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sábado, 14 de março de 2009

Walking the talk on governance

[Contexto: O Comité Olímpico Internacional organizou nos últimos meses um Congresso Olímpico Virtual, em preparação para o Congresso Olímpico que se realizará em Copenhaga em Outubro de 2009 (o último Congresso Olímpico aconteceu em Paris em 1994, portanto não é um evento muito frequente). No congresso virtual eram pedidas contribuições do público em geral para discutir vários temas propostos. Contribuí com o texto abaixo, no tópico "The Structure of the Olympic Movement - Good governance and ethics".]




The International Olympic Committee (IOC) has invested significantly in promoting and demanding good governance in national sport systems across the globe, in particular after political crises leading to the disruption of established government and sport institutions: for instance, in Timor-Leste after its independence, in Afghanistan after the fall of the Taliban regime, in Iraq after Saddam Hussein's overthrow. The IOC requires officially recognised National Olympic Committees (NOCs) to function democratically, governed by adequate constitutions, making key decisions in valid general assemblies, ruled by properly elected individuals. In each country, Olympic sports are typically organised in a pyramidal structure: in its base are athletes, who are members of clubs, which in turn are members of federations (or sometimes regional associations), which in turn are members of NOCs. Members of each organisation are present in general assemblies and have the power to elect the organisation's leaders and make key decisions such as approving annual plans and annual reports.

Oddly enough, members of the IOC are still natural persons, a majority of them whose membership is not linked to any function or office. This means that most members of the IOC, who make critical decisions for the whole Olympic Movement in Sessions, do not represent anyone else than themselves. The 1999 reform brought very positive (but still marginal) improvements to IOC governance, by establishing terms and age limits to members, and opening membership to athletes and leaders of NOCs, International Federations (IFs) or other organisations recognised by the IOC. However, a more radical change is required to bring the IOC up to date as a 21st century organisation.

It is not difficult to envision a better model. What does the IOC require from the sport organisations it recognises? Would it ever recognise an NOC whose members were individuals representing themselves? How would one expect the IOC to be constituted if it was to be created from scratch now? Probably through the association of world NOCs and IFs, which would become the members of the Session, represented by their leaders, and would elect IOC leaders and make all key decisions.

The challenge to surpass powerful conflicts of interests is significant: why would current IOC members decide to make themselves ineligible? But change is necessary and urgent: the early 20th century model* of a private club whose members elect new members and make critical decisions cannot ensure the fairness, transparency, and accountability that the global Olympic Movement demands and deserves. Perhaps current members won't take the initiative in driving change, but they may be sure that Olympic stakeholders (athletes, coaches, referees, sport managers, clubs, federations, NOCs, IFs, the public, sponsors, the media, etc.) will increasingly demand it and soon make it inevitable.

Let the change begin!


*Mais precisamente, o Comité Olímpico Internacional foi fundado em 1894, portanto ainda no século XIX

domingo, 1 de março de 2009

Meio Ironman do Porto Santo

Completei o meu primeiro triatlo longo, na distância “1/2 Ironman”! (Isso deve fazer de mim um homem de... ferrugem, talvez?)

Foram 1,9 km de natação (31min), 90 km de ciclismo (3h11min) e uma meia-maratona (21,1 km em 1h33min), totalizando 113 km em 5h16min. Fui 24º entre 65 atletas que iniciaram o I Triatlo Longo do Porto Santo (resultados completos aqui).





Tinha esperança de completar a prova em menos de 5h e 1/2, mas não estava seguro de o conseguir, dada a novidade da distância – o objectivo básico era conseguir chegar ao fim. Claro que foi duro, mas não tanto quanto esperava (claramente menos agressivo que uma maratona). Surpreendentemente, mantive quase sempre óptimos níveis de energia e muito boa disposição (evidente nas fotos). Poucos estragos, recuperação rápida. Experiência certamente a repetir.

Para os mais distraídos, chamo a atenção para o facto de esta prova ser “apenas” 50% do famoso Ironman. O completo e verdadeiro Ironman (3,8 km natação + 180 km ciclismo + maratona), esse sim, é uma insanidade completa. Por isso, pais, estejam descansados: não será ainda em 2009.

A prova (campeonato nacional de triatlo longo e primeira etapa da taça ibérica de triatlo longo) foi ganha pelo Bruno Pais (17º nos Jogos Olímpicos de Pequim) em masculinos e pela Maria Areosa em femininos. Para mais informações, vejam a notícia no site da Associação Regional de Triatlo da Madeira e o vídeo da RTP Madeira.


Preparação

Tenho de admitir que abordei este desafio com alguma leviandade. Só decidi participar na prova um mês antes. Tendo em conta que estava em boa forma na corrida (tinha feito uma meia-maratona no Central Park no dia 25/Jan em 1h25min, cujo maior desafio tinham sido os -10ºC, e estava capaz de correr mais de 2 horas sem dificuldade) mas que não estava a treinar natação nem ciclismo, havia muito a fazer para chegar ao dia 1 de Março capaz de completar o triatlo.

Já a pensar em futuros desafios, decidi comprar uma bicicleta de estrada. Acabei por comprar uma óptima bicicleta num leilão do eBay, em segunda mão mas em muito bom estado. Espero que dure por muitos anos. O exagerado frio nova-iorquino obrigou-me a esperar chegar a Portugal para poder começar a usá-la. Nos EUA comecei a fazer treinos de 30 a 60min em bicicleta estática no ginásio e quando cheguei a Portugal faltavam três semanas para a prova, o que me dava duas semanas para treinar e uma para descansar. Nessas duas semanas dei prioridade total ao treino de ciclismo, fazendo um treino longo (2 a 3,5 horas, 50 a 90 km) cada dois dias. Fiz em duas semanas os treinos longos que idealmente teria feito em oito semanas! O dia de descanso entre treinos permitiu-me recuperar bem e senti a forma física e a auto-confiança a aumentar. Uma semana antes da prova estava confiante de que chegaria ao fim, sem importar o tempo final.

A natação é um passeio para quem, como eu, sabe nadar e não tem pretensões de vencer triatlos. Ainda nos EUA treinei durante uma semana, aproveitando um “free trial” de uma semana num ginásio que tinha piscina, e em Portugal fiz mais sete treinos até à prova.

Entretanto, o cansaço nas pernas e a falta de tempo produzidas pelos treinos de ciclismo levaram-me a treinar muito pouca corrida, o que se revelou uma boa estratégia visto que fiz um bom tempo na corrida deste triatlo (12º melhor tempo).

No total, ignorando a corrida (que tenho treinado em continuidade há vários meses), em um mês investi cerca de 30 horas (uns 750 km) de ciclismo e umas 12 horas (35 km) de natação para preparar este triatlo. Até foi uma preparação económica, mas deu para perceber o grande desafio de encontrar tempo para treinar para um Ironman – um desafio diferente mas talvez superior ao de completar o Ironman.


Véspera

Na semana antes da prova fiz treinos bastante leves (mais curtos, com alguns exercícios de velocidade) e não treinei na véspera e antevéspera. Ainda ponderei ir fazer o reconhecimento do percurso de ciclismo no sábado, mas acabei por optar pelo descanso e pela surpresa de descobrir o percurso durante a prova. Também ponderei ir dar umas braçadas no mar, no percurso de natação, até para experimentar o fato isotérmico (emprestado, que só tinha vestido em casa), mas concluí que era indiferente se me adaptava bem ao fato ou não, já que a água estava fria e não tinha alternativa.

Entretanto, à minha volta via muitos triatletas hiperactivos, entre ajustes nas bicicletas, volta ao percurso de ciclismo, braçadas no mar, treinos leves de corrida... Fiquei a pensar se me estava a falhar alguma coisa que deveria estar a fazer! Acabei por não ficar totalmente parado porque fui passear de bicicleta com os meus amigos, para ver um bocado da ilha.


Dia da prova

Acordei pelas cinco da manhã com barulho de vozes altas e risadas junto à piscina do hotel. “Estes triatletas são loucos! Já estão acordados e hiperactivos a esta hora?? Mas o pequeno-almoço só começa às seis!” Tapei os ouvidos com a almofada e dormi até perto das seis. Afinal fui um dos primeiros a descer para o pequeno-almoço. Um grupo de ébrios não-atletas entrou para o pequeno-almoço e fiquei mais descansado ao perceber que tinham sido eles os responsáveis pelo barulho de madrugada. Segundo outros atletas, o barulho tinha começado antes das duas da manhã!

Até à prova dediquei-me a garantir que a barriga e intestinos estavam vazios. Pelas 8h30 tomei um PowerGel e um café e fiz a última visita à casa de banho. Fiz um curto aquecimento em corrida lenta e dei umas braçadas já dentro do fato isotérmico. Senti-me flutuar bastante – parecia que ia em cima de uma prancha de surf e que só precisava de remar para avançar. A temperatura da água do mar rondava os 18ºC – fresquinha mas suportável com o fato.



foto: Pedro Monteiro



Enquanto esperávamos o sinal de partida na praia sentia-me descontraído, bem disposto, com energia. O cenário estava bonito: tinha caído uma triste chuva fria que teve a decência de parar para o início da prova, e havia agora um contraste espectacular entre as nuvens cinzentas e os raios de sol matinais projectados sobre os 65 loucos que se preparavam para percorrer 1,9 km a nado, 90 km a pedalar e 21,1 km a correr.


Natação

Tiro de partida! Corremos para o mar e saltamos a pequena rebentação para começar a nadar. Eu parti um pouco à direita e logo nas primeiras braçadas reparei em algo estranho: não ia ninguém à minha frente, só via um atleta à minha direita.



foto: Miguel Carvalho



Rapidamente descartei a possibilidade de ser o líder da prova. Respirei para o lado esquerdo (costumo respirar para o lado direito e não tenho a respiração bilateral bem treinada) e vi que o pelotão estava uns bons metros à minha esquerda, com alguns atletas bastante mais avançados. Comecei a chegar-me para a esquerda, reparando que eles estavam a seguir um trajecto mais curto e pensando que era boa ideia encontrar um grupo onde pudesse aproveitar o “vácuo” de outros atletas. Já só me juntei a outros atletas na bóia em que virávamos à direita, a 350 metros da praia (o percurso era marcado por quatro bóias formando um quadrado de 200 metros de lado, a primeira situada a 150 metros da praia, portanto os 1.900 metros de prova eram formados por 150 metros da praia ao quadrado + 2 voltas ao quadrado de 4x200 metros + 150 metros de volta à praia).

A minha respiração estabilizou, tinha entrado num ritmo potente mas que sentia que poderia manter por bastante tempo (idealmente durante 1.900 metros). Não me sentia muito eficiente e achava que o fato isotérmico prendia um pouco a rotação dos ombros e por isso alterava o meu estilo, que normalmente já não é o mais económico. Mas sentia-me a avançar bem, ajudado pela flutuação extra proporcionada pelo fato. Fui tentando seguir atletas próximos mas por vezes avançava sozinho, quando me parecia que eles andavam aos ziguezagues em vez de seguirem em linha recta para a bóia seguinte.

As bóias, que marcavam mais 200 metros percorridos, vinham bastante depressa. Ao iniciar a segunda volta ao quadrado de 4x200 metros senti que a prova estava sob controlo, que ia em bom ritmo que conseguiria manter até ao fim. Não me pareceu que valesse a pena acelerar – poderia ter feito talvez um minuto menos, mas começaria o ciclismo mais cansado e facilmente perderia esse minuto.

Deixei de reparar tanto no esforço e na navegação e comecei a apreciar mais a situação. O céu estava cinzento mas bonito. Por vezes atingiam-me agradáveis raios de sol vindos do horizonte. O mar estava calmíssimo, quase uma piscina. Não se sentiam correntes. A água parecia limpíssima, transparente. O único sabor era a sal. A temperatura ameaçava congelar as mãos e os pés, mas não passava da ameaça. Os sons eram os do impacto de braços e pernas na água.

Nos 200 metros antes de virar para a praia pensei no que se seguiria: transição, tirar o fato, pôr o capacete, sapatos de ciclismo e luvas e iniciar os 90 km de bicicleta. Ao virar para os últimos 150 metros até à praia os atletas que iam comigo aceleraram. Eu achei que não valia a pena terminar com o coração mais acelerado para poupar uns segundos e mantive o ritmo.



foto: Miguel Carvalho



Ao levantar-me já na areia e começar a correr em direcção ao parque de transição olhei para o relógio e vi 31 minutos! Natação super-rápida, provavelmente graças ao fato (esperava fazer 35 ou 36min). Óptimo! Passei então à tarefa de tentar abrir o fecho do fato enquanto corria. A transição acabou por ser relativamente lenta, mas tinha decidido que não me ia preocupar demasiado com as transições: que importa mais um minuto numa prova de mais de cinco horas?


Ciclismo

A principal sensação no início do ciclismo foi de frio! Tinha recomeçado a chuviscar, o sol estava coberto, e a diminuta roupa não me protegia do vento frio, inevitável ao deslocar-me a 30 km/h na bicicleta. Arrependi-me de não ter levado roupa mais quente para o ciclismo e pensei que iria sofrer bastante nas três horas seguintes. Mas não havia nada a fazer.

A primeira das quatro voltas de 22,5 km (4x22,5 = 90 km) foi marcada pelo frio. Fiquei feliz com o ritmo: mantive uma média próxima dos 30 km/h (45min por volta), coerente com o meu objectivo de cumprir os 90 km/h em cerca de três horas. Fui passado por alguns atletas e só passei um ou dois. Reparei que os 65 participantes iam bastante espaçados no percurso, o que facilitava o cumprimento da regra de fazermos uma prova individual, sendo proibido aproveitar o vácuo de outro atleta.

O percurso não era plano mas era, de acordo com os triatletas mais experientes, bastante rápido. Havia algum vento, mas não muito forte. A minha velocidade instantânea variava entre uns 18 km/h nas subidas mais íngremes e 58 km/h na descida mais rápida. Era uma descida longa que terminava numa rotunda. A rotunda era pequena, por isso dava para não travar ao entrar nela, fazer uma tangente ao círculo central e sair disparado em frente. Como o trânsito nas estradas da prova não estava sob controlo, ao descer olhava sempre com atenção para verificar que não apareceria nenhum carro à minha frente – àquela velocidade seria impossível parar. O trânsito era bastante intenso, ao contrário do que a organização tinha anunciado e seria desejável. Só fui obrigado a travar uma vez, num cruzamento mais complicado, mas várias vezes tive de respirar gases de tubos de escape e senti alguma insegurança. Fiquei a pensar se este tipo de situação seria normal em provas de triatlo, mas pela reacção indignada de vários atletas percebi que não.

Senti algumas oscilações de energia ao longo do ciclismo, mas pareceu-me que o meu plano de alimentação funcionou bem: um PowerGel na segunda metade de cada volta e uma barra de amendoins no início de cada volta após a primeira. Cerca de 1.000 kcal ingeridas durante o ciclismo. Os amigos por quem passava três ou quatro vezes em cada volta ajudavam a distrair-me e a manter-me animado.



foto: Miguel Carvalho



Mantive o ritmo próximo dos 30 km/h nas primeiras duas voltas. Na terceira, sentindo uma pressão cada vez maior na bexiga, decidi encostar às boxes por volta do km 48 (num espaço entre dois arbustos, mais isolado) e despejar bastante água, talvez meio litro (suspeito que consequência do café e de alguma cafeína presente em alguns dos PowerGel que tomei). Peço desculpa por eventuais ofensas às duas senhoras que passaram do outro lado da estrada nesse momento delicado. Que alívio! Que bem-estar! Não tenho dúvidas de que o investimento de tempo valeu a pena. Nessa paragem fui passado por um atleta que rapidamente ultrapassei ao voltar à prova com novas energias. A terceira volta acabou por ser uns dois minutos mais lenta, não só pela paragem mas provavelmente também por algum cansaço.

Entretanto, fui passando por vários atletas parados com pneus furados (provavelmente consequência dos buracos na estrada em parte do percurso). Vi alguns a trocar o pneu mas reparei em muitos a desistir. Pensei na frustração que estariam a sentir e agradeci não me ter acontecido nada. Também passei por um atleta ferido que estava a ser tratado após uma queda - soube depois que tinha sido numa interacção infeliz com um carro.

Na última volta voltei a sentir a bexiga cheia. “Será possível??” Considerei a possibilidade de me aguentar até ao fim da prova, mas correr uma meia-maratona com a bexiga cheia não me pareceu viável e acabei por fazer uma nova paragem nas boxes. Desta vez passaram dois miúdos por mim – desculpem lá o mau exemplo! De novo um grande alívio e novas energias para os últimos 18 km. (Não sei se é normal em provas deste tipo, mas parece-me básico disponibilizar umas casas-de-banho portáteis em algum ponto – por exemplo ali perto do início de cada volta do ciclismo e da corrida – para os atletas se poderem aliviar em condições menos chocantes para a população.) Decidi relaxar ligeiramente nos últimos quilómetros, para chegar à corrida o menos cansado possível. Acabei por terminar o ciclismo em um pouco mais de 3 horas (3h11min, incluindo os tempos nas duas transições), a uma média de 29 km/h. Óptimo!


Corrida

Tinham passado 3h43min de prova quando iniciei a meia-maratona. Mesmo que fizesse uma corrida lenta, a 12 km/h (1h45min), conseguiria terminar em menos de 5h30min! Fiquei animado, mas sabia que poderia acontecer muita coisa naqueles 21 km e nada era garantido.

Como de costume depois de pedalar, comecei a correr sem sentir as pernas. Entrei em “piloto automático”, sem noção nem controlo sobre a velocidade a que ia, esperando que fosse a habitual, próxima dos 4min15s por km. Cruzei-me com o Bruno Pais, o vencedor, que vinha provavelmente na sua volta final, com ar bastante relaxado, e com outros atletas da frente da prova.

O percurso de corrida era, tal como o de ciclismo, um pouco monótono: quatro voltas de ida-e-volta (cada uma de 5,25 km) entre o centro do Porto Santo e o porto de abrigo, significando que passávamos oito vezes por cada ponto. As vantagens de um percurso deste tipo são que é mais simples colocar pontos de abastecimento frequentes (a cada 2,6 km, nesta prova), passamos mais vezes pelo mesmo público (além de familiares e amigos, não havia muito mais gente a assistir à prova) e é mais fácil notar o progresso no percurso. Outra consequência é que nos cruzamos um monte de vezes com os outros atletas em prova. Eu ia olhando para eles e dizia “Força” e outras palavras de incentivo, ou simplesmente levantava o polegar. Parecia que estava a tentar ganhar o Prémio Simpatia da prova. Alguns respondiam, outros não (é mais simpático quando respondem, mas entendo perfeitamente quem não responde!). Alguns pareciam autênticos zombies, alheios ao que se passava à volta deles, fazendo-me sentir ainda mais agradecido pelo meu estado lúcido.



foto: Miguel Carvalho



Completei a primeira volta em 22min30s – exactamente o meu ritmo mais optimista (daria 1h30min na meia-maratona). Na segunda volta comecei a sentir as pernas. Sentia-me cansado, mas começava a conseguir correr mais solto, mais relaxado. Ia passando bastantes atletas, o que é sempre animador (mesmo que eles já me levassem uma volta de avanço ou uma volta de atraso e portanto não afectassem a minha classificação final). De novo comecei a sentir a bexiga, mas fui atrasando nova paragem nas boxes até concluir que conseguiria esperar pelo fim da prova. Mantive o ritmo e passei em um pouco mais de 45min aos 10,5 km.





Segundo amigos e outros atletas, nesse momento, a meio da corrida, aumentei a velocidade. O meu relógio diz que não, que mantive sempre mais ou menos o mesmo ritmo. Mas notei altos e baixos de energia que provavelmente se traduziam em oscilações na velocidade. Pelo menos senti-me a correr melhor, mais solto. Nas últimas duas voltas, com medo de que me faltasse o combustível, decidi tomar mais um gel em cada uma. Sentia-me forte, em bom estado, mas sabia que em poucos minutos poderia apagar-me. Nada estava garantido.


Balanço

Ao fazer o último retorno no porto de abrigo observei que faltavam pouco mais de 10 minutos para completar a prova e finalmente senti confiança em que conseguiria chegar ao fim em bom ritmo. As pernas estavam cansadas e começava a sentir alguma dificuldade nas ligeiras subidas do percurso, mas eram só mais 10 minutos! Comecei a avaliar a experiência. Afinal, 1/2 Ironman é duro mas não tão louco assim (pelo menos para insanos como eu e os outros participantes). Talvez pudesse ter apertado um pouco mais na natação (para ganhar 1 minuto e ficar bastante mais cansado?) e no ciclismo (para ganhar 5 ou 10min e depois não conseguir correr?) – é muito fácil dizer “se” depois das coisas acontecerem. Com certeza repetirei a experiência, mas pensarei duas vezes antes de o fazer. Com a experiência vem uma melhor noção das minhas capacidades, dos meus limites, das estratégias que funcionam melhor (treinar mais, por exemplo, não deve ser má ideia), e com certeza poderei baixar uns minutos. E o Ironman completo? Claramente uma loucura... preciso de mais uns meses para passar a outro patamar de insanidade. A companhia dos outros insanos nesta prova ajudou (ou não, diriam os meus pais): começou a parecer-me que fazer um Ironman até é uma coisa relativamente normal...


Agradecimentos

Nos 500 metros finais, já na última recta antes de virar para a meta, tornei-me um receptor de energia cósmica. Convergiam em mim boas energias de todo o universo, provocando descargas eléctricas pela espinha dorsal. Agradeci ao Todo e a todos pela fantástica experiência daquelas 5 horas e tal:

Adelino: por ter lançado o desafio, pelo apoio logístico, pelas aulas de manutenção de bicicleta, pelos passeios na Madeira e Porto Santo

Alda, Miguel, Carolina e Eunice: pelo apoio, pelas reportagens fotográficas e vídeo, por me terem adoptado como mais um sobrinho/primo

Ana e Pedro: pelo estímulo para que me animasse a participar, pela organização, companhia, apoio ao vivo, reportagem fotográfica

João: pelas exaustivas consultorias ciclísticas e generosos patrocínios de equipamento

Triatletas insanos: pela companhia nesta maluquice, incentivo e inspiração (especialmente os mais “experientes” na vida - quem me dera estar nessa forma daqui a 20 ou 30 anos!)

Público: por terem aparecido e por se terem manifestado, com palavras e aplausos

Organizadores: por porem a prova de pé, pelo apoio na logística

Todos os que enviaram apoio e boas energias


Meta

Ao aproximar-me da meta passei pelo Artur Parreira, da Federação de Triatlo, que se pôs a procurar o meu nome na lista de participantes, para poder anunciar a chegada. Eu ia tão lúcido e com tanta energia que lhe gritei o meu nome enquanto iniciava a ligeira subida para a meta. Até fechei o fato como os pros, para ficar mais apresentável para as fotos finais. Cruzei a meta cansado mas a sentir-me fresquíssimo, aparentemente capaz de correr mais uns quilómetros! Super bem disposto, a radiar energia. E também muito feliz por poder comer qualquer coisinha sólida!



foto: Pedro Monteiro

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Inspiração

Às vezes temos momentos difíceis. Parece que nada nos corre bem. Que não somos capazes de cumprir os nossos objectivos. Ficamos tristes, frustrados. Até começamos a acreditar que certos objectivos são simplesmente impossíveis. Humanamente inalcançáveis. Que o nosso corpo, mente, coração ou alma nos limitam e não nos proporcionam as capacidades necessárias para chegar lá. Ou, quando o nosso ego é mais forte, facilmente encontramos explicações exteriores, somos muito criativos a gerar desculpas: não tive sorte, o vento estava contra, o exame era absurdamente difícil, “eles” não fizeram o que lhes competia...

A inspiração certa pode ajudar a superar estes momentos. Podemos encontrar inspiração em nós próprios, visualizando situações anteriores em que nos conseguimos superar e obtivemos sucesso, talvez até para nossa própria surpresa. Ou inspiração em pessoas próximas: um familiar, um amigo, um professor, um colega que parece sempre conseguir chegar aos seus objectivos, dos mais básicos aos mais ambiciosos. Ou em figuras públicas, históricas ou actuais, reais ou fictícias. O importante é descobrir como converter momentos difíceis em força e sucesso.

Talvez não seja assim tão impossível ficarmos mais fortes e chegarmos mais alto e mais longe. Afinal, a maioria de nós tem duas pernas, dois braços, dois olhos, um cérebro e um coração – tudo a funcionar razoavelmente. E mesmo que nem tudo funcione não quer dizer que não consigamos chegar lá. Na ParalympicSport.TV (também no Youtube) podemos encontrar bons exemplos de pessoas que se superam apesar de nem tudo funcionar perfeitamente, como o paraolímpico português Carlos Lopes, com quem me cruzei tantas vezes enquanto corríamos no Estádio Universitário:



domingo, 2 de novembro de 2008

Maratona de Nova Iorque

Missão cumprida! Terminei a maratona de Nova Iorque em 2h57'51”!! Fui 802º entre os 38.096 atletas que terminaram a prova em menos de 10 horas (resultados completos aqui).


Em milhas é mais fácil!

Esta foi, sem dúvida, a mais fácil das minhas cinco maratonas até ao momento. Na melhor forma de sempre (para maratonas), com baixas temperaturas e muito apoio, tudo fica mais fácil: parece que a distância é reduzida, e o sofrimento também.

(Nota: Podem consultar o percurso da maratona aqui)



Foto: brightroom



Já em cima da ponte Verrazano-Narrows (Staten Island-Brooklin), onde seria dada a partida, sentia-me preparadíssimo para a maratona. Treinos excelentes nos meses anteriores, com qualidade, sem lesões, recuperação rápida de treino para treino. Sem quaisquer dores ou cansaço no corpo (pés, pernas, joelhos...), bem dormido. Boa alimentação (hidratos de carbono!) nas vésperas e no próprio dia. Desperdícios líquidos e sólidos libertados. Café uma hora antes da partida, porque consta que promove a queima de gorduras, poupando valioso glicogénio. (Aha! Afinal não estou livre de drogas! Ok, ok, confesso que este ano devo ter tomado uma meia dúzia de cafés, todos por razões desportivas...) Corpo quente, graças às calças e casaco comprados no Salvation Army (US$4 pelas calças, US$5 pelo casaco!, para os poder deixar na partida no último minuto) e ao aquecimento de 10 minutos em corrida lenta. Dia espectacular: céu azul, quase limpo de nuvens, frio mas não gelado (entre 5 e 10ºC). Adrenalina em cima. Venham as 26 milhas!




Roupa do Salvation Army



Tiro de partida! Os primeiros atletas começaram a correr ao som de Frank Sinatra: “Start spreading the news...”. Na minha partida (havia três pontos de partida simultânea) ficámos a olhar para os atletas de elite a passar ao lado (pareciam ir devagar!), até que reparámos que o pessoal à nossa frente tinha começado a avançar e iniciámos a nossa peregrinação até ao Central Park.



Foto: brightroom



As duas primeiras milhas fizeram-se quase sem dar por elas, ultrapassando atletas na ponte. À entrada no Brooklin apareceram os primeiros dos milhões de espectadores prometidos, a fazer bastante barulho.



Foto: brightroom



Pouco depois surgiu a milha 3 e o km 5: “Já?! Isto está a passar rápido! Já lá vai quase 1/8 de maratona!”.



Foto: brightroom



No km 5 passei pelo primeiro tapete de detecção de chips (além do da linha de partida) e imaginei as bulicenas a serem actualizadas com o meu tempo e o pessoal a acompanhar à distância e a mandar apoio através de intensas radiações telepáticas! Cada vez que passava por um tapete – a cada 5 kms, na meia-maratona, em cada milha entre a 16 e a 26 e na meta – ficava sempre animado ao imaginar a informação a ser actualizada e os leitores das bulicenas a mandar mais energias de apoio. Obrigado pessoal!

Perto da milha 4 estavam a Sílvia e a Mei Yee, muito animadas e animadoras, no primeiro ponto combinado. Energia recarregada a 120%!





Irracional mas verdadeiro: correr em milhas é (psicologicamente) mais fácil! Cada milha que passava eram 1,6 km, em 3 milhas já lá iam quase 5 km... Apenas 26 milhas em vez de 42 km!! Fiquei surpreendido com a rapidez com que aparecia cada nova milha. A ajudar a passar o tempo claro que estava o público e os atletas companheiros de aventura, mas também os postos de abastecimento (a cada milha), que se viam de longe e davam logo aquele ânimo de “mais uma milha!” (ou “menos uma”).

O temido vento estava contra. Foi a primeira coisa em que tinha reparado ao sair de casa às 6:30 da manhã: as bandeiras esvoaçando para Sul... nem tudo pode ser perfeito. Durante a prova, notei o vento especialmente na 4ª Avenida no Brooklin, onde corríamos uma recta de Sul para Norte, entre as milhas 4 e 8. Ao verificar que conseguia manter o ritmo pretendido, deixei de reparar – afinal, não havia nada que eu pudesse fazer (experimentei algumas vezes ficar atrás de outros atletas, a ver se me protegia do vento, mas não senti grande efeito e acho sempre algo claustrofóbico ir “na cola”).



Foto: brightroom



Túnel de energia

No Norte do Brooklin, por volta da milha 10, o público estava incrivelmente animado. Na Avenida Bedford, num trecho um pouco mais estreito que tornava o público mais próximo e obrigava os atletas a correrem num pelotão mais compacto, formou-se um autêntico túnel de energia. Os espectadores gritavam alto, por vezes em resposta a um berro de um atleta mais inspirado, e formava-se uma ressonância espectacular: de repente éramos todos campeões olímpicos e os nossos depósitos de energia voltavam ao nível máximo (como nos jogos de computador, quando apanhamos um objecto que restabelece a energia a 100%). Obrigado pessoal!

Até perto da meia-maratona (13,1 milhas; ponte entre Brooklin e Queens) tudo foi bastante fácil, como deveria ser (se corresse a primeira metade em esforço provavelmente não conseguiria completar a maratona). O ritmo estava perfeito. Tinha alguma vontade de fazer uma paragem nas boxes (nos WCs portáteis disponíveis em cada milha) mas fui adiando a paragem até ao final e acabei por poupar esses segundos. Comecei a sentir as pernas e pela primeira vez lembrei-me de que em algum momento apareceria o senhor sofrimento.


Estádio olímpico

Na milha 16 (ponte de Queensboro, entre Queens e Manhattan) iniciei a contagem decrescente: 10 milhas para o final, 9, 8... Pela primeira vez fiz a conta básica: “10 milhas x 7'/milha = 70 minutos, a somar a 1h48' que já lá vão... quer dizer que mesmo que o meu ritmo piore para 7'/milha [a média estava em 6'47”/milha] ainda devo conseguir baixar das 3 horas!!”. Mas rapidamente pensei que 7'/milha não era assim tão lento, e que bem poderia acontecer que os últimos kms fossem mesmo muuuuito lentos e portanto tinha de me concentrar em manter o ritmo até o mais tarde possível.

À saída da ponte de Queensboro, ao entrar na 1ª Avenida em Manhattan, tornei-me o líder da maratona à entrada no estádio olímpico! Fortes aplausos, gritos ensurdecedores, energia, muita energia.... Ali estava uma ruidosa multidão (invisível e silenciosa para quem vinha na ponte) que se espalhava por umas três milhas.

Durante a milha seguinte olhei bastante para o público à procura de caras conhecidas que tinham combinado estar por ali. Mas a multidão era tão densa que a probabilidade de as encontrar era muito baixa. Foquei-me em apreciar o público e sintonizar as antenas para recolher energias telepáticas.

A longa recta entre as milhas 16 a 20 fez-se bem, com energia extra graças ao espectacular público. Apesar de não sentir calor, pela milha 18 decidi tirar a camisola de manga comprida, para ver se o frio me ajudava a superar os difíceis kms finais. Por essa altura passámos no posto de abastecimento de PowerGel, que nos recordava que as nossas reservas de glicogénio deveriam estar praticamente a zero e o “muro” poderia aparecer a qualquer momento...



Foto: brightroom



Onde está o “muro”?

Na milha 20 (km 32, famoso ponto a partir do qual o “muro” costuma atacar) entrámos no Bronx, mas logo na milha 21 saímos. A reentrada em Manhattan, a 5 milhas da meta (pouco mais de meia hora!), deu-me bastante ânimo: “só” faltava entrar no Central Park e terminar! As pernas estavam cansadas, algo doridas, mas ainda conseguia dar passadas normais. Surpreendido, não notei sinais do “muro”. Mas suspeitava que ele poderia aparecer a qualquer momento e nada estava garantido.



Foto: brightroom



Após a milha 22 iniciámos uma longa e razoavelmente inclinada subida na 5ª Avenida. Do lado direito estava já o Central Park! No fim da subida, após a milha 23 (5 kms para terminar! Só mais uns 20 minutos!!), entrámos à direita no Central Park e iniciámos uma montanha russa de duas milhas, com bastantes mais descidas que subidas (para alegria de todos os corredores), que me ajudaram a fazer uma 24ª milha razoável (voltei a fazer os cálculos - começava a ser difícil não fazer menos de 3 horas!!) e uma 25ª milha rápida (uma das mais rápidas de toda a corrida).



Foto: brightroom



Última milha!

Uma milha para o final e o muro não tinha aparecido!! Continuava razoavelmente lúcido (apesar de na foto parecer estar a dormir uma sesta...), nem sinais de quebra! Animei-me e dei ordens às pernas para acelerar ligeiramente o ritmo, dar tudo até ao final. E elas obedeceram!





Passei novamente pela Sílvia e pela Mei Yee. A concentração e o cansaço não permitiram distinguir os berros conhecidos entre os anónimos, mas com certeza que o apoio delas ajudou a tirar uns segundos naqueles metros finais!

Já era oficial: pela primeira vez em cinco maratonas não ia sentir o muro! Entrei na rua Sul do Central Park e vi ao fundo a estátua do Cristóvão Colombo, no Columbus Circle. Mais ou menos 1 km para a meta! Verifiquei também que aquela rua é a subir! Nunca tinha reparado, e já passei por ali tantas vezes. Não desanimei – mantive o ritmo forte e continuei a ultrapassar atletas mais cansados.

Meia milha para o final! Por essa altura passei pelo Miguel e pela Christine, cujos berros também não consegui distinguir da multidão. Estava totalmente focado na estátua do Colombo ao fundo e no ritmo forte para acabar.



Foto: brightroom



Finalmente entrei no Columbus Circle e virei à direita para o Central Park – meta a pouco mais de 400 metros! Olhei à volta à procura de caras conhecidas e encontrei logo o Paulo e a Ju, muito animados e com um cartaz com palavras de apoio que a velocidade não permitiu ler. Adrenalina bem em cima, a camuflar quaisquer dores ou cansaços. Tinha entrado no que me parecia um “ritmo louco” para voar os últimos metros.



Foto: brightroom



400 jardas para o final... 300 jardas... Quase não notei a última subida antes da meta... 200 jardas... A meta estava já ali! Cruzei a meta com a lucidez suficiente para “posar” para uma eventual foto final e só então parei o cronómetro: 2 horas, 57 minutos e 50 e tal segundos!! Missão cumprida!



Foto: brightroom



No mesmo instante em que senti a alegria do objectivo alcançado, a adrenalina eclipsou-se. As pernas, que momentos antes galgavam asfalto, agora não queriam nem andar! De repente, ficou frio! Foi então que comecei as duas milhas mais difíceis de todo o dia: caminhar até à saída do Central Park, na rua 85, e depois de volta ao Columbus Circle para encontrar os amigos e celebrar!





Tempos realizados vs. planeados

Eu próprio fico, modestamente, fascinado com a minha capacidade de estimar tempos de corrida. Demonstra um razoável conhecimento do meu corpo e das minhas capacidades. Como se vê na tabela abaixo, os tempos realizados na maratona foram muito próximos dos planeados (erro inferior a 1% em quase todas as milhas). Só houve uma ligeira divergência a partir da milha 16, porque eu tinha planeado ser um pouco mais rápido naquela fase da corrida, até à milha 22, e a partir daí tinha previsto “morrer” e ter de entrar num ritmo lento a que felizmente fui poupado!





O melhor público do mundo

Não sei se eram os 2,5 milhões estimados pelos organizadores (média de 60 pessoas por metro de percurso, ou seja 30 pessoas/metro de cada lado... parece-me um pouco exagerado), mas havia muita muita gente ao longo da maratona. Além das pontes, onde o público não tinha acesso, havia poucos metros sem gente. Mas, mais do que estar lá a assistir passivamente, como acontece em muitas provas, o pessoal em Nova Iorque faz questão de gritar, aplaudir, fazer barulho.

E o apoio não é anónimo, para o grupo de atletas em geral: sempre que possível, os espectadores identificam o atleta (por alguma palavra escrita no equipamento, às vezes simplesmente pelo número de prova) e dão apoio individualizado, gritando os nomes dos atletas, dos seus clubes, etc. No meu caso, porque levei na maior parte da prova, devido ao frio, uma camisola de uma corrida no Brasil, dos Bombeiros de São Paulo, de vez em quando ouvia “Go Bombeiros!”. Pode parecer que não faz grande diferença, mas saber que alguém olhou para mim e me dedicou um apoio especial energiza-me e responsabiliza-me: “tenho de ir bem!”.

Sem dúvida, o melhor público do mundo.

Devo confessar que fiquei um pouco desiludido com as bandas de música ao longo do percurso. As minhas recordações da maratona de Madrid'2001 eram de bandas talvez a cada 5 km, mas que tocavam tão alto que se ouviam uns 500 metros antes e uns 500 metros depois, e me deixavam com o ritmo na cabeça quase até à banda seguinte. Em Nova Iorque a maior parte das bandas eram pouco barulhentas e geralmente eu só reparava nelas no instante em que passava mesmo em frente. E como às vezes havia outra banda poucos metros depois, raramente dava para perceber o que elas estavam a tocar. Acho que nenhum ritmo ficou na cabeça por mais do que uns segundos. Acredito que menos bandas e mais barulhentas teriam maior impacto.

A maratona também proporciona prognósticos para as eleições presidenciais americanas: Obama vai ganhar. De vez em quando aparecia um espectador com um cartaz de apoio ao Obama (por exemplo “High fives for Obama here”) ou um atleta com algum dizer nas costas tipo “We can do it”. Zero para o McCain. No mínimo, por alguma razão, adeptos do Obama são mais propensos a participar e assistir a maratonas demonstrando publicamente as suas preferências políticas.


Os melhores voluntários do mundo

Segundo os organizadores, a maratona de Nova Iorque conta com mais de 6.000 voluntários, dedicados às mais diversas funções: dar indicações para garantir que os atletas chegam ao ponto de partida correcto na ordem correcta no momento correcto, oferecer abastecimento de água e Gatorade a cada milha, prestar assistência médica, indicar o caminho durante a corrida, felicitar e ajudar os atletas após a meta, etc. etc. etc.



Foto: brightroom



Mais impressionante que a quantidade de voluntários era que eles não só correspondiam à responsabilidade que tinham aceite, mas também mostravam genuíno interesse, alegria, preocupação pelos atletas. Nos postos de abastecimento, a cada milha, além de estenderem a mão com copos de água ou Gatorade, os voluntários gritavam palavras de incentivo “mile 12!”, “way to go!”, “you look great!”. Após a meta, dezenas de voluntários em fila aplaudiam e felicitavam os atletas pelo “great job!”. De vez em quando algum perguntava “are you ok?”, “do you need help?” com sincera preocupação. Seria impossível morrer ali sem ninguém dar por isso (ao contrário do que senti em Mumbai, onde logo após a meta entrei numa multidão de anónimos que facilmente ignoraria um corpo ali caído por vários dias).

Extraordinário. Verdadeiros voluntários, que, como o próprio nome sugere mas nem sempre corresponde à verdade, faziam o seu trabalho com vontade. Obrigado!


Os vencedores

Os vencedores da maratona foram ambos repetentes na façanha. A primeira mulher foi a inglesa Paula Radcliffe, recordista mundial na maratona e detentora de quatro dos cinco melhores tempos de sempre na distância, que já tinha vencido em Nova Iorque em 2004 e 2007.



Foto: brightroom



O primeiro homem foi o brasileiro Marilson Gomes dos Santos, que tinha vencido em 2006, surpreendendo a concorrência africana, que não fazia ideia de quem ele seria, com uma fuga na milha 20. Este ano ganhou após uma recuperação fantástica na última milha, quando ia em segundo a uns 10 segundos do líder.



Foto: brightroom



Cobertura televisiva

Aqui podem encontrar imagens televisivas da maratona: reportagem completa da NBC Sports (5 horas – óptima para ter uma ideia de tudo o que se passa à volta deste mega-evento), maratonas masculina e feminina completas (2h-2h30m – foco exclusivo nos vencedores), e resumos de dois minutos sobre os vencedores masculinos, femininos, de corrida e cadeira de rodas.


Próximas loucuras?

E agora que alcancei este objectivo e que a adrenalina se foi... que loucuras se seguirão?

Para já nada muito definido, mas com certeza surgirão ideias a executar! Esta semana é de repouso semi-activo para recuperar bem e rápido. Andar, nadar devagar, alguma corrida lenta e curta mais para o final da semana.

Dia 20 ou 21 de Dezembro tenciono participar no Troféu Marquês do Funchal de pentatlo moderno, em Lisboa, por isso vou concentrar-me em treinar natação e investir em corrida para ganhar velocidade (dentro do possível no relativo pouco tempo entre recuperar da maratona e a prova) e estar na melhor forma possível para nadar 200 metros e correr 3 km. As logísticas do tiro, esgrima e hipismo não facilitam o treino, portanto vou confiar que ainda me lembro como se fazem.

Quanto a maratonas, há sempre novos objectivos possíveis: até ao recorde do mundo (2h03'59”, do fantástico etíope Haile Gebrselassie, na maratona de Berlim deste ano) há muito a melhorar! Tenho pelo menos mais 4 a 6 anos para melhorar a minha forma física (o não menos fantástico e tuga Carlos Lopes foi campeão olímpico em Los Angeles'1984 – com recorde olímpico que durou até Pequim'2008 – aos 37 anos, e recordista do mundo na maratona de Roterdão em 1985, aos 38 anos!). Gostaria pelo menos de melhorar o meu recorde até às 2h48m, que era o tempo que esperava – talvez um pouco irrealisticamennte – ter conseguido fazer logo na primeira maratona. Para acreditar que posso fazer esse tempo, “basta” continuar a trabalhar velocidade/limiar anaeróbio para voltar a fazer 1h20' na meia maratona (ou menos – o meu recorde, de 2000, é 1h17') e resistência para aguentar um ritmo de 15 km/h (4'/km) durante toda a maratona, e escolher um percurso plano numa cidade onde faça bastante frio na altura da prova.

Irei dando notícias!

2008 ING NYC Marathon Alert

Latest Results at 12:42:12 PM:
Location Time Pace/mile
5km0:20:436:40
10km0:41:486:43
15km1:02:496:44
20km1:23:436:44
Half-Marathon1:28:156:43
25km1:45:106:46
Mile 161:49:246:50
Mile 171:55:076:46
Mile 182:01:516:46
30km2:06:086:45
Mile 192:08:356:46
Mile 202:15:296:46
Mile 212:22:276:47
35km2:27:476:47
Mile 222:29:216:47
Mile 232:36:056:47
Mile 242:43:096:47
40km2:48:516:47
Mile 252:49:496:47
Mile 262:56:266:47
Finish2:57:516:46

All times are unofficial. Times may vary in post race official results.


New York Road Runners

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A postos!

É já no Domingo: a maratona de Nova Iorque. Após meses de preparação, estou pronto para mais um desafio de 42,195 quilómetros. Depois de ter completado a maratona de Mumbai em 3h20min no dia 20 de Janeiro, o objectivo é agora bater o meu recorde pessoal na distância (3h03, na minha primeira maratona, há 8 anos) e terminar abaixo das 3 horas: 2 horas, 59 minutos e 59 segundos seria fantástico.

Como posso ambicionar melhorar o meu tempo em 20 minutos apenas nove meses depois? É fácil: há por aí uns laboratórios que produzem umas pastilhas espectaculares que nos fazem mais rápidos, mais fortes, mais resistentes, mais inteligentes e outros efeitos maravilhentos em muito pouco tempo. Brincadeira! No último ano talvez tenha tomado uma ou duas pastilhas para combater alguma constipação, mas de resto estou totalmente limpo – venham os controles anti-doping! Limpo de drogas, de álcool e praticamente de carne também... Como é que posso julgar-me capaz de tal desempenho?

Após a maratona de Mumbai analisei os factores internos e externos a influenciar para melhorar o meu tempo e defini a estratégia de ataque. [Aviso: os parágrafos que se seguem poderão ser esotéricos ou entediantes para os menos interessados em detalhes técnicos ou simplesmente palavrosos]


Factores internos

Para além da mente (psicologia), identifiquei os principais factores “internos” que eu poderia influenciar na minha preparação – a minha resistência, velocidade e peso:

Resistência: Claro que é preciso resistência (i.e., capacidade de realizar um esforço físico de longa duração) para terminar uma maratona. Essa resistência obtém-se fundamentalmente com treinos longos (no meu plano, até 36-37 km). Nesta preparação fiz mais treinos acima de 2 horas do que para maratonas anteriores (foram sete). E certamente bati o meu recorde de kms corridos em 7 dias seguidos: na semana entre 28/Set e 4/Out corri mais de 8 horas em 5 treinos, totalizando cerca de 110 km. Essa semana começou com a meia-maratona de Newport, que completei em 1h23'48” (não corria uma meia-maratona tão rápida desde Buenos Aires em 2005, e antes disso desde 2002). Quatro dias depois fiz um treino de 37 km e, depois de apenas um dia de descanso, corri uma nova meia-maratona (no Central Park), que esperava fazer mais devagar dado não poder ter recuperado ainda do treino longo, mas que terminei em pouco mais de 1h24'! Foi uma semana muito animadora para manter as aspirações de baixar das 3h na maratona.




Foto: Ken Shelton Photography

Na meia-maratona de Newport, por volta da milha 9 (alguma figura conhecida na foto? não, não me refiro ao tipo de barba...); nesta prova comecei a aprender a "correr em milhas"! quem diria que uma meia-maratona tem 13,1 milhas?



Velocidade: Correr uma maratona em 3h exige uma velocidade média (14 km/h) mais rápida que a minha velocidade habitual em treino (ultimamente perto dos 12,5 km/h). Desde que deixei o pentatlo competitivo em 1999 praticamente deixei de fazer treinos rápidos de corrida e passei a participar em provas com reduzida frequência – por isso tenho perdido bastante velocidade. Nas vezes em que treinei para as anteriores maratonas nunca consegui fazer treinos de velocidade ao mesmo tempo que aumentava a quilometragem (estava tão cansado a recuperar dos treinos longos que era impossível pensar em treinos rápidos, além de que há sempre um maior risco de lesão quando se aumentam as duas variáveis: volume e intensidade). Desta vez decidi arriscar e fiz, pela primeira vez em bastantes anos, séries de corrida (repetições de 400, 800 e 1000 metros) e treinos de limiar anaeróbio (20 a 40 minutos a ritmo de meia-maratona). São treinos mais duros, de algum sofrimento, mas que geram um estranho bem-estar pós-treino e que me fizeram sentir cada vez mais forte e mais rápido, sem ficar cansado nem lesionado – recuperei muito bem de um treino para outro.

Peso [queridos pais, podem saltar este parágrafo!]: Sem dúvida, se eu pesar menos conseguirei correr mais rápido com o mesmo esforço. Entre Abril e Julho, sem qualquer esforço nesse sentido, simplesmente graças a uma maior actividade física (juntando a natação e o ciclismo à habitual corrida) e alimentação mais regrada (menos açúcar e menos gordura), perdi cerca de 3 kgs. Pela primeira vez em 15 anos a minha avó e os meus pais podem afirmar com verdade “estás mais magro!”. Nos últimos 15 anos o meu peso tinha sido praticamente constante: uns 66 kgs (excepto dois períodos “negros” em que cheguei a escandalosos 69 kgs). Depois de ter perdido estes 3 kgs que pensava ser impossível perder, concluí que ao longo do tempo tinha transformado músculos em gordura – agora noto que realmente a minha barriga e as minhas pernas estão mais “secas” (segundo algumas medições – sabe-se lá se fiáveis – efectuadas em Julho, a minha taxa de gordura corporal era inferior a 10%).


Factores externos

Os principais factores “externos” que identifiquei, influenciáveis ao escolher a maratona a correr, foram o clima, o percurso e a animação:

Clima: Já pude observar que o meu desempenho sofre bastante com a temperatura ambiente. Mais frio, mais rápido. Mais quente, mais lento e mais cansado. Isso foi especialmente evidente nas quentes e húmidas maratonas de Singapura (2003) e Mumbai (2008). Por isso já tinha decidido há algum tempo que teria de escolher uma maratona “fria” para bater o meu recorde. Nova Iorque é excelente: segundo o site da prova, a temperatura média no dia da prova tem sido de 13ºC. No fim-de-semana passado achei que ainda não estava suficientemente frio e pensei como seria bom se arrefecesse um pouco... Alguém me ouviu e decidiu regular o termóstato para os 4-5ºC... brrrrrrrr! Agora estou a achar que está demasiado frio e já nem sei bem que devo vestir para a prova. Uma variável climática que não tinha considerado é o vento: aqui venta forte e, infelizmente, nem sempre a favor. O percurso da maratona é mais Sul-Norte do que Norte-Sul... portanto o sentido em que sopre o vento será determinante para eu manter ou não as minhas ambições de tempo final.

Percurso: Claro que um percurso plano é mais fácil que um percurso com subidas e descidas (melhor que plano só o percurso da meia-maratona da Ponte 25 de Abril, que só tem descidas!). Segundo os entendidos, o percurso da maratona de Nova Iorque é duro, especialmente devido às subidas (as principais ao cruzar pontes – vejam aqui a altimetria), ao vento, e às multidões de público e atletas que fazem os 42 km um pouco mais longos (por ser difícil percorrer sempre o caminho mais curto possível). Não foi uma escolha perfeita, mas acredito que o frio e as multidões (irradiadoras de energias positivas) ajudarão a vencer as subidas e o vento contra.





Animação: Das quatro maratonas que fiz até hoje, apenas uma (a de Madrid'2001) tinha um número decente de participantes e uma quantidade simpática de espectadores animadores. Lisboa'2000 e Mumbai'2008 tinham poucos participantes (uns 500) e muito pouco público, e a de Singapura'2003 tinha mais participantes (uns 2.500) mas também pouco público. No Domingo não me poderei queixar de companhia na prova: 39.000 atletas e dois milhões de espectadores! Mais de 120 bandas a tocar (lembro-me de ter sido das coisas que mais apreciei em Madrid, onde só havia uma meia dúzia de bandas)! E ainda, ao contrário de Mumbai em que não havia absolutamente ninguém mais próximo a dar apoio ao vivo e em directo, terei vários amigos cujos gritos de incentivo espalhados pelo percurso me carregarão de energias pelos seguintes kms. Com certeza não faltarão energias positivas. Mas se por acaso faltarem, naqueles sempre penosos 5 kms, perdão, 3 milhas finais, posso sempre pôr-me a cantarolar algo que me anime a continuar a remar com bom ritmo:






Apoio à distância

Agradeço as palavras de apoio que tantos amigos e familiares têm transmitido ao vivo, telefónica, electrónica e telepaticamente. Obrigado!

Se quiserem acompanhar a prova sem esperar pelas minhas eventuais notícias, visitem as bulicenas no Domingo. Começo a correr às 9h40 da manhã, hora local (14h40 em Lisboa). Se as tecnologias funcionarem como esperado, as bulicenas serão actualizadas com os meus tempos de passagem a cada 5 kms, meia-maratona, milhas entre a 16 e a 26, e meta.

(Se falhar algum ponto, antes de ligarem para o 112, o 911 ou o +1-555-MARINES, pensem que pode ter sido simplesmente a falha de alguma tecnologia pelo caminho: o sistema de chip e respectivo detector que controla as minhas passagens, a comunicação entre esse detector e o sistema de informação que por sua vez está ligado a algum outro sistema que envia e-mails de aviso que são recebidos em algum servidor do google que por sua vez os publica nas bulicenas, às quais vocês acedem através de algum fornecedor de acesso à Internet – e com certeza tudo é muito mais complicado do que esta minha simplificação ignorante... Cheira-me que a probabilidade de alguma destas ligações falhar é bastante maior do que a de as minhas pernas, coração ou cabeça falharem.)

Se além da possibilidade de consultarem as bulicenas quiserem receber e-mails de aviso sobre o meu progresso na prova, podem inscrever-se aqui .

Podem ver os meus tempos planeados para Domingo aqui:





Não “orçamentei” velocidades diferentes nas subidas e descidas (uma sofisticação a adicionar numa próxima ocasião), mas tive em conta o facto de nunca nas quatro maratonas anteriores ter conseguido manter o mesmo ritmo nos quilómetros finais: nos primeiros 30 e poucos quilómetros tentarei manter um ritmo ligeiramente mais rápido que a média, esperando que o ritmo lento no final não me faça falhar o objectivo das 2h59'59”.


Curtir a corrida!

Estou ansioso por começar a correr. Há bastantes anos que não me sentia tão ansioso por começar uma competição (parece que vou para um campeonato do mundo de pentatlo!). Talvez porque há bastantes anos que não investia tanto numa prova? E que não me colocava um objectivo que me parece tão... desafiante?

Na minha primeira experiência aprendi a respeitar muito a “senhora maratona”. Sei que muita coisa pode acontecer que não me permita fazer o tempo desejado. Ou sequer concluir a prova! Acima de tudo, no Domingo quero curtir a corrida (“curtir 42km a correr??!?!”), o ambiente único desta maratona, os 39.000 atletas (juntos percorreremos o equivalente a 40 voltas à Terra!) com os seus desafios individuais, as suas emoções, as suas dificuldades e as suas vitórias, os dois milhões de espectadores a apoiar amigos e anónimos, as mais de 120 bandas a tocar estilos diferentes mas certamente com ritmos inspiradores, os amigos prontos a descarregar injecções de energia directamente na veia, as vistas de Staten Island, Brooklin, Queens, Manhattan, Bronx, Central Park... ah sim... aquela vista extasiante da meta no Central Park, que teima em não chegar!

domingo, 27 de julho de 2008

O ciclista africano

Terminou hoje o Tour de France 2008 e, mais uma vez, graças às extraordinárias características genéticas que lhes permitem desempenhos sobrenaturais em desportos de resistência, os ciclistas quenianos dominaram a prova (ver resultados).

Dominaram?? Ninguém viu um único ciclista negro no Tour de France, pois não? Três ciclistas africanos completaram a prova: sul-africanos, brancos, da equipa italiana Barloworld, o primeiro deles, John-Lee Augustyn, em 48°.

Existem ciclistas africanos?

Claro que existem ciclistas (competitivos) africanos, e alguns serão negros. No ranking africano da União Ciclista Internacional (a federação internacional da modalidade) encontram-se bastantes. O líder de 2008 é um sul-africano com o elucidativo nome de Nicholas White. A sua equipa, Microsoft South Africa, é integralmente constituída por ciclistas brancos.

No ranking europeu, certamente o mais competitivo a nível mundial, o primeiro africano é, em 220°, de novo um sul-africano branco, Robert Hunter.

Esta ausência de ciclistas negros competindo ao mais alto nível reflecte um conjunto de factores, sendo obstáculos socioeconómicos talvez os mais importantes. O menor desenvolvimento económico do continente africano limita os quilómetros de asfalto com qualidade para prática de ciclismo de estrada. O reduzido rendimento per capita e a baixa profissionalização do desporto reduzem a disponibilidade para praticar ciclismo (os atletas precisam de uma fonte de rendimento para comer e pagar as contas, que lhes toma tempo) e dificultam a aquisição das caríssimas bicicletas imprescindíveis para quem quer ser competitivo. As bicicletas que circulam no Tour de France custam milhares de Euros (5.000+), e cada ciclista usa duas ou três: para as etapas em pelotão (uma para etapas planas, outra para etapas de montanha), e outra, tipicamente ainda mais cara, para os contra-relógios.

Benefícios do ciclismo africano

Que importa se existem ou não ciclistas negros competindo ao mais alto nível? Deveria o ciclismo de estrada de alto nível ser uma prioridade para o continente africano? Provavelmente não, há muita coisa por resolver. Mas isso não quer dizer que não possa ser um bom desenvolvimento se alguém se motivar pela causa.

Ciclistas negros com visibilidade internacional constituiriam uma referência para muitos africanos que se identificariam com eles e possivelmente os tomariam como modelos a seguir. Mesmo que quase nenhum chegasse ao ciclismo profissional, ou mesmo ao ciclismo competitivo em geral, milhões de jovens e menos jovens veriam o ciclismo como uma opção para melhorar a qualidade de vida, tanto reduzindo os quilómetros percorridos a pé como praticando ciclismo “por desporto”. Mais pessoas a usar bicicleta no dia a dia aumentaria a disponibilidade para outras actividades (ao reduzir o tempo em longos percursos a pé), melhoraria a saúde (pressupondo que essas pessoas teriam acesso a calorias suficientes para compensar os eventuais gastos extra na bicicleta; de qualquer modo, 1 km de bicicleta é menos caro em calorias que 1 km a pé – exemplos de calculadoras de calorias aqui e aqui), aumentaria a auto-estima da população (mais saudável, mais capaz, melhor humor), e possivelmente atrasaria a adopção de meios de transporte poluentes como as motos, entre outros efeitos benéficos. Claro que também aumentariam os acidentes de bicicleta (mas raramente são graves, na minha experiência – óptimos para endurecer mãos, cotovelos e joelhos!)

Bikes for Africa

Todos estes efeitos podem ser conseguidos sem ciclistas negros no Tour de France. Existem várias iniciativas para levar bicicletas para África e promover o uso desse meio de transporte ecológico e saudável. Experimentem uma busca no google com “bikes for Africa”. Aparecem projectos como Re~Cycle, que recicla bicicletas no Reino Unido, a Australian Goodwill Bicycles Abroad (bicicletas australianas), e, entre outras, esta Bikes por Africa (bicicletas neozelandesas). Entretanto eu já tinha lido sobre outra Bikes for Africa e, mais recentemente, sobre Baisikeli (projecto dinamarquês).

Além de enviarem “lixo” de países mais ricos que se espera que se converta em meios de transporte em África, várias destas iniciativas geram emprego local, ao criar uma indústria africana de recuperação de bicicletas usadas, financiada pela subsequente comercialização.

Não encontrei nenhuma iniciativa portuguesa do mesmo tipo, o que não admira, tendo em conta que a prática do ciclismo é insignificante em Portugal. Num Eurobarómetro realizado em 2007 sobre “Atitudes sobre temas relacionados com a Política de Transportes da UE”, Portugal é o antepenúltimo país da UE27 (à frente de Malta e Luxemburgo) em utilização da bicicleta como principal meio de transporte: 1% da população. [Gostaria de saber quem são! Eu não conheço ninguém!]





The African Cyclist

Se eu pensasse em desenvolver o ciclismo competitivo em África, começaria provavelmente pela bicicleta de montanha, muito mais apropriada para prática em qualquer tipo de terreno (apesar de ser uma disciplina muito menos profissionalizada que o ciclismo de estrada e portanto ser mais improvável produzir atletas que consigam viver do desporto).

Mas há quem acredite e esteja motivadíssimo por levar em frente o projecto do ciclista negro no Tour de France. Em Singapura conheci o Nick (foi ele quem generosamente emprestou a super-bicicleta que me permitiu conquistar o terceiro lugar no triatlo de Singapura há duas semanas).





O Nick é fotógrafo por conta própria e apaixonado do ciclismo. Possui várias bicicletas excelentes, mas não é um super-atleta: pedala por prazer, não compete. Ao observar a ausência de ciclistas negros nas grandes competições internacionais, decidiu fazer alguma coisa. Foi até ao Quénia em busca de ciclistas. E encontrou. Encontrou o Zakayo Nderi e o Samwel Mwangi. Trouxe-os para Singapura no ano passado e, finalmente, durante Agosto, irão até França cronometrar uma subida em Alpe d'Huez. Não menos que a mais famosa “escalada” do Tour de France (leiam os artigos na Wikipedia: em português ou, mais completo, em inglês). É cronometrada oficialmente desde 1994, e portanto constitui óptima referência para testar um atleta com ambições de se bater com os melhores do mundo. O objectivo é que estes ciclistas consigam um tempo comparável com os dos atletas do Tour, para demonstrar que têm as capacidades físicas necessárias. Depois será possível abordar e impressionar potenciais equipas, patrocinadores e parceiros para avançar com o projecto.

Será provável encontrar um ciclista negro no Tour nos próximos anos? Talvez não. Mas o mundo só muda sempre que alguém concretiza um projecto improvável.

Vamos aguardar novidades no site do projecto: http://www.theafricancyclist.com

Boas pedaladas!

domingo, 13 de julho de 2008

Triatlo de Singapura

Fiquei em terceiro lugar no triatlo de Singapura, no grupo dos 30-34 anos!

Vejam aqui os resultados.





Tal como é típico em outras provas desportivas, a minha velocidade média foi praticamente nula (na definição das aulas de física do secundário), já que a partida e a chegada estavam muito próximas uma da outra (uns 200 metros em 2h32min, dá cerca de 80 metros por hora). Portanto o objectivo de percorrer o mais rapidamente possível 1,5 km a nadar, 40 km a pedalar e 10 km a correr não era certamente deslocar-me o mais longe possível, mas sim... hmmm... ahn... lá estou eu de novo a tentar explicar maluquices desportivas.

Tinha como objectivo melhorar o meu recorde em triatlos desta distância, que era, e ainda é, de 2h27min. Treinei bem, especialmente natação, que já não praticava há alguns anos, e ciclismo+corrida, essencial para sofrer menos na sempre traumática transição entre essas duas actividades (quem já experimentou sabe do que falo!).

Natação

A natação foi boa. Eu sentia-me em boa forma, com um estilo razoavelmente eficiente, a deslizar bem sem gastar demasiadas energias. Sentia-me tão bem que até fiz um aquecimento pré-prova (nas ocasiões anteriores achava que já bastavam os 1,5 km de prova e que não valia a pena cansar-me antes).

Havia partidas diferentes cada 10 minutos (já que uma partida única com cerca de mil atletas seria demasiado confusa), e eu ia partir com metade dos atletas do meu escalão etário. Os meus colegas pareciam algo “tímidos”: poucos fizeram aquecimento, e poucos se chegaram à frente na linha de partida, preferindo ficar para trás, ao contrário do que costumo ver em triatlos.

Foi dada a partida e corri para a água, onde fui um dos primeiros a mergulhar. Senti-me potente e satisfeito de não conseguir ver toucas laranjas (a cor da minha partida) à minha volta. Parecia ir rápido e num dos lugares da frente.

Mas quando completei a primeira volta de 750 metros fiquei muito desiludido com o tempo: 15 minutos! Esperava passar, no máximo, em 13 minutos. Enquanto pensava que já não daria para bater o meu recorde ouvi alguém exclamar: “Vais em primeiro!” E aí começou uma nova prova: em vez de correr pelo recorde absoluto, fiquei motivadíssimo para correr pela posição relativa.

Mantive o ritmo na segunda volta e terminei em 31 minutos, 8 minutos mais lento que em 2003, quando fiz este mesmo triatlo (mas com certeza o percurso de natação não tinha a mesma distância nem as mesmas correntes contra).





Fui o primeiro atleta a sair da água, entre o grupo que partiu comigo, o que não era garantia de ir em primeiro no meu escalão etário, já que tinha havido uma partida anterior com pessoal do mesmo escalão. Entrei na área de transição, onde esperavam as bicicletas e reparei que a minha fila estava ainda cheia de bicicletas, sinal de que ia mesmo num dos primeiros lugares. Adrenalina em cima!

Ciclismo

Os minutos iniciais na bicicleta foram de adaptação ao novo tipo de esforço, mas rapidamente entrei no que me pareceu um bom ritmo (difícil de verificar por falta de um velocímetro). Passei na primeira volta de 10 km no tempo ambicionado, perto de 18 (uns 33 km/h), sentindo um esforço reduzido. Uma bicicleta boa faz maravilhas: depois de ter treinado numa bicicleta de montanha de 50 Euros, uma bicicleta de estrada, avaliada pelo dono que me emprestou em 50 vezes mais, é como um Formula1 para quem costuma andar de Carocha.





Concentrei-me em manter o ritmo mas sem cansar as pernas, que ainda teriam de correr 10 km a boa velocidade (queria ser o mais rápido na corrida, como tinha sido em 2003!).

Reparei que a prova era realmente muito singapurense: um monte de bicicletas carérrimas, de aspecto altamente profissional (a minha não era das melhores!!), montadas por atletas em forma média, mas não tão treinados assim, até algo lentos.

Ao contrário de provas anteriores, em que costumava ser ultrapassado por um monte de gente no ciclismo, vi poucos atletas do meu escalão passar por mim. Portanto continuava numa boa posição!

A boa posição confirmou-se quando voltei a entrar na área de transição, para deixar a bicicleta e iniciar a corrida, e vi só duas bicicletas perto da minha!

Corrida

Iniciei a corrida, determinado a correr forte e ser o mais rápido, fazendo um tempo próximo de 2003: 41min. Até ali tudo tinha sido razoavelmente fácil, mas agora começava o verdadeiro sofrimento - foi-se o sorriso da minha cara.

Ao fim de pouco tempo de corrida comecei a sentir uma forte dor de burro e não consegui ir rápido. Sentia-me muito muito lento. Duas vezes tive de caminhar por alguns segundos para tentar aliviar a dor e pensava “Vou ser passado por toda a gente!”. Mas passei aos 2,5 km num tempo não tão péssimo que me animou a tentar manter o ritmo. E começou a cair uma daquelas chuvas tropicais singapurenses que aliviou o calor.





Nem tudo era mau, mas a dor de burro não passava e pensei como seria bom parar e andar, mas esses pensamentos comodistas não duraram muito tempo: não ia desperdiçar as semanas de treino, nem o esforço na natação e ciclismo, e muito menos desiludir a minha torcida que nesse momento estava a apanhar uma carga de água para me apoiar!

Passei aos 5 km em cerca de 23min, dois ou três minutos mais lento que o meu objectivo inicial, mas já me tinha resignado a aceitar o que viesse. Felizmente, a dor de burro suavizou ao começar a segunda volta de 5 km.

Ia olhando o tempo todo para os números dos atletas que eu passava (bastantes) ou que me passavam (nem tantos), para tentar identificar pessoal do meu escalão. Por volta do km 6 fui passado pelo 4220, claramente meu concorrente directo. Pensei acompanhá-lo mas era impossível aumentar o ritmo. Ao ver os resultados finais, descobri que nesse momento eu tinha perdido o segundo lugar. Mas mesmo que tivesse sabido durante a prova, não havia forças escondidas que me pudessem ter assistido. Estava destruído e só queria acabar a prova!

Mantive o ritmo e finalmente cheguei ao fim: 46min nos 10 km, ainda assim o quarto melhor tempo na corrida no meu escalão.





Balanço final: muito feliz, especialmente com o terceiro lugar no meu escalão, apesar do tempo final de 2h32min ter ficado longe do meu recorde.

Obrigado a quem apoiou, ao vivo e telepaticamente!