sábado, 18 de abril de 2009

Folha Forreta

No seguimento da bulicena sobre cobertura financeira, gostaria de partilhar uma ferramenta muito simples mas tremendamente útil:

Folha Forreta®

A Folha Forreta é um ficheiro de Excel que serve para registar todas as despesas e receitas de uma pessoa (ou de um agregado familiar).

Registar todas as despesas?? Para quê??! Obviamente, para optimizar a gestão das nossas finanças. Se achas que podes melhorar a forma como geres as tuas, e tens interesse e motivação para investir no assunto (é perfeitamente legítimo decidir que não vale a pena), recomendo:

1. Durante um mês (no mínimo), regista exaustivamente toda e qualquer despesa e toda e qualquer receita, classificando-as em categorias e sub-categorias. Só este exercício já terá o efeito provavelmente benéfico de te tornar consciente de todas as tuas transacções (e talvez te fartes tanto do exercício que por vezes desistas de uma compra só para não a teres de registar!) – primeiro passo para as poderes analisar e questionar. A ideia não é fazer-te sofrer, mas sim positivamente tomares as rédeas das tuas finanças pessoais. Algumas dicas:

  • Para os mais distraídos, apaga os dados que incluí na Folha (são só para exemplificar como poderia ser o preenchimento e que tipo de relatórios são gerados)

  • Não registes receitas se não vires benefício nisso (eu não costumo registar... mas também não tenho tido nada para registar)

  • Obviamente, adapta ao teu gosto as minhas sugestões de categorias e sub-categorias, pré-incluídas na Folha Forreta (folha 'DADOS', colunas L e M)

  • Evita “esconder” despesas agrupando-as em coisas como “factura do cartão de crédito”. Pode ser mais rápido registar de forma consolidada, mas não obterás muita informação que te permita actuar. Até a “conta do supermercado” pode valer a pena esmiuçar, por exemplo separando alimentos de não alimentos, ou detalhando ainda mais. Se optares por agrupar despesas, fá-lo consciente de que ou a informação não é de facto relevante para este exercício ou te estás a tentar enganar

  • Na mesma filosofia, sugiro que coloques numa sub-categoria separada despesas que suspeitas que poderias reduzir ou eliminar, para melhor as vigiares. Por exemplo, no início eu agrupava supermercado e restaurantes em “Alimentação” e não sabia quanto vinha de cada fonte de despesa. Por isso decidi começar a separá-las e rapidamente concluí que andava a gastar demasiado em restaurantes

  • Uma categoria bastante interessante é a categoria “Trabalho”, onde podes incluir coisas como a roupa comprada exclusivamente para trabalhar, os custos de transportes associados ao trabalho, as refeições fora de casa que não farias se não fosses trabalhar, custos de saúde devido aos efeitos do trabalho, custos de férias mais elevados por teres de marcar com pouca antecedência e em época alta... Pode ser interessante calcular o verdadeiro salário líquido, depois de descontar tudo isto, e reavaliar a relação custo-benefício da tua actual opção.

2. Ao fim de um mês (ou ao fim de cada mês, por exemplo, se decidires manter o registo por bastante tempo) analisa as tuas despesas, aproveitando os relatórios na folha 'RELATORIOS'. Procura padrões que mereçam análise e talvez uma alteração no teu comportamento (recorda as dicas na Cobertura Financeira). Observa:

  • Quais são as categorias com mais despesas?

  • Quais as sub-categorias mais relevantes, dentro das categorias mais dispendiosas?

  • Que despesas contribuem para essas sub-categorias? Quão necessárias são? Quanto contribuem realmente para o teu bem-estar? Será que as podes reduzir, ou até eliminar? Haverá alternativas mais baratas para obter o mesmo benefício?

  • Na tabela detalhada ('DADOS'), que despesas, mesmo pequenas, são totalmente dispensáveis? Que tal, então, dispensá-las? Mesmo que seja, por exemplo, apenas um Euro por semana, imagina a poupança acumulada ao fim do ano! E da vida?

Desde que me reformei em Abril de 2008 registei quase todas as minhas despesas (talvez 99%), o que me permitiu identificar claras oportunidades de poupança. Tenho a certeza de que tu também descobrirás boas oportunidades, algumas até surpreendentes. As que representarem simplesmente "fugas" de dinheiro (dinheiro que sai do bolso sem que haja um benefício muito óbvio) serão, talvez, facilmente eliminadas. Outras saltarão à vista como boas candidatas, mas hesitarás em abdicar do benefício correspondente ou em disciplinar-te seriamente para as eliminar... as compras impulsivas... os jantares menos baratos com os amigos... os fins-de-semana fora... as provas desportivas... os DVDs... aquele vício que nunca mais largas e na verdade nem decidiste ainda se queres largar... A decisão é tua. O importante é que seja consciente e pondere bem os prós e os contras.

Espero que a Folha Forreta possa ser útil. Se decidires utilizá-la, fica à vontade para me solicitares consultoria financeira personalizada. Teria todo o gosto em bisbilhotar o teu registo (ou apenas os relatórios, de forma menos invasiva) e fazer sugestões de estratégia forreta.

Boas decisões! Viva o forretismo!


[Nota 1: Para os mais técnicos, “despesa” e “receita” aqui são sinónimos de “saída” (incluindo investimentos) e “entrada” de dinheiro. Por exemplo, se eu comprasse um carro a pronto, colocaria apenas uma despesa na data da aquisição. Contabilisticamente seria mais correcto colocar a depreciação mensal em cada mês de vida do carro (e em geral associar a cada mês as despesas que correspondem a um benefício nesse mês), mas provavelmente será complicação a mais.
Nota 2: Na verdade, a Folha foi feita em Calc, do OpenOffice.org – um "excel" grátis que recomendo vivamente. Espero que a compatibilidade seja total – por favor avisa-me se encontrares algum problema.
Nota 3: “Folha Forreta” é, está claro, uma hipálage – quem é Forreta não é a Folha, mas quem a utiliza.]

quarta-feira, 15 de abril de 2009

free range studios: criatividade com consciência

Já conheces os free range studios? Lançaram mais uma das suas brilhantes campanhas, desta vez contra os sacos de plástico:




Se não conheces outras iniciativas destes senhores, recomendo vivamente obras-primas como:

The Meatrix - a mentira que contamos a nós próprios sobre a origem da nossa comida.

The Story of Stuff - a história escondida dos nossos ciclos de produção e consumo (que eu já tinha publicitado na bulicena "Quem vais comer ao jantar?").

The Store Wars - sobre uma nova esperança: a rebelião orgânica.

domingo, 12 de abril de 2009

Pai Nosso 2.0

Suspeito que o "Pai Nosso" não é rigorosamente a oração que Jesus nos ensinou:

  • Segundo a oração, Deus é “Pai”. Entendo o significado positivo, próximo, criador, que nos ama... mas não deixa de ser uma perspectiva humanizadora e masculinizadora do transcendente (como habitual, o homem – macho mesmo, não humanidade – cria deus à sua imagem e semelhança)

  • Deus é “nosso”. Não posso deixar de me perguntar quem somos “nós”: não estaremos a excluir algo ou alguém da divina paternidade?

  • Deus está “no Céu”. Não sei bem onde isso fica, mas parece longe. Porque não aqui, em todo o lado?

  • A oração é vergonhosamente passiva, tudo na segunda ou terceira pessoa, um descarado peditório: "venha...", “seja feita...”, “dai-nos...”, “perdoai...”, “não nos deixeis...”, “livrai-nos...”. Humildade é uma qualidade importante, mas não nos faria mal um pouco de iniciativa e responsabilidade!

  • A única parte na primeira pessoa é no plural (óptimo para rezar em comunidade mas também para diluir a responsabilidade – o que é de todos não é de ninguém) e representa uma troca comercial: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Que lata pretender exigir reciprocidade a Deus, não?!

  • Em português, na versão comum da oração, Deus é tratado por "Vós", a pessoa mais distante e anacrónica da língua portuguesa. Com o devido respeito, que tal um pouco de intimidade? (há alguns anos adoptei o “tu” usado em espanhol e no evangelho de São Mateus)

Proponho renovar esta oração que já tem uns aninhos (quase 2.000) e:

  • Reconhecer Deus de forma mais católica, ou seja, universal

  • Aproximar Deus, tanto astrográfica como linguisticamente

  • Tornar a oração activa, responsabilizadora, um momento de conversão através de positivas profecias auto-realizadoras, através da decisão incondicional de nos reformarmos, de nos fazermos sempre melhores

Que tal algo como:

Deus de tudo, que estás em tudo,
eu te respeito, santifico e agradeço;
procuro a tua vontade e faço-a minha;
trabalho, incansável, para alimentar
corpo, mente, coração e espírito;
amo e respeito todos e tudo:
humanidade e natureza, amigos e inimigos;
vivo cada vez mais consciente e com mais atenção,
para não gerar infelicidade, minha ou alheia;
reparo prontamente as minhas faltas
e espalho amor e boas energias à minha volta;
Amen!

(GLP! Será que tenho coragem para rezar isto mesmo?!)


Se acreditarmos que pelo menos 20% dos cerca de 2 mil milhões de cristãos rezam o “Pai Nosso” semanalmente, são no mínimo 60 milhões de “Pai Nossos” rezados todos os dias – que potencial de transformação! Melhor do que propor uma nova fórmula, porque não renovar continuamente a oração? Para que, mais do que um mantra de meditação, cada “Pai Nosso” represente um exercício consciente para uma nova Páscoa: uma passagem sempre para uma vida melhor. E melhor e melhor. Caminhada infinita (com altos e baixo mas tendência positiva) para a inalcançável perfeição!


[Aí pela net, gostei bastante de como este “Pai Nosso” desenvolve a fórmula tradicional. Noutra onda, há mais de 20 anos que os Xutos poderosamente apresentam uma forma alternativa de oração, como mostra o vídeo abaixo. Imaginem uma actuação destas quando Bento XVI visitar Portugal! Algo a propor ao Departamento de Marketing da Igreja Católica.]



sábado, 4 de abril de 2009

Shivabalayogi

Deambulando pela Little India singapurense (na rua Syed Alwi, mesmo em frente ao famoso Mustafa Center), um cartaz chamou por mim: “FREE MEDITATION CLASS”. Apesar do meu forretismo, mais do que o “FREE” foi o “MEDITATION” que me chamou a atenção. Convite irrecusável: óptima oportunidade para me tentar redisciplinar nesta prática que me parece tão valiosa. E o cartaz ainda prometia comida vegetariana grátis depois da meditação!

Entrei no templo, de certa aparência hindu, onde o ar condicionado poderia estar mais fraco e meia dúzia de pessoas estavam já sentadas em posição de meio lótus, de olhos fechados, aparentemente concentradas. Nas paredes, coloridos cartazes de gurus indianos. Indicaram-me onde sentar e prontamente o Chandra veio orientar-me. Perguntou se era a primeira vez ali – “Sim” – e se já tinha meditado alguma vez – “Fiz um curso de meditação Vipassana”. “Então isto é parecido: vais fechar os olhos e concentrar-te no ponto entre os olhos [o terceiro olho], durante um bocado, até eu te dizer. Vais receber energia e bênçãos de Shivabalayogi” (o guru cuja foto se destacava numa espécie de altar ao fundo da sala, onde costumam estar as figuras divinas das religiões iconófilas). Enquanto me dizia isto, aplicou-me entre os olhos um giz cinzento claro (vibhuti – cinza benta, possivelmente bosta de vaca queimada) e, enquanto pressionava, baixou a cabeça na minha direcção para me transmitir “energia”. Não sei se senti algo especial nesse preciso momento, mas gostei das boas energias que a serenidade e o sorriso sincero do Chandra transmitiram.



foto: www.shiva.org



Durante uma hora tentei domar a mente indomável e concentrar-me no ponto sugerido. Mantive uma posição bastante estática, só mexendo a perna esquerda quando a circulação começou a falhar. O silêncio razoável na sala (apesar do ruído lá fora) e a sensação provocada pela cinza (não, não notei nenhum cheiro) ajudavam, mas a concentração não foi excelente. Fui despertado do meu estado ilumin... aaaam...devaneador, pelo “Oooommm” do Chandra. Ele estava surpreendido com o meu aparente sucesso na meditação e perguntou se praticava habitualmente. Expliquei que não era muito disciplinado e que não tinha estado assim tão concentrado na última hora. Ele motivou-me para a prática regular, de uma hora por dia, que me aproximaria do divino e traria graças, e deu-me um pedaço de vibhuti. Disse também que por vezes havia quem tivesse visões (darshan) de Shivabalayogi durante a meditação. Com o seu sorriso sereno e pleno de amor universal, explicou que a seguir iriam cantar (bhajans – cânticos espirituais) e que mais tarde serviriam comida, e convidou-me, sem qualquer insistência, nem o mais infinitésimo tom de chantagem, a ficar. Tive o reflexo de olhar para o relógio mas imediatamente concluí que não tinha planos alternativos e que algo me dizia que deveria estar aberto e aceitar o convite (talvez o facto de o guru ter nascido no mesmo dia que eu, exactamente 41 anos mais cedo, tenha algo a ver?). O Chandra pareceu surpreendido e muito feliz. Explicou que Shivabalayogi não fazia discursos, simplesmente incentivava a prática da meditação para seguir o caminho da verdade, e que não defendia nenhuma religião especificamente nem pedia que ninguém alterasse o seu caminho espiritual: hindus, cristãos, muçulmanos... Ecumenismo no seu melhor. Deduzindo as minhas referências, disse que poderiam cantar a Cristo em inglês.

Seguiu-se uma hora e meia de cânticos (suspeito que em telugu, língua do sul da Índia). Como nos deram fotocópias dos cânticos, as letras eram bastante repetitivas e as palavras bastante pronunciáveis, até dava para acompanhar facilmente. O Chandra de vez em quando vinha explicar alguma coisa: que os cânticos eram sobre o guru, que eram geradores de energia (não senti nada de especial), que no final o pessoal poderia ficar um pouco mais entusiasmado e parecer algo marado, mas que só significava mais energia na sala (não vi nada muito louco). Como prometido, pelo meio pediu para cantarem a Cristo em inglês (algo do tipo, “Please come, Lord”).

Eu tinha almoçado um pesado thali e tinha pensado não jantar, mas nessa altura estava a ficar com fome e a reconsiderar. Finalmente acabaram os cânticos: não estava a sentir a tal energia (mas também não sou o tipo mais sensível do mundo, como muitos leitores saberão) e sentia, mundanamente e sem vergonha, vontade de comer alguma coisa. Nem só de pão vive o homem, mas também!

Mas entre mim e a comida um preceito final: as pessoas colocaram-se em fila indiana (termo muito bem aplicado aqui, dado ser essa a etnia da maior parte dos presentes) e, um a um, foram “prestar respeito” ao guru. Parecia-me bem prestar respeito a um guru com uma mensagem tão incriticável de amor universal, mas sou bastante iconoclasta e dispensava o preceito em frente à fotografia. Convidado mas não pressionado, acabei por juntar-me ao fim da fila quando percebi que aquilo que me era indiferente era importante para o Chandra e colegas. Em frente à foto de Shivabalayogi desenhei três círculos com uma vela numa bandeja metálica e depositei uma flor num prato. Depois deram-me prashad (comida benta, parecia fruta cristalizada), que comi, e segui para a sala onde estava a ser servida comida mais substancial (talvez também prashad).

Foi provavelmente a melhor refeição dos últimos meses (peço desculpa a alguma cozinheira ofendida!). Comida indiana vegetariana, com especiarias mas muito pouco picante, permitindo saborear as nuances da incrível variedade de alimentos: arroz, massa, chapati, idli, dhal, vada, e várias outras coisas que não soube identificar, incluindo sobremesa e café com leite bem doce. Um tour completo pela cozinha do Sul da Índia. A única crítica é que me serviram demasiada comida (mas também era a única forma de ter a experiência gastronómica completa).

Estive um pouco na conversa com um jovem casal indiano, com quem pratiquei as minhas frases preferidas em hindi (“estou a aprender hindi” e “não compreendo“). O rapaz comentou que iam ali todos os sábados desde há dois meses e que durante a semana ele procurava meditar durante a deslocação para o trabalho, uns 40 minutos todas as manhãs. Explicaram-me que cada família trazia alguma coisa para o jantar, daí a enorme variedade, e aproveitei para agradecer os deliciosos pastéis de batata doce que a rapariga tinha contribuído.

Agradeci a hospitalidade às poucas pessoas que ainda estavam por ali (impressionando com o meu fluente hindi: “Danyavad!”) e despedi-me. O Chandra apertou longamente a minha mão, com o seu sorriso emissor de potentes radiações positivas, enquanto me convidava a aparecer mais vezes mas deixando-me totalmente à vontade: o importante era procurar meditar uma hora por dia, pois certamente obteria muito bons resultados.



foto: www.shivabalayogi.org



Pouco exigente comparado com os inacreditáveis 12 anos que Shivabalayogi passou nas suas tapas (nada a ver com as homónimas iguarias espanholas). Segundo parece, aos 14 anos Shivabalayogi experimentou o samadhi (iluminação) ao ser iniciado na meditação por um guru que lhe apareceu. Seguiram-se oito anos dedicando 23 horas diárias à meditação, e depois quatro anos com 12 horas diárias de meditação. Depois, Shivabalayogi começou a viajar, primeiro na Índia, depois no Sri Lanka, e mais tarde no Reino Unido, Itália e Estados Unidos. Consta que iniciou mais de 10 milhões de pessoas na prática da meditação. Abandonou o seu corpo físico em 1994, mas dizem que muitos meditadores continuam a sentir a sua presença.

Não notei a presença de Shivabalayogi, mas saí à movimentada rua e ao ruidoso mundo real a sentir-me leve (excepto no estômago!), em paz, com muito boas energias.


Para mais informações sobre Shivabalayogi:
www.shivabalayogi.org
www.shiva.org
Vídeo de 7'21" no Youtube:


quinta-feira, 26 de março de 2009

Aula de felicidade

“Mas quando tiver 60 ou 70 anos, vai agarrar-se a quê?”, perguntou-me, expressivo, um dos alunos das minhas primeiras aulas de “Introdução à Felicidade”.

Não sei se consegui perceber exactamente a pergunta. Suspeito que estávamos a falar línguas diferentes. Foi fácil perceber que “60 ou 70 anos” era para mim sinónimo de “80 ou 90 anos”: bastante idoso, com prováveis limitações físicas e possivelmente mentais. Já o “agarrar a quê” era um pouco mais complicado. Não pude deixar de imaginar um náufrago abraçado à tábua de salvação. Porque é que eu me haveria de agarrar a alguma coisa? Se tivesse passado 80 anos sem me agarrar a nada, o que é que mudaria de repente? Ou talvez a ideia fosse que ao longo da vida nos vamos agarrando a coisas diferentes? Ou seria a grande pergunta – “qual é o sentido da vida?” – num formato alternativo?



foto: Manuel Almeida/Lusa


Uma inconvencional professora de Filosofia convidou-me a ir falar aos seus alunos. O convite pareceu-me muito interessante, talvez até por ter alguma dificuldade em perceber concretamente de que é que ela queria que eu fosse falar. Sobre a minha vida? Porque é que haveria de ser interessante para eles? Finalmente percebi que o tema era o mais importante das nossas vidas e o meu preferido: não dinheiro, nem sexo, nem mesmo futebol, mas sim felicidade. E aceitei o desafio de ir falar a três turmas do 10º ano.

Em cada turma, comecei por perguntar quem se considerava feliz. Os primeiros braços ergueram-se timidamente, mas rapidamente quase todos os alunos reconheceram a sua felicidade (e quem não levantou o braço talvez não seja infeliz – talvez só tenha achado a pergunta demasiado invasiva, ou impertinente, ou surpreendente, e não tenha respondido).

Em seguida, propus um exercício de brainstorming para listar os factores que geram felicidade (e depois os que geram infelicidade – tipicamente a negação dos anteriores e por isso uma boa forma de identificar mais factores de felicidade). Achei interessante como o resultado deste exercício foi muito semelhante nas três turmas. Isso sugere, nesta minúscula amostra da humanidade de evidente irrelevância estatística (alunos da mesma escola, níveis socioeconómicos semelhantes...), que talvez todos conheçamos bastante bem e partilhemos os principais factores que influenciam a felicidade.

  • Estar bem com a família

  • Estar bem comigo

  • Estar bem com os outros

  • Estar bem com Deus

  • Gostar do que faço (ou seria “fazer o que gosto”?)

  • Amizade

  • Saúde

  • Realização

  • Sucesso

  • Arte, cultura, música

  • Liberdade

  • Justiça

  • Viajar

  • Desporto

  • Benfica

  • Álcool

(Esta lista reflecte a minha memória imperfeita dos factores mencionados e da frequência e ordem de menção – os primeiros factores terão sido mencionados nas três turmas, os últimos apenas numa; se alguém recordar outros factores, agradeço que inclua nos comentários.)


Curiosamente, ninguém mencionou dinheiro (a não ser numa das turmas, depois de eu ter chamado a atenção para a falta). Pode ter sido por inibição, para não parecer muito materialista. Ou também porque todos tinham provavelmente (ao contrário de grupos mais desfavorecidos) necessidades básicas de alimentação, habitação, saúde, educação, etc., bem supridas. Mas também pode significar que, na verdade, achamos ou sabemos (pelo menos aos 15 anos) que o dinheiro não é fundamental para a felicidade. Espantoso como uns anos mais tarde nos vemos tão facilmente a tomar decisões que não parecem nada coerentes com essa convicção. Quem terá razão? Eu aos 15 anos, ou eu aos 30 anos? Ou ambos?

Em duas turmas pediram-me no final para comentar os factores listados. Exceptuando os dois últimos, todos me pareceram importantes, mas poucos essenciais. Eu diria que os quatro primeiros (“Estar bem com...”) são praticamente sinónimos de “ser feliz”. Provavelmente só não são absolutos, essenciais, em situações específicas:

  • Alguém sem família, ou cuja família o repudiou, não pode “estar bem com a família” mas pode ser feliz

  • Um doente mental, por exemplo com transtorno dissociativo de identidade, pode ter dificuldades em “estar bem com ele próprio” mas pode ser feliz

  • Um eremita não pode “estar bem com os outros” (porque simplesmente não está com eles) mas pode ser feliz

  • Um ateu não pode “estar bem com Deus” (pelo menos não na sua concepção do mundo) mas pode ser feliz

Ao analisar a lista enquanto escrevo, adicionaria “estar bem com o universo”. Talvez seja sinónimo de “estar bem com Deus” para um crente, mas torna mais explícita a importância de estar bem, em equilíbrio, com o mundo, a natureza, os animais, as plantas, o mar, o ar, etc. (como seres humanos naturalmente antropocêntricos sofremos de agudas miopia e amnésia que nos levam a desvalorizar e desrespeitar tudo o resto).

Os restantes factores (que não começam com “estar bem...”) podem deixar-me mais ou menos alegre, mais ou menos satisfeito, mais ou menos confortável, mas não são essenciais – são paliativos. Se eu não for apegado a eles, posso ser feliz mesmo na sua ausência. Se eu sentir que preciso desses factores, estou a deixar a minha felicidade “refém” deles. Será que não posso ser feliz se tiver de fazer algo de que não gosto, se os amigos me rejeitarem, se estiver doente, se não me realizar, se não tiver sucesso, se não tiver acesso a arte, se não puder fazer o que quero, se sofrer uma injustiça, se não viajar, se não fizer desporto, se o Benfica perder, se não puder beber? Posso e devo ser feliz! “Basta” querer!

Depois de aquecermos os neurónios com a discussão sobre o que gera felicidade, descrevi à turma o meu percurso desde o momento em que estava sentado, como eles, numa sala de aula do 10º ano até ao meu estado actual, de reformado aos 33 anos. Percorri as principais decisões da última metade da minha vida, esperando que tenha ficado claro que não ambiciono seguir o que convencionalmente se chama uma “carreira” e que quero ser feliz (não querendo dizer que sejam opções incompatíveis). Concluí resumindo quatro princípios que me têm ajudado a viver melhor e a ser feliz:

1. É preciso manter equilíbrio entre as quatro dimensões da vida: física, mental, emocional e espiritual (acho que estas quatro englobam tudo o que é importante – por favor avisem-me se estiver a esquecer algo fundamental!)

2. Não há uma fórmula única para viver, para ser feliz: o que funciona para mim não necessariamente funciona para ti; e o que funciona para mim hoje talvez não funcione amanhã – é fundamental saber aceitar as diferenças do outro e as mudanças em mim próprio (o equilíbrio entre dimensões da vida varia entre pessoas e ao longo do tempo)

3. A vida vive-se no presente, aqui e agora: é fácil andar distraído sempre a planear o futuro ou a avaliar o passado; ao longo do tempo tenho procurado aprender (e tenho muuuuito a aprender) a ser cada vez mais consciente, mais atento, mais focado no presente, a reparar no aqui e agora, procurando evitar que a vida me passe ao lado

4. Equanimidade é uma capacidade crítica (já referida em “A arte de viver”): saber aceitar com serenidade as vicissitudes da vida, o positivo e o negativo, o bom e o menos bom; equanimidade bem desenvolvida (tarefa interminável!) permite-me deixar de ter a felicidade refém de relações, de bens materiais, de acontecimentos que não controlo

No final houve uns minutos para perguntas e respostas. Foi interessante observar graus variáveis de interesse entre turmas, provavelmente associados a diferentes combinações de cepticismo e aceitação. As perguntas foram todas muito pertinentes. A minha favorita: “Mas em algum momento é preciso assentar, ter um emprego, uma família... não?” Possivelmente aquilo que eu perguntaria a mim próprio se, a la Regresso ao Futuro, tivesse ido falar à minha própria turma do 10º ano? Se bem me recordo, na altura tinha a ideia de que tinha de definir o que queria ser quando fosse grande, e que aos 33 anos (idade avançadíssima – não admira que alguns alunos tenham usado o vocativo “o senhor” ao falar comigo) teria um emprego estável, uma casa, um carro, uma esposa e provavelmente vários filhos. A julgar por estes indicadores, sou um completo falhado! Não me consigo imaginar num emprego estável, não vejo necessidade de comprar uma casa (pelo menos enquanto continuar nómada), evitarei comprar um carro a todo o custo e não me atrai a ideia de procriar. Mas não sou apegado a qualquer uma destas ideias: pode ser que em algum momento me faça sentido assentar, ter um emprego, uma família... mas isso é muito diferente de acreditar que a minha vida tem necessariamente de passar por aí.


E o que é que respondi ao rapaz que me perguntava a que é que me agarraria quando fosse idoso? Reconheci que a dimensão emocional da minha vida estará (se chegar a essa idade) provavelmente debilitada (especialmente se não procriar), com muitos familiares e amigos falecidos nessa altura (e muitos que não saberão como interagir comigo...), que também estarei limitado física e mentalmente (o que pode afectar a dimensão espiritual, tanto no sentido de a enfraquecer como no de a fortalecer)... mas se for capaz de (equanimemente) aceitar a minha condição (e viver no presente), porque é que terei de me agarrar a alguma coisa?

Não nos faria mal uma dose de sabedoria budista: não serão exactamente os apegos – a tendência a nos agarrarmos a coisas, sensações, relações, situações, ídolos, santos, deuses, etc. – que geram sofrimento e infelicidade?


Obrigado, Joana, pelo convite e aos alunos pelas excelentes discussões! Desculpem se não consegui ser totalmente claro, coerente, relevante, interessante, entusiasmante... Espero que pelo menos vos tenha deixado a pensar.

Sejam felizes e espalhem felicidade!

domingo, 22 de março de 2009

O pior emprego do mundo

O Turismo de Queensland, na Austrália, lançou uma inteligente campanha publicitária ao "Melhor Emprego do Mundo": cuidador das ilhas na Grande Barreira de Coral. Soa realmente a vida muito dura. E o processo de recrutamento tem produzido toneladas de visibilidade mediática para a região, provavelmente a um custo relativamente baixo.





Talvez este não seja o "melhor emprego do mundo", mas não parece nada mau (a não ser para quem não goste de água, praia, sol ou meios de comunicação como blogs, vídeos, etc.).

E qual será o pior emprego do mundo?

Um emprego mau torna hercúleo o esforço de levantar da cama de manhã. Um emprego mau deixa-me mal humorado, triste, até deprimido. Um emprego mau pode chegar ao ponto de produzir dores físicas: de cabeça, olhos, costas, barriga... Passo as horas de trabalho em sofrimento, ansiando pela hora de saída, pelo fim-de-semana ou pelas férias que nunca mais chegam. E, nos casos mais sérios de empreguite aguda, passo até as horas livres, o fim-de-semana ou as férias que finalmente chegaram em sofrimento só de pensar no regresso ao trabalho. Parece bastante mau, não? Mas há algo de positivo num emprego mau: é impossível não reparar nele. Por isso é bastante improvável que me tente conformar, que me acomode. A não ser que seja masoquista ou me queira converter em mártir, mais cedo ou mais tarde desistirei do emprego mau e procurarei um caminho melhor.

Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o pior emprego do mundo não é um emprego mau, mas sim um emprego "mais ou menos", um emprego médio!

Um emprego médio não me preenche, não me realiza, mas também não incomoda muito. Um emprego médio vai dando para pagar as contas, enquanto permite "desligar o cérebro" durante as horas de trabalho. Deixa-me andar distraído no dia-a-dia, pôr a vida entre parêntesis 8, 10 ou mais horas por dia, ou durante os dias (in)úteis da semana, ou mesmo nos 11 meses entre as férias anuais. Um emprego médio não é bom o suficiente para dar sentido à vida mas também não é mau o suficiente para lho tirar. Um emprego médio deixa-me passivo, amorfo, anestesiado. É como passar o dia a ver televisão. Pode até ser divertido, uma distracção agradável. Só os mais atentos notam o travo a vazio, o sentimento ténue de que estamos a passar ao lado da vida. Por isso vamos ficando e ficando e ficando. Até sermos despedidos, reformados ou mortos.

Como empregas a tua vida? Já descobriste o teu melhor emprego do mundo?

Como canta a sempre sábia Mafalda, às vezes "é preciso morrer e nascer de novo, semear no pó e voltar a colher (...) E a vida não é existir sem mais nada. A vida não é dia sim, dia não. É feita em cada entrega alucinada, p'ra receber daquilo que aumenta o coração."



sábado, 14 de março de 2009

Walking the talk on governance

[Contexto: O Comité Olímpico Internacional organizou nos últimos meses um Congresso Olímpico Virtual, em preparação para o Congresso Olímpico que se realizará em Copenhaga em Outubro de 2009 (o último Congresso Olímpico aconteceu em Paris em 1994, portanto não é um evento muito frequente). No congresso virtual eram pedidas contribuições do público em geral para discutir vários temas propostos. Contribuí com o texto abaixo, no tópico "The Structure of the Olympic Movement - Good governance and ethics".]




The International Olympic Committee (IOC) has invested significantly in promoting and demanding good governance in national sport systems across the globe, in particular after political crises leading to the disruption of established government and sport institutions: for instance, in Timor-Leste after its independence, in Afghanistan after the fall of the Taliban regime, in Iraq after Saddam Hussein's overthrow. The IOC requires officially recognised National Olympic Committees (NOCs) to function democratically, governed by adequate constitutions, making key decisions in valid general assemblies, ruled by properly elected individuals. In each country, Olympic sports are typically organised in a pyramidal structure: in its base are athletes, who are members of clubs, which in turn are members of federations (or sometimes regional associations), which in turn are members of NOCs. Members of each organisation are present in general assemblies and have the power to elect the organisation's leaders and make key decisions such as approving annual plans and annual reports.

Oddly enough, members of the IOC are still natural persons, a majority of them whose membership is not linked to any function or office. This means that most members of the IOC, who make critical decisions for the whole Olympic Movement in Sessions, do not represent anyone else than themselves. The 1999 reform brought very positive (but still marginal) improvements to IOC governance, by establishing terms and age limits to members, and opening membership to athletes and leaders of NOCs, International Federations (IFs) or other organisations recognised by the IOC. However, a more radical change is required to bring the IOC up to date as a 21st century organisation.

It is not difficult to envision a better model. What does the IOC require from the sport organisations it recognises? Would it ever recognise an NOC whose members were individuals representing themselves? How would one expect the IOC to be constituted if it was to be created from scratch now? Probably through the association of world NOCs and IFs, which would become the members of the Session, represented by their leaders, and would elect IOC leaders and make all key decisions.

The challenge to surpass powerful conflicts of interests is significant: why would current IOC members decide to make themselves ineligible? But change is necessary and urgent: the early 20th century model* of a private club whose members elect new members and make critical decisions cannot ensure the fairness, transparency, and accountability that the global Olympic Movement demands and deserves. Perhaps current members won't take the initiative in driving change, but they may be sure that Olympic stakeholders (athletes, coaches, referees, sport managers, clubs, federations, NOCs, IFs, the public, sponsors, the media, etc.) will increasingly demand it and soon make it inevitable.

Let the change begin!


*Mais precisamente, o Comité Olímpico Internacional foi fundado em 1894, portanto ainda no século XIX

sexta-feira, 6 de março de 2009

A velha de Beverly Hills

Esta noite sonhei que estava a ver o Beverly Hills 90210, série inconsequente cheia de gente jovem, bonita e rica e dos seus dramas do dia-a-dia.





No sonho, um dos rapazes da série (talvez o louro Steve) entra na cozinha de sua casa e assusta-se ao encontrar uma senhora idosa. A câmara treme e ouvem-se uns acordes tenebrosos. Atrás do rapaz entra uma rapariga (talvez a morena Brenda), que ao ver a velhinha olha para o rapaz como se ele tivesse cometido um crime horrendo ao estar a interagir com uma pessoa daquela idade, enquanto ele agita as mãos a tentar explicar a situação “Não é isso que estás a pensar!” A imagem pára para os espectadores digerirem a terrível revelação: o rapaz dá-se com idosos!!

Só agora, tantos anos depois de perder tempo a ver episódios da série, reparei na evidência: o 90210 só mostra gente jovem e bonita! Mesmo os pais dos protagonistas são relativamente jovens, sem rugas, sem cabelos brancos. Beverly Hills é um mundo sem idosos. E sem idosos são tantos outros mundos, especialmente os mostrados na TV e outros meios de comunicação. Talvez também o meu próprio mundo?

Com a melhoria dos cuidados de saúde e controlo de doenças, a população humana tem envelhecido. Segundo a ONU, no mundo “desenvolvido” a esperança de vida anda próxima dos 80 anos. Nunca existiram tantos idosos tão idosos como agora. Naturalmente, a sociedade (ou seja, eu, tu, ele, todos nós) parece não ter definido ainda exactamente o que fazer com eles.

Quando a mente e o corpo começam a pregar partidas, os idosos passam a partilhar muitos comportamentos infantis... Infelizmente não costumam beneficiar das doses industriais de aceitação e carinho que dispensamos às crianças. Se achamos seres humanos de dois anos tão queridinhos e engraçadinhos em cada asneira que fazem... Se aceitamos com naturalidade que não consigam controlar as urgências para fazer necessidades, que sujem as fraldas e cheirem mal... Se achamos louvável e divertido quando, apesar dos repetidos maus resultados, insistem em serem independentes ( “Sozinho! Sozinho!”)... Se aceitamos que digam coisas sem sentido... Se, melhor ou pior, aceitamos birras, desafios, exigências, choros... Porque será tão difícil aceitar os mesmos comportamentos de alguém 80 ou 90 anos mais velho?

E que dizer da solidão a que tão frequentemente parecemos condenar os mais idosos?

Há com certeza muitas diferenças entre ambientes rurais e urbanos, cada um com as suas vantagens e desvantagens. As aldeias estão cada vez mais despovoadas e envelhecidas, e têm menos oportunidades culturais e de distracção que as cidades, mas também costumam manter níveis muito superiores de convivência e solidariedade entre vizinhos. Nas cidades há acesso a mais serviços e oportunidades, e também a muitos mais vizinhos mesmo aqui ao lado... mas com quantos trocamos mais do que um olhar de soslaio ou, quando muito, um tímido “Bom dia”?

Para muitos idosos, o estado físico e/ou mental dificulta sair à rua e interagir com o mundo exterior. Alguns vivem com as suas famílias. Outros sozinhos. Outros em lares. Para quem pode pagar, os lares são uma invenção conveniente, que retira das nossas vidas quem começa a requerer demasiados cuidados e atenção (e, quando é tarde de mais, lamentamos não termos passado tempo suficiente com aqueles de quem gostamos). Os idosos que podem decidir por eles próprios (quem é que gosta de se meter num lar e perder o controlo sobre a sua casa, o seu espaço, as suas coisas, os seus horários, a sua intimidade?), ou cujas famílias não podem ou não querem pagar um lar, ficam em casa, muitos sozinhos a maior parte do tempo. Alguns contam com apoio domiciliar, familiar, público ou privado. É um mercado de serviços em grande crescimento (num google de “apoio a idosos” encontram-se diversas empresas e organizações de apoio) e possivelmente uma via respeitosa para ajudar quem precisa de apoio para uma vida mais digna. Qual será a melhor opção para cada pessoa?

Será que já parei a pensar como quero, profunda e sinceramente, lidar com os mais velhos? Ou será que vou tomando pequenas decisões, aparentemente inócuas, que vão condenando pais, tios, avós à solidão e esquecimento, enquanto me desculpo com o frenesim do dia-a-dia da vida moderna? O que é que importa realmente na vida, afinal? De um ponto de vista mais egoísta: como quero que lidem comigo quando eu for um dos “mais velhos”? Será que desejo que me tratem com a gratidão com que trato os meus pais?

Talvez os idosos não exijam tanto assim. Talvez a senhora que há dias desabafou com uma amiga minha tenha dito tudo: “Ó menina, eu agora já só peço que me dêem carinho!”

Quem canta tudo isto muito bem é a grande poetisa Mafalda Veiga:


domingo, 1 de março de 2009

Meio Ironman do Porto Santo

Completei o meu primeiro triatlo longo, na distância “1/2 Ironman”! (Isso deve fazer de mim um homem de... ferrugem, talvez?)

Foram 1,9 km de natação (31min), 90 km de ciclismo (3h11min) e uma meia-maratona (21,1 km em 1h33min), totalizando 113 km em 5h16min. Fui 24º entre 65 atletas que iniciaram o I Triatlo Longo do Porto Santo (resultados completos aqui).





Tinha esperança de completar a prova em menos de 5h e 1/2, mas não estava seguro de o conseguir, dada a novidade da distância – o objectivo básico era conseguir chegar ao fim. Claro que foi duro, mas não tanto quanto esperava (claramente menos agressivo que uma maratona). Surpreendentemente, mantive quase sempre óptimos níveis de energia e muito boa disposição (evidente nas fotos). Poucos estragos, recuperação rápida. Experiência certamente a repetir.

Para os mais distraídos, chamo a atenção para o facto de esta prova ser “apenas” 50% do famoso Ironman. O completo e verdadeiro Ironman (3,8 km natação + 180 km ciclismo + maratona), esse sim, é uma insanidade completa. Por isso, pais, estejam descansados: não será ainda em 2009.

A prova (campeonato nacional de triatlo longo e primeira etapa da taça ibérica de triatlo longo) foi ganha pelo Bruno Pais (17º nos Jogos Olímpicos de Pequim) em masculinos e pela Maria Areosa em femininos. Para mais informações, vejam a notícia no site da Associação Regional de Triatlo da Madeira e o vídeo da RTP Madeira.


Preparação

Tenho de admitir que abordei este desafio com alguma leviandade. Só decidi participar na prova um mês antes. Tendo em conta que estava em boa forma na corrida (tinha feito uma meia-maratona no Central Park no dia 25/Jan em 1h25min, cujo maior desafio tinham sido os -10ºC, e estava capaz de correr mais de 2 horas sem dificuldade) mas que não estava a treinar natação nem ciclismo, havia muito a fazer para chegar ao dia 1 de Março capaz de completar o triatlo.

Já a pensar em futuros desafios, decidi comprar uma bicicleta de estrada. Acabei por comprar uma óptima bicicleta num leilão do eBay, em segunda mão mas em muito bom estado. Espero que dure por muitos anos. O exagerado frio nova-iorquino obrigou-me a esperar chegar a Portugal para poder começar a usá-la. Nos EUA comecei a fazer treinos de 30 a 60min em bicicleta estática no ginásio e quando cheguei a Portugal faltavam três semanas para a prova, o que me dava duas semanas para treinar e uma para descansar. Nessas duas semanas dei prioridade total ao treino de ciclismo, fazendo um treino longo (2 a 3,5 horas, 50 a 90 km) cada dois dias. Fiz em duas semanas os treinos longos que idealmente teria feito em oito semanas! O dia de descanso entre treinos permitiu-me recuperar bem e senti a forma física e a auto-confiança a aumentar. Uma semana antes da prova estava confiante de que chegaria ao fim, sem importar o tempo final.

A natação é um passeio para quem, como eu, sabe nadar e não tem pretensões de vencer triatlos. Ainda nos EUA treinei durante uma semana, aproveitando um “free trial” de uma semana num ginásio que tinha piscina, e em Portugal fiz mais sete treinos até à prova.

Entretanto, o cansaço nas pernas e a falta de tempo produzidas pelos treinos de ciclismo levaram-me a treinar muito pouca corrida, o que se revelou uma boa estratégia visto que fiz um bom tempo na corrida deste triatlo (12º melhor tempo).

No total, ignorando a corrida (que tenho treinado em continuidade há vários meses), em um mês investi cerca de 30 horas (uns 750 km) de ciclismo e umas 12 horas (35 km) de natação para preparar este triatlo. Até foi uma preparação económica, mas deu para perceber o grande desafio de encontrar tempo para treinar para um Ironman – um desafio diferente mas talvez superior ao de completar o Ironman.


Véspera

Na semana antes da prova fiz treinos bastante leves (mais curtos, com alguns exercícios de velocidade) e não treinei na véspera e antevéspera. Ainda ponderei ir fazer o reconhecimento do percurso de ciclismo no sábado, mas acabei por optar pelo descanso e pela surpresa de descobrir o percurso durante a prova. Também ponderei ir dar umas braçadas no mar, no percurso de natação, até para experimentar o fato isotérmico (emprestado, que só tinha vestido em casa), mas concluí que era indiferente se me adaptava bem ao fato ou não, já que a água estava fria e não tinha alternativa.

Entretanto, à minha volta via muitos triatletas hiperactivos, entre ajustes nas bicicletas, volta ao percurso de ciclismo, braçadas no mar, treinos leves de corrida... Fiquei a pensar se me estava a falhar alguma coisa que deveria estar a fazer! Acabei por não ficar totalmente parado porque fui passear de bicicleta com os meus amigos, para ver um bocado da ilha.


Dia da prova

Acordei pelas cinco da manhã com barulho de vozes altas e risadas junto à piscina do hotel. “Estes triatletas são loucos! Já estão acordados e hiperactivos a esta hora?? Mas o pequeno-almoço só começa às seis!” Tapei os ouvidos com a almofada e dormi até perto das seis. Afinal fui um dos primeiros a descer para o pequeno-almoço. Um grupo de ébrios não-atletas entrou para o pequeno-almoço e fiquei mais descansado ao perceber que tinham sido eles os responsáveis pelo barulho de madrugada. Segundo outros atletas, o barulho tinha começado antes das duas da manhã!

Até à prova dediquei-me a garantir que a barriga e intestinos estavam vazios. Pelas 8h30 tomei um PowerGel e um café e fiz a última visita à casa de banho. Fiz um curto aquecimento em corrida lenta e dei umas braçadas já dentro do fato isotérmico. Senti-me flutuar bastante – parecia que ia em cima de uma prancha de surf e que só precisava de remar para avançar. A temperatura da água do mar rondava os 18ºC – fresquinha mas suportável com o fato.



foto: Pedro Monteiro



Enquanto esperávamos o sinal de partida na praia sentia-me descontraído, bem disposto, com energia. O cenário estava bonito: tinha caído uma triste chuva fria que teve a decência de parar para o início da prova, e havia agora um contraste espectacular entre as nuvens cinzentas e os raios de sol matinais projectados sobre os 65 loucos que se preparavam para percorrer 1,9 km a nado, 90 km a pedalar e 21,1 km a correr.


Natação

Tiro de partida! Corremos para o mar e saltamos a pequena rebentação para começar a nadar. Eu parti um pouco à direita e logo nas primeiras braçadas reparei em algo estranho: não ia ninguém à minha frente, só via um atleta à minha direita.



foto: Miguel Carvalho



Rapidamente descartei a possibilidade de ser o líder da prova. Respirei para o lado esquerdo (costumo respirar para o lado direito e não tenho a respiração bilateral bem treinada) e vi que o pelotão estava uns bons metros à minha esquerda, com alguns atletas bastante mais avançados. Comecei a chegar-me para a esquerda, reparando que eles estavam a seguir um trajecto mais curto e pensando que era boa ideia encontrar um grupo onde pudesse aproveitar o “vácuo” de outros atletas. Já só me juntei a outros atletas na bóia em que virávamos à direita, a 350 metros da praia (o percurso era marcado por quatro bóias formando um quadrado de 200 metros de lado, a primeira situada a 150 metros da praia, portanto os 1.900 metros de prova eram formados por 150 metros da praia ao quadrado + 2 voltas ao quadrado de 4x200 metros + 150 metros de volta à praia).

A minha respiração estabilizou, tinha entrado num ritmo potente mas que sentia que poderia manter por bastante tempo (idealmente durante 1.900 metros). Não me sentia muito eficiente e achava que o fato isotérmico prendia um pouco a rotação dos ombros e por isso alterava o meu estilo, que normalmente já não é o mais económico. Mas sentia-me a avançar bem, ajudado pela flutuação extra proporcionada pelo fato. Fui tentando seguir atletas próximos mas por vezes avançava sozinho, quando me parecia que eles andavam aos ziguezagues em vez de seguirem em linha recta para a bóia seguinte.

As bóias, que marcavam mais 200 metros percorridos, vinham bastante depressa. Ao iniciar a segunda volta ao quadrado de 4x200 metros senti que a prova estava sob controlo, que ia em bom ritmo que conseguiria manter até ao fim. Não me pareceu que valesse a pena acelerar – poderia ter feito talvez um minuto menos, mas começaria o ciclismo mais cansado e facilmente perderia esse minuto.

Deixei de reparar tanto no esforço e na navegação e comecei a apreciar mais a situação. O céu estava cinzento mas bonito. Por vezes atingiam-me agradáveis raios de sol vindos do horizonte. O mar estava calmíssimo, quase uma piscina. Não se sentiam correntes. A água parecia limpíssima, transparente. O único sabor era a sal. A temperatura ameaçava congelar as mãos e os pés, mas não passava da ameaça. Os sons eram os do impacto de braços e pernas na água.

Nos 200 metros antes de virar para a praia pensei no que se seguiria: transição, tirar o fato, pôr o capacete, sapatos de ciclismo e luvas e iniciar os 90 km de bicicleta. Ao virar para os últimos 150 metros até à praia os atletas que iam comigo aceleraram. Eu achei que não valia a pena terminar com o coração mais acelerado para poupar uns segundos e mantive o ritmo.



foto: Miguel Carvalho



Ao levantar-me já na areia e começar a correr em direcção ao parque de transição olhei para o relógio e vi 31 minutos! Natação super-rápida, provavelmente graças ao fato (esperava fazer 35 ou 36min). Óptimo! Passei então à tarefa de tentar abrir o fecho do fato enquanto corria. A transição acabou por ser relativamente lenta, mas tinha decidido que não me ia preocupar demasiado com as transições: que importa mais um minuto numa prova de mais de cinco horas?


Ciclismo

A principal sensação no início do ciclismo foi de frio! Tinha recomeçado a chuviscar, o sol estava coberto, e a diminuta roupa não me protegia do vento frio, inevitável ao deslocar-me a 30 km/h na bicicleta. Arrependi-me de não ter levado roupa mais quente para o ciclismo e pensei que iria sofrer bastante nas três horas seguintes. Mas não havia nada a fazer.

A primeira das quatro voltas de 22,5 km (4x22,5 = 90 km) foi marcada pelo frio. Fiquei feliz com o ritmo: mantive uma média próxima dos 30 km/h (45min por volta), coerente com o meu objectivo de cumprir os 90 km/h em cerca de três horas. Fui passado por alguns atletas e só passei um ou dois. Reparei que os 65 participantes iam bastante espaçados no percurso, o que facilitava o cumprimento da regra de fazermos uma prova individual, sendo proibido aproveitar o vácuo de outro atleta.

O percurso não era plano mas era, de acordo com os triatletas mais experientes, bastante rápido. Havia algum vento, mas não muito forte. A minha velocidade instantânea variava entre uns 18 km/h nas subidas mais íngremes e 58 km/h na descida mais rápida. Era uma descida longa que terminava numa rotunda. A rotunda era pequena, por isso dava para não travar ao entrar nela, fazer uma tangente ao círculo central e sair disparado em frente. Como o trânsito nas estradas da prova não estava sob controlo, ao descer olhava sempre com atenção para verificar que não apareceria nenhum carro à minha frente – àquela velocidade seria impossível parar. O trânsito era bastante intenso, ao contrário do que a organização tinha anunciado e seria desejável. Só fui obrigado a travar uma vez, num cruzamento mais complicado, mas várias vezes tive de respirar gases de tubos de escape e senti alguma insegurança. Fiquei a pensar se este tipo de situação seria normal em provas de triatlo, mas pela reacção indignada de vários atletas percebi que não.

Senti algumas oscilações de energia ao longo do ciclismo, mas pareceu-me que o meu plano de alimentação funcionou bem: um PowerGel na segunda metade de cada volta e uma barra de amendoins no início de cada volta após a primeira. Cerca de 1.000 kcal ingeridas durante o ciclismo. Os amigos por quem passava três ou quatro vezes em cada volta ajudavam a distrair-me e a manter-me animado.



foto: Miguel Carvalho



Mantive o ritmo próximo dos 30 km/h nas primeiras duas voltas. Na terceira, sentindo uma pressão cada vez maior na bexiga, decidi encostar às boxes por volta do km 48 (num espaço entre dois arbustos, mais isolado) e despejar bastante água, talvez meio litro (suspeito que consequência do café e de alguma cafeína presente em alguns dos PowerGel que tomei). Peço desculpa por eventuais ofensas às duas senhoras que passaram do outro lado da estrada nesse momento delicado. Que alívio! Que bem-estar! Não tenho dúvidas de que o investimento de tempo valeu a pena. Nessa paragem fui passado por um atleta que rapidamente ultrapassei ao voltar à prova com novas energias. A terceira volta acabou por ser uns dois minutos mais lenta, não só pela paragem mas provavelmente também por algum cansaço.

Entretanto, fui passando por vários atletas parados com pneus furados (provavelmente consequência dos buracos na estrada em parte do percurso). Vi alguns a trocar o pneu mas reparei em muitos a desistir. Pensei na frustração que estariam a sentir e agradeci não me ter acontecido nada. Também passei por um atleta ferido que estava a ser tratado após uma queda - soube depois que tinha sido numa interacção infeliz com um carro.

Na última volta voltei a sentir a bexiga cheia. “Será possível??” Considerei a possibilidade de me aguentar até ao fim da prova, mas correr uma meia-maratona com a bexiga cheia não me pareceu viável e acabei por fazer uma nova paragem nas boxes. Desta vez passaram dois miúdos por mim – desculpem lá o mau exemplo! De novo um grande alívio e novas energias para os últimos 18 km. (Não sei se é normal em provas deste tipo, mas parece-me básico disponibilizar umas casas-de-banho portáteis em algum ponto – por exemplo ali perto do início de cada volta do ciclismo e da corrida – para os atletas se poderem aliviar em condições menos chocantes para a população.) Decidi relaxar ligeiramente nos últimos quilómetros, para chegar à corrida o menos cansado possível. Acabei por terminar o ciclismo em um pouco mais de 3 horas (3h11min, incluindo os tempos nas duas transições), a uma média de 29 km/h. Óptimo!


Corrida

Tinham passado 3h43min de prova quando iniciei a meia-maratona. Mesmo que fizesse uma corrida lenta, a 12 km/h (1h45min), conseguiria terminar em menos de 5h30min! Fiquei animado, mas sabia que poderia acontecer muita coisa naqueles 21 km e nada era garantido.

Como de costume depois de pedalar, comecei a correr sem sentir as pernas. Entrei em “piloto automático”, sem noção nem controlo sobre a velocidade a que ia, esperando que fosse a habitual, próxima dos 4min15s por km. Cruzei-me com o Bruno Pais, o vencedor, que vinha provavelmente na sua volta final, com ar bastante relaxado, e com outros atletas da frente da prova.

O percurso de corrida era, tal como o de ciclismo, um pouco monótono: quatro voltas de ida-e-volta (cada uma de 5,25 km) entre o centro do Porto Santo e o porto de abrigo, significando que passávamos oito vezes por cada ponto. As vantagens de um percurso deste tipo são que é mais simples colocar pontos de abastecimento frequentes (a cada 2,6 km, nesta prova), passamos mais vezes pelo mesmo público (além de familiares e amigos, não havia muito mais gente a assistir à prova) e é mais fácil notar o progresso no percurso. Outra consequência é que nos cruzamos um monte de vezes com os outros atletas em prova. Eu ia olhando para eles e dizia “Força” e outras palavras de incentivo, ou simplesmente levantava o polegar. Parecia que estava a tentar ganhar o Prémio Simpatia da prova. Alguns respondiam, outros não (é mais simpático quando respondem, mas entendo perfeitamente quem não responde!). Alguns pareciam autênticos zombies, alheios ao que se passava à volta deles, fazendo-me sentir ainda mais agradecido pelo meu estado lúcido.



foto: Miguel Carvalho



Completei a primeira volta em 22min30s – exactamente o meu ritmo mais optimista (daria 1h30min na meia-maratona). Na segunda volta comecei a sentir as pernas. Sentia-me cansado, mas começava a conseguir correr mais solto, mais relaxado. Ia passando bastantes atletas, o que é sempre animador (mesmo que eles já me levassem uma volta de avanço ou uma volta de atraso e portanto não afectassem a minha classificação final). De novo comecei a sentir a bexiga, mas fui atrasando nova paragem nas boxes até concluir que conseguiria esperar pelo fim da prova. Mantive o ritmo e passei em um pouco mais de 45min aos 10,5 km.





Segundo amigos e outros atletas, nesse momento, a meio da corrida, aumentei a velocidade. O meu relógio diz que não, que mantive sempre mais ou menos o mesmo ritmo. Mas notei altos e baixos de energia que provavelmente se traduziam em oscilações na velocidade. Pelo menos senti-me a correr melhor, mais solto. Nas últimas duas voltas, com medo de que me faltasse o combustível, decidi tomar mais um gel em cada uma. Sentia-me forte, em bom estado, mas sabia que em poucos minutos poderia apagar-me. Nada estava garantido.


Balanço

Ao fazer o último retorno no porto de abrigo observei que faltavam pouco mais de 10 minutos para completar a prova e finalmente senti confiança em que conseguiria chegar ao fim em bom ritmo. As pernas estavam cansadas e começava a sentir alguma dificuldade nas ligeiras subidas do percurso, mas eram só mais 10 minutos! Comecei a avaliar a experiência. Afinal, 1/2 Ironman é duro mas não tão louco assim (pelo menos para insanos como eu e os outros participantes). Talvez pudesse ter apertado um pouco mais na natação (para ganhar 1 minuto e ficar bastante mais cansado?) e no ciclismo (para ganhar 5 ou 10min e depois não conseguir correr?) – é muito fácil dizer “se” depois das coisas acontecerem. Com certeza repetirei a experiência, mas pensarei duas vezes antes de o fazer. Com a experiência vem uma melhor noção das minhas capacidades, dos meus limites, das estratégias que funcionam melhor (treinar mais, por exemplo, não deve ser má ideia), e com certeza poderei baixar uns minutos. E o Ironman completo? Claramente uma loucura... preciso de mais uns meses para passar a outro patamar de insanidade. A companhia dos outros insanos nesta prova ajudou (ou não, diriam os meus pais): começou a parecer-me que fazer um Ironman até é uma coisa relativamente normal...


Agradecimentos

Nos 500 metros finais, já na última recta antes de virar para a meta, tornei-me um receptor de energia cósmica. Convergiam em mim boas energias de todo o universo, provocando descargas eléctricas pela espinha dorsal. Agradeci ao Todo e a todos pela fantástica experiência daquelas 5 horas e tal:

Adelino: por ter lançado o desafio, pelo apoio logístico, pelas aulas de manutenção de bicicleta, pelos passeios na Madeira e Porto Santo

Alda, Miguel, Carolina e Eunice: pelo apoio, pelas reportagens fotográficas e vídeo, por me terem adoptado como mais um sobrinho/primo

Ana e Pedro: pelo estímulo para que me animasse a participar, pela organização, companhia, apoio ao vivo, reportagem fotográfica

João: pelas exaustivas consultorias ciclísticas e generosos patrocínios de equipamento

Triatletas insanos: pela companhia nesta maluquice, incentivo e inspiração (especialmente os mais “experientes” na vida - quem me dera estar nessa forma daqui a 20 ou 30 anos!)

Público: por terem aparecido e por se terem manifestado, com palavras e aplausos

Organizadores: por porem a prova de pé, pelo apoio na logística

Todos os que enviaram apoio e boas energias


Meta

Ao aproximar-me da meta passei pelo Artur Parreira, da Federação de Triatlo, que se pôs a procurar o meu nome na lista de participantes, para poder anunciar a chegada. Eu ia tão lúcido e com tanta energia que lhe gritei o meu nome enquanto iniciava a ligeira subida para a meta. Até fechei o fato como os pros, para ficar mais apresentável para as fotos finais. Cruzei a meta cansado mas a sentir-me fresquíssimo, aparentemente capaz de correr mais uns quilómetros! Super bem disposto, a radiar energia. E também muito feliz por poder comer qualquer coisinha sólida!



foto: Pedro Monteiro

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Os intocáveis

Um dos mais fascinantes fenómenos para quem visita a Índia é a existência das famosas castas, especialmente as castas baixas. No fundo da escala social estão os dalits, ou “intocáveis” (não por serem super-poderosos e ninguém, querendo, os conseguir tocar, mas, pelo contrário, por ninguém os querer tocar, sob pena de se tornar também “impuro”). São animais da espécie humana, com cabeça, tronco e membros, cérebro, coração, boca, olhos, nariz, etc., tal como a esmagadora maioria dos leitores das bulicenas. O que os distingue é que em algum momento da história foram destinados a funções na sociedade que outros seres talvez menos humanos não gostavam tanto de fazer: recolher lixo, limpar o chão, limpar casas-de-banho, etc. Os filhos, netos e bisnetos mantiveram ocupações semelhantes, os bisnetos dos bisnetos também, e por aí fora até ao actual século XXI. Ao mesmo tempo que a Índia se destaca como prestadora global de serviços em áreas tecnológicas ultra-avançadas, é comum encontrar “homens invisíveis”.

A “intocabilidade” é actualmente inconstitucional na Índia. Mas claro que isso não significa que não exista – crenças e valores não mudam por decreto. É difícil mudar conceitos tão enraizados na cultura que nem sequer são identificados, muito menos questionados – estão lá e pronto. Para ajudar a identificar o que deveria mudar, a lei indiana tem criado condições (obviamente polémicas) para discriminação positiva de dalits, por exemplo reservando quotas de acesso à faculdade ou à função pública.

Não posso dizer que na minha limitada experiência de Índia tenha captado profundamente as definições, mecanismos e consequências práticas do complexo sistema de castas – antes pelo contrário. Não sei a que castas pertenciam as pessoas com quem me relacionava no dia-a-dia nem detectei comportamentos que as denunciassem claramente (mas eu sou um tipo bastante distraído).

Os meses na Índia despoletaram uma introspecção e uma reflexão sobre a “minha” cultura e deixaram-me mais atento às minhas (e nossas) “programações”. Será o sistema de castas algo assim tão estranho? Será que não partilhamos conceitos semelhantes em todas ou quase todas as sociedades? Quando não reparo em quem recolhe o lixo urbano, quem varre as ruas, quem mantém a casa-de-banho do centro comercial imaculadamente brilhante... não estou também a classificar essas pessoas de certa forma como “intocáveis”? Sim, talvez não tenha (ou talvez tenha?) problemas em tocar-lhes fisicamente, apertar a mão, partilhar espaço num transporte público, até trocar umas palavras e agradecer o serviço... Mas até que ponto faço amizade com essas pessoas (será pura coincidência que não tenha nenhum amigo que se dedique a tais actividades?) ou consideraria uma delas para fazer parte da minha família? Até que ponto respeito e valorizo realmente, sem pena nem paternalismo, o contributo destas pessoas para o funcionamento da sociedade? Até que ponto os recompenso justamente pelo seu contributo? Lhes dou oportunidades para decidirem quem querem ser e o que querem fazer?

Se nos choca a existência de castas na Índia talvez nos devesse chocar também a existência de castas na nossa sociedade (mesmo que funcionem de forma diferente). Ou talvez não, porque é a nossa sociedade e na nossa sociedade as coisas são como têm de ser? São sempre os outros que estão mal. A bitola certa é a minha. Tudo o que me é próximo e semelhante, partilha as minhas características e preferências, é melhor, superior. Tudo o que é longínquo e diferente é pior, inferior.

Sistemas de castas, explícitos ou implícitos, servem para perpetuar o domínio de uns sobre outros. Se até quem é classificado numa casta “inferior” acredita inconscientemente no sistema, forma-se uma poderosa profecia auto-realizadora que assegura a manutenção do status quo. E estas programações estão tão enraizadas que por vezes estão reflectidas nas nossas leis, preceitos morais e, nos casos mais extremos, chegam até à boca de deus!!

No livro de Levítico, deus regulamenta assim a escravatura: “O escravo ou a escrava que pretendais adquirir devem sair dos povos estrangeiros que vos rodeiam; poder-lhes-eis comprar escravos e escravas. Podê-los-eis, também, comprar entre os filhos dos estrangeiros que residam no meio de vós, entre as suas famílias que vivem convosco e entre os filhos que lhes nascerem no vosso país, e serão propriedade vossa. Podeis deixá-los em herança aos vossos filhos, a fim de que os possuam depois de vós, tratando-os perpetuamente como escravos; quanto aos vossos irmãos, os filhos de Israel, que ninguém domine o seu irmão com dureza.” [Lev 25.44-46]

Com um deus assim, não admira que o estado moderno de Israel funcione como se tem visto. Mas não vamos cair de novo no erro de achar que é só o deus dos outros que está mal: como é o meu? Que histórias me conta, que mandamentos prescreve? Ajuda a melhorar o mundo, ou só a melhorar a esfera centrada no meu umbigo? Quem é intocável para mim?

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obamamania

“Bush terminou o seu mandato. Viva Obama!” – parece ter sido o grito do dia à volta do planeta. Não é claro se toda esta obamamania deriva (1) dos anticorpos gerados nos últimos oito anos contra Bush, (2) da cor da pele de Obama, ou (3) de méritos demonstrados do novo presidente. Se tivesse de apostar, diria que 60% vem de (1), 30% de (2) e 10% de (3). Afinal, além de ser muito bom discursador, falando de modo claro, poderoso e inspirador, não sei muito mais sobre ele.




Imagem: gawker.com



Rapidamente Bush será esquecido, o bronzeado de Obama deixará de ser novidade e os discursos terão de passar a acções. As revistas que têm censurado a criatividade dedicando repetidas capas ao messias Obama finalmente destacarão outros temas. Inevitavelmente, as decisões do novo presidente, boas ou más, incomodarão sempre alguém. Por muito competente e bem intencionado que possa ser, Obama não cumprirá as exageradas expectativas que todo o mundo parece ter gerado. Afinal, onde é que já se ouviu um povo falar bem dos seus dirigentes? Espontaneamente, em poucos lugares.

De qualquer modo, desejo o maior sucesso ao novo presidente da nação mais poderosa (e, por isso, mais perigosa) do mundo. Sei que é utópico, mas que fantástico seria se as acções dele seguissem o espírito das palavras (“walk the talk”, como se diz por aqui) que hoje partilhou no discurso de tomada de posse. Palavras cheias de bons sentimentos, bons valores, uma visão abrangente do mundo, pacifista, justa e em algum ponto até ecológica. Que tenha a coragem de tomar decisões difíceis (em que talvez alguns tenham de perder para muitos ganharem, ou todos tenham de perder hoje para todos ganharem no futuro), desafiando lobbies, grupos de interesse, financiadores de campanhas, preconceitos, de modo a gerar o máximo de felicidade no mundo. Que tenha humildade para lidar com a imperfeição, dele, dos amigos e dos menos amigos, e para não seguir os impulsos agressivos e belicistas a que os EUA têm habituado o mundo. Que tenha a sabedoria para decidir onde e como deve intervir. Que seja um agente do bem e não ceda ao “lado negro da força”.

Não existem salvadores do mundo, nem da nação. Foi sobre isso que Obama falou hoje, responsabilidade: “O que nos é pedido agora é uma nova era de responsabilidade – o reconhecimento, por cada americano, de que temos deveres para com nós próprios, a nossa nação e o mundo (...)”.

Se o povo estado-unidense acreditar, pode ser que se gere uma profecia auto-realizadora positiva, de responsabilização individual, de optimismo, de mudança para melhor. E quem sabe povos de outros pontos do globo não se inspirarão na mesma onda? Bem precisamos.

Responsabilidade



Com os meus limitados conhecimentos de hindi: "Tum chalo" = Tu, bora lá, butes nessa; "Hindustan chale" = Índia, bora lá, butes nessa. Ou como diria o mais famoso indiano: sê a mudança que queres ver no mundo. Vais ficar aí a olhar?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Bulinovas online!

Está finalmente disponível o arquivo de bulinovas: as aventuras vividas no ano 2003, no Reino Unido/Irlanda, Timor-Leste e Afeganistão.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Entrevista

Caros leitores, podem ler a entrevista que dei ao conceituado blog Ver para além do olhar, do famoso jesuíta João Delicado.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Profecias auto-realizadoras

Cinco dias antes da Páscoa, as multidões, “ao ouvirem que Jesus vinha a Jerusalém, pegaram em ramos de palmeiras e saíram-lhe ao encontro, clamando: «Hossana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel!» E Jesus encontrou um jumentinho e montou nele, conforme está escrito: Não temas, Filha de Sião, olha o teu Rei que chega sentado na cria de uma jumenta".[João 12.12-15]

Em várias passagens do Novo Testamento encontramos situações em que Cristo cumpre algo que estava escrito no Antigo Testamento. Em algumas, como esta, Jesus tem a capacidade de influenciar de forma muito directa os acontecimentos e realizar as profecias.

Uma profecia auto-realizadora é uma previsão sobre o futuro que influencia o futuro de forma a que a previsão se cumpra. O mundo está cheio delas a todos os níveis. Podem ser uma excelente ferramenta para construir um mundo melhor ou uma sentença para o condenar à desgraça. Será que podemos ser melhores profetas?

Se me convenço ou me convencem de que vou correr uma maratona em menos de três horas é provável que escolha uma maratona adequada, treine com disciplina e empenho, inicie a corrida no ritmo certo, procure combater as dores e o cansaço e alcance o meu objetivo. Se acho que não sou capaz, talvez nem chegue a inscrever-me na prova, não treine adequadamente, não corra no ritmo necessário, ou desista quando o corpo começar a doer.

Se me classifico ou me classificam como forte, “virtuoso”, é mais provável que desenvolva as minhas capacidades e as aproveite para ter sucesso na vida. Se sei que sou fraco, “pecador”, é mais provável que ceda à mais pequena tentação e não seja capaz de deixar de “pecar”. Se me considero sortudo é mais provável que assuma riscos e que me permita ter sorte. Se sei que sou azarado é mais provável que não arrisque e não petisque. Se confio que vou tirar boas notas e entrar naquele curso é mais provável que me aplique nos estudos e tenha sucesso. Se sei que sou preguiçoso e que não me consigo levantar quando toca o despertador é mais provável que fique deitado até tarde.

O professor/treinador/chefe/pai que acredita nos seus alunos/atletas/empregados/filhos investe neles e ajuda-os a melhorar e terem sucesso, a serem campeões da vida. O que não acredita tende a deixá-los penar e possivelmente fracassar. Se não acredito que o meu amigo/filho/pai/irmão/cônjuge seja capaz de fazer dieta e perder os 5 kgs é mais provável que ele não consiga emagrecer. Se sei que o meu amigo chega sempre atrasado e até já combino as coisas a contar com isso é mais provável que ele chegue atrasado. Se duvido que o meu amigo consiga deixar de fumar é mais provável que ele desista rapidamente.


Nestes últimos dias vieram até mim, clamando por serem partilhados, quatro textos que descrevem profecias auto-realizadoras em diferentes contextos:

Disbicicléticos” (que encontrei no blog dos Pais21), num exemplo sobre crianças com síndrome de Down, discute como ao catalogar uma criança com algum tipo de limitação nos desresponsabilizamos da sua educação e desenvolvimento e a condenamos a viver limitada.

The Matthew Effect” descreve o “efeito Mateus” aplicado ao desporto e à detecção de talentos desportivos: como a vantagem dos jovens atletas nascidos nos primeiros meses do ano (por serem significativamente mais desenvolvidos que os colegas nascidos no final do ano) lhes traz maior apoio nos primeiros anos de actividade física e como isso determina carreiras desportivas completas.

The Give and the Take” explica como a crença de que o álcool era necessário para uma vida feliz alimentou o vício do autor durante muitos anos, até que finalmente ele percebeu a espiral de morte em que se encontrava e mudou de “profecia”.

Afinal 2009 vai ser um grande ano!” propõe uma abordagem positiva ao novo ano, responsabilizando-nos por intervir na realidade, e especificamente propõe um foco no bem que a Igreja faz no mundo, que certamente ajudará a realizar essa “profecia” bem mais positiva que a alternativa de focar nas “asneiras”.


Aquilo em que acreditamos influencia terrivelmente aquilo que somos e em que nos tornamos, e aquilo que são e se tornam aqueles que nos rodeiam. Se podemos acreditar num mundo positivo e assim fazê-lo melhor, porquê acreditar num mundo negativo?

Quais são as tuas profecias para 2009?

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

The Twilight Zone

Uma hora de corrida no primeiro dia do ano, em Jersey City. Enquanto batia o meu recorde de temperaturas negativas a correr (–5ºC!), por alguma razão que não consigo recordar (nem poderia?) lembrei-me da Twilight Zone. Tentei lembrar a musiquinha da série. Só me vinha à cabeça a de uma outra série que nunca cheguei a ver (X-Files). Pensei que com certeza a encontraria no Youtube, mas rapidamente esqueci o assunto e voltei a sentir as pontas dos pés a congelar.

Apesar de praticamente nunca ver televisão (é como com o tabaco: só passivamente), à noite vi fazer zapping pelos infinitos canais disponíveis e uma imagem a preto-e-branco chamou-me a atenção. Recordei o episódio durante a corrida e senti-me exactamente num episódio da Twilight Zone: durante todo o dia tinha estado a dar um compacto de episódios da série!





Vi os últimos seis minutos do episódio “Time Enough at Last”. Suficiente para captar a espectacular ironia final, mostrando como vivemos tão apegados a coisas que acabam por manter a nossa felicidade refém. Falta-nos equanimidade para aceitar com serenidade o “bom” e “mau” que nos acontece.

Quem quiser ver ou rever episódios completos da Twilight Zone pode procurar em Fancast ou em IMDb.

Na minha memória, todos são espectaculares e fazem pensar um pouco. Por exemplo, “To Serve Man” obriga-nos a olhar para a humanidade de um ponto de vista externo. E não sei se gosto muito do que vejo. Aqui fica uma versão resumida: