kms finais.

Nessa altura o percurso é plano e volto à estrada marginal, com o mar agora do meu lado direito. Tento focar os olhos (tarefa difícil devido à hipoglicemia) no percurso lá ao fundo onde tenho de virar à esquerda a caminho da meta. Parece muito mais longo do que 2 horas e meia antes! Quem é que colocou aqui estes kms a mais??

E está bem quente agora: o sol já vai alto e não resta nem um centímetro quadrado de sombra na estrada.

Também não restam muitos atletas. Estranho que ninguém me ultrapasse, agora que vou tão lento. Passo por um que teve de abrandar mais. Ele tenta acompanhar-me por um quilómetro mas acaba por desistir e andar. Ainda retoma a corrida e acelera para alcançar-me (“como é que este tipo ainda tem força para correr tão rápido?”), mas rapidamente desiste.

Talvez culpa em parte da hipoglicemia, mas tenho a sensação de que o público omnipresente desapareceu. Logo nestes kms pesados onde umas energias externas dariam tanto jeito!

Volto a fazer os meus cálculos mentais e concluo que terminarei a prova antes das 3h20min. Ok, não é tão mau assim, vamos lá.

Lembro-me do soldado de Maratona: porque é que ele tinha de correr 42 km?? Se ele tivesse corrido só 40 km talvez não tivesse morrido, e eu estaria a ver a meta neste momento! Mas se ele não tivesse morrido provavelmente ninguém teria inventado esta corrida...

Penso como seria bom descansar as pernas. Mas sei que andar não é uma opção, porque não me imagino a conseguir voltar a correr se parar neste momento. E então demorarei ainda mais a chegar à meta.

Claro que desistir também não é uma opção. Porquê? Porque não. Mesmo que me restasse algum juízo (que nesta altura já não resta), como é que poderia desistir a 3 kms do fim? Não é altura de responder a perguntas difíceis. É altura de me manter acordado, pernas a funcionar, focado na meta que há-de aparecer. Penso no momento de cruzar a meta e como será bom poder descansar as pernas. E comer alguma coisa!

Realmente a maratona é um desafio totalmente diferente de uma meia-maratona. Não é duas vezes mais, nem sequer 10 vezes. É muito mais. E eu ainda quero baixar das 3 horas numa maratona... Isso significa correr cada km em menos 30 segundos do que nesta maratona... tenho muito que treinar!

Passo por baixo de um viaduto onde lentamente avança uma multidão. Algumas pessoas carregam cartazes, mas não me peçam que os leia neste estado. Parece uma manifestação, mas ainda estou sóbrio o suficiente para perceber que é o pessoal que está a “correr” a mini-maratona.

Viro à esquerda junto à pizzaria onde jantei na véspera para me carregar de hidratos de carbono. Sei que devem faltar menos de 2 kms. Tento acelerar, mas as pernas já não obedecem. Têm vontade própria, mas felizmente decidiram ir até ao fim da maratona e não fazer greve antecipada.

Finalmente sou ultrapassado: passa um “europeu” (belga, segundo a lista de resultados), em ritmo ligeiramente mais rápido, com ar de pouco sofrimento. Tento acompanhá-lo mas é impossível. As pernas é que mandam.

A meta nunca mais chega, e há algum tempo que não vejo nenhuma placa a marcar os kms. Mas devo estar quase a chegar ao fim! Vejo uma placa meio escondida. Tem um zero à direita. Primeiro assusto-me, pensando que ainda é só o km 40. O cérebro demora dois segundos a lembrar que já passei pela placa do km 40. Penso então que deve ser uma placa de “faltam 100 metros” ou algo assim! Demasiado optimista: faltam 500 metros.

De novo tento acelerar, porque sei que começo a arriscar não cumprir o objectivo das 3h20min, mas de novo as pernas ignoram os meus pedidos.

Finalmente vejo a meta!! É já ali! Mas, antes, um último obstáculo a superar: um monte de gente atravessa o percurso de um lado para o outro. Decido ir pela esquerda, onde parece haver mais espaço, mas verifico que ali é a chegada da meia-maratona. Ainda consigo corrigir e passar para a direita, para cruzar a meta correcta. Um dos fiscais de prova olha para mim surpreendido porque não me tinha visto aproximar. Só faltava não registarem a minha chegada, depois de 3 horas, 20 minutos e 34 segundos de prova!

Passo a meta e paro o cronómetro. Já nem tenho forças para um gesto de vitória. Mas estou feliz. Missão cumprida.







Fotos da prova disponíveis em http://www.marathon-photos.com/marathon.html?job=Sports%2FCPUK%2F2008%20Sports%2FMumbai%20Marathon;match=1213

domingo, 26 de novembro de 2000

A Maratona e o Muro


(A minha primeira: Maratona de Lisboa, 26/11/00)

Tiro de partida.

Começo a correr, bastante bem colocado junto da linha de partida. Ainda assim, vão muitos atletas mais lentos à minha frente, que começo a ultrapassar correndo pelo passeio da Rua do Ouro.

Sinto-me solto e descontraído e penso: A que ritmo é que estarei a correr? Talvez uns 4’20” ou 4’30” por quilómetro...

Após a Praça do Comércio passamos pela placa do 1º km. Vejo a passagem no relógio: 3’42’’!!! Bom, ou este quilómetro foi curto ou eu estou cheio de pica... vamos ver o 2º km”

Sinto-me bem. O tempo não está mau: há uma chuva constante tipo spray e o vento não é muito forte.

Os pensamentos positivos, de satisfação pelo que estou a fazer, fazem-me sentir agradáveis descargas eléctricas ao longo da coluna vertebral, e de vez em quando fico com a pele de galinha.

As posições dos corredores começam a sedimentar-se e começam a formar-se grupos aos vários ritmos.

Passo o 2º km e o relógio marcou um split de 3’44”: Uou... segura os cavalos! Estou mesmo cheio de pica. A adrenalina faz maravilhas!. Tenho que abrandar. Afinal, recomendaram-me começar pelos 4’20”... Já só faltam 40 km, penso, brincalhão.

Concentro-me em desacelerar o andamento e o 3º km já vem a 3’52”. Está melhor... Mas tenho que entrar nos 4’/km, que isto não é andamento para mim.

Ao 4º foi de vez: 4’00”. Agora é só manter.

Este andamento parece extraordinariamente fácil e descontraído. Daí até ao 36º km mantive sempre o ritmo planeado: à volta dos 4’/km com ligeiras oscilações.

Pelos 5 km, o Pedro Pinheiro passa por mim: “Estás bem? Vais para quanto?”. Vai com o objectivo de 2h40’... Por isso, nem penso em arriscar acompanhá-lo: logo se vê se terei energias para andar mais rápido no fim.

Quase nos 7 km, ao pé do CCB, passo pelo João e pela Estela. A energia era muita e até dava para acenar com os braços a chamar-lhes a atenção. “Só faltam 35 km!”, grito, muito bem disposto.

Em Algés está o meu pai a apanhar chuva.

Dou a volta na recta do Dafundo e penso: 1/4 de maratona já lá vai...

Em sentido contrário vem um atleta vestido de Pai Natal. “Força, Pai Natal!”, grito a animá-lo.

Junto ao CCB, lá estão o João e a Estela, já acompanhados pelo Matus e pela Rita. Continua a boa disposição e até os aviso de que só passarei ali novamente uma hora depois.

Os quilómetros vão aparecendo rapidamente e a corrida está a passar-se muito bem.

Ao pé da FIL estão de novo o João e a Estela.

Passo aos 16 km. Já só faltam 26...

Em Santos estão a chegar o João e a Estela.

E entramos de novo na Praça do Comércio, Rossio, Rua do Ouro... Os atletas da meia-maratona seguem à direita para a Praça do Município. Os maratonistas seguem para mais uma volta.

Passo aos 21 km num tempo fantástico: 1h22’53”. Assim dava com certeza para baixar as 2h50’, e, quem sabe, fazer até perto das 2h45’! Até aqui não custou nada!
Nesta segunda volta o vento contra começa a sentir-se mais forte. Talvez seja apenas o maior cansaço...

No Cais do Sodré estão o João e a Estela outra vez. (Estão a esforçar-se imenso!) O João oferece-me abastecimento, mas prefiro tê-lo “lá ao fundo”, quando passar em Algés.

Pelos 23 km começo a sentir uma certa indisposição no estômago, que me leva a deixar de ingerir Isostar e a beber pouca água... Isto é parte da explicação para o que me aconteceu mais tarde.

Nessa altura arranjo um companheiro de corrida: calhou estarmos a correr à mesma velocidade e acompanhamo-nos lado a lado. Nem sei se lhe vi bem a cara, só sei que levava equipamento vermelho e que era um pouco mais velho, talvez na casa dos 40.

Por volta dos 26 km a indisposição é maior e começam a vir-me coisas à boca... Após bastantes convulsões, acabo por vomitar algum lastro, mantendo sempre o andamento dos 15 km/hora (nunca pensei que fosse possível)! Começo a sentir-me melhor. O meu colega de corrida não pareceu demasiado impressionado com tudo isto. Felizmente, não havia mais corredores por ali, e muito menos público.

Passo pela Rita e pelo Matus, junto ao CCB, mas já com menos energias para acenar.

A seguir vem Algés, e já tenho lá uma grande claque: pais e alguns outros familiares.

Logo a seguir, pelos 29 km, começo a sentir uma “dor de burro” intensa. Consigo manter o ritmo, graças também à referência do meu colega, mas é uma dor bastante incomodativa, que me obriga a levar a mão direita a pressionar o abdómen.

A dor só passa 2 ou 3 km depois, já após a viragem na recta do Dafundo (que me pareceu mais longe do que na primeira volta... mas era com certeza o factor cansaço a funcionar).

De novo em Algés, a sentir necessidade de fazer um esforço considerável por manter o ritmo. Agora o João e a Estela também se juntaram ao grupo. A Estela passa-me uma garrafa com a minha bebida de água, frutose e limão, mas não sou capaz de beber mais que um golezinho.

Começo a sentir as energias a depauperarem-se e a lembrar-me de que era suposto a maratona ser difícil. Pelos vistos estava a chegar a hora de sofrer. Esforço-me cada vez mais por manter o ritmo e tentar distrair-me para os quilómetros irem passando...

Passo pelo CCB e o grupo de apoio de Algés está mesmo a chegar, mas não tenho energias para mostrar que os vi. Passo pelo Matus e pela Rita e acho que ainda levantei a mão...

As pernas estão duras... e começo a sentir falta de energia no resto do corpo. Parece que todo o corpo está a trabalhar para as pernas. Os braços só têm energia para oscilar ao ritmo da corrida e o próprio cérebro parece começar a ficar em modo stand-by...

A partir dos 35 km já só penso na contagem decrescente a cada placa de sinalização da distância, ansioso por atravessar a meta e pôr-me a descansar. Essa imagem dá-me um pouco de alento, mas não me retira o imenso cansaço. Nessa altura penso onde é que param os arrepios de adrenalina, e percebo que me resta sofrer até à meta.

Após o abastecimento junto à estação da CP de Belém, perto dos 36 km, começo a descolar do meu companheiro. Não consigo manter o ritmo. Sinto o meu estilo de corrida a alterar-se, com dificuldades em levantar os joelhos.

Junto à FIL, o João e a Estela dão-me apoio de novo, mas as palavras de incentivo já não me conseguem pôr bem disposto, e de certeza que eles notam o sofrimento na minha cara. O João pergunta se preciso de boleia para casa e só consigo levantar o polegar da mão direita a tentar responder afirmativamente.

Passo os 37 km (4’16” – faltam 5...), os 38 (4’24” – faltam 4...), os 39 (4’48” – faltam 3...), e estou cada vez mais apagado... Sinto dificuldade em focar os olhos e já só mantenho o olho esquerdo aberto. O ritmo é cada vez mais lento, mas ainda parece dar para um tempo um pouco abaixo das 3 horas. (Aos 39 km registei 2h37’ no cronómetro.)

Chego à Praça do Comércio já meio zombie. Pouco metros percorridos, sinto-me desfalecer completamente, sem força nenhuma nas pernas. O cérebro ainda funciona o suficiente para levar as mãos à frente enquanto me aproximo do chão, e fico sentado no meio do alcatrão. Sinto-me como se estivesse num sonho, apenas semi-consciente.

Alguém se aproxima prontamente a ajudar-me. Pergunta-me se estou bem e ajuda-me a levantar. Penso que primeiro apareceu um rapaz e depois uma rapariga. Mantenho-me em pé e a andar, apoiado pela rapariga, enquanto o rapaz fala em chamar uma ambulância. Só penso na tristeza de acabar assim, de uma forma tão deprimente, sem chegar ao fim e metido dentro de uma ambulância. Penso em especial nas pessoas que me deram apoio, no terreno e à distância. Recordo-me de desejar que não estivesse ali ninguém meu conhecido, para não me verem naquele estado.

Querem que eu ande para trás, a caminho de onde virá o apoio. Chego a pensar que não tenho alternativa, mas insisto, com a pouca consciência que me resta, em que estou perto da meta e posso acabar a andar... A rapariga condescende (não sei como é que se deixou convencer por um atleta inconsciente!) e ajuda-me a caminhar na direcção da meta.

Entretanto acho que me deram uma lata de Isostar. Não, era uma daquelas embalagens de meio litro de uma outra qualquer bebida “desportiva”, tipo Gatorade ou qualquer coisa assim (não me lembro de ver a embalagem, só de a ter nas mãos e de a apertar para beber até ao fim).

Passados talvez 200 metros (mas quem é que ainda confia na minha noção de espaço-tempo nesta altura?), ela pergunta-me se estou melhor e se já consigo andar sozinho. Apesar de me sentir horrivelmente, claro que respondi que estava melhor e que seguiria por mim – nem pensar em desistir, e tinha que a convencer de que estava mais ou menos, para ela me deixar continuar!

Sigo então para a Rua da Prata, sem ver metade do ambiente envolvente, com toda a minha energia aplicada no reconhecimento mínimo do percurso e numa marcha desequilibrada mas (acho eu!) com algum ritmo. Lembro-me de olhar para o meu cronómetro a marcar 2h50’ e pensar que talvez ainda desse para baixar as 3 horas. Faço a Rua da Prata, passo pelo Rossio e começo a descer a Rua do Ouro. Entretanto vi o relógio a marcar 2h59’: lá se foram as 3 horas....

A certa altura, alguém, vendo o meu estado, dá uns gritos de incentivo dizendo que faltam poucos metros. Eu entusiasmo-me e começo a correr (suponho que devagarinho) totalmente desengonçado.

Lembro-me de virar à direita para a Praça do Município.

Não me lembro de cruzar a meta. Desde a Praça do Comércio até aqui parece que foi tudo um sonho. Procurando nos confins da memória, recordo-me, de facto, de ter chocado com umas grades e umas fitas: suponho que era a zona após a meta...

O sonho acabou quando sinto alguém ao pé de mim a ver como estou. Oiço falar em fazerem-me um teste qualquer e suponho que me picam para medir a minha glicemia. Diagnóstico: hipoglicemia. Ouvi falar num valor de “46” e alguém a dizer “Este é dos duros...”. Não percebo se me estão a chamar “burro” por não ter parado ou se acham que fui forte por ter aguentado o esforço...

Pedem-me para dar o braço para me espetarem uma agulha. Pergunto: “É para meter ou para tirar?”. Respondem-me que me vão injectar “açúcar”.

Alguém me pergunta o nome. “Lá estão estes tipos a testar como estou”, penso. Lá consegui dizer e repetir o meu nome.

Pergunto se cheguei a acabar a maratona. Respondem que não sabem. Olho para o relógio e vejo que o cronómetro vai nas 3h12’. Isso significa que não estou ali há assim tanto tempo e que se cheguei à meta fiz pouco mais de 3 horas...

Começo a perceber melhor onde estou. Estou deitado numa marquesa, dentro de uma tenda branca. Consigo levantar a cabeça e vejo a minha mãe e a prima Luísa a olharem para mim. Assim que fui capaz mostrei-lhes um sorriso, a ver se ficavam mais descansadas.

Dão-me uma lata de Isostar, que bebo rapidamente.

Começo a sentir o corpo todo e as capacidades mentais a voltarem ao activo.

Vejo que me retiraram o destacável do peitoral, o que indica que cheguei à meta. Vá lá...



Sinto as pernas duríssimas, com os músculos altamente contraídos e doridos.

A medo, testando as minhas capacidades, sento-me na marquesa. A doutora vem falar comigo, dizendo que o meu organismo tem tendência a baixar muito os níveis de glicose no sangue, e que não estou preparado para aqueles esforços. O meu fígado não consegue acompanhar as necessidades energéticas... Recomenda-me ir para casa almoçar massa, beber muitos líquidos e descansar. Oferece-me uma laranja, que consigo descascar e comer.

Então, achei que já estava capaz de me levantar e pedi licença para ir para casa.
Lá fui ter com a famelga, a quem agradeci o apoio e pedi desculpa por acabar naquele estado.

Ao que parece, o meu tempo final foi de 3h03’. Pelos vistos demorei 26 minutos nos últimos 3 quilómetros...

O balanço é positivo: conheci novos limites do meu corpo, e finalmente percebi que o “muro” existe mesmo! Como estava meio inconsciente, olhando para trás, o sofrimento não foi assim tão grande. Custou mais tentar manter o ritmo entre os quilómetros 34 e 39... Provavelmente deveria ter abrandado um bocado a partir dos 32... O meu problema foi alguma dose de inconsciência que me levou a não respeitar devidamente a “senhora” maratona...

A próxima vai ser melhor: mais treinos longos em cima, o organismo mais adaptado a guardar reservas energéticas... E, então sim, para as 2h50’.

Já comecei a “meter quilómetros” para a Maratona de Madrid, a 29 de Abril!